Maniqueísmo e Liberdade
Segunda-feira, 14 de abril de 2014

Maniqueísmo e Liberdade

Por Roberto Tardelli

Nem amanheceu a segunda-feira. Muito cedo, somente as pessoas do ponto de ônibus dão ares humanos a esta cidade. O trem apita tão desnecessariamente quanto a viatura da polícia, que liga suas sirenes para ninguém. Um sonho talvez me tenha despertado, não me lembro. Os sonhos ficaram no sono e, despertado, não passam de imagens confusas e sobrepostas, de alguém ou algo ou onde ou se nada disso, apenas mergulhei e pronto. Nada ocorre nos sonhos, nada que seja tão irrealmente concreto como nossas fugas, medos, anseios.

As primeiras notícias da TV indicam que vamos na mesma na semana que se inicia. Continuaremos a ler os mesmos fatos e os mesmos oportunistas, visionários, canalhas, profetas, arautos do apocalipse ocuparão televisões, blogs, redes sociais com o aniquilamento moral de sempre. São maniqueístas: tudo fica mais simples e sempre há as delícias da zona de conforto existencial, que nos dispensa de aceitarmos as diversidades multifacetárias da vida, que nos livra da dificuldade atroz de admitirmos os riscos das possibilidades humanas, em que não há heróis ou vilões, apenas criaturas complexas e contraditórias, generosas e mesquinhas. A vida que propõem é feita de chavões e auto-ajuda barata. Todos podemos ser ricos, magros e felizes, tudo se resumindo a um selfie com amigos. Não há dualidades e as coisas se resolvem com simplicidade e pobreza de espírito.

Os malabaristas, os prestigitadores da bola, os engolidores de fogo e de facas, as odaliscas do farol, os meninos que pedem um real, os ladrões, os traficantes, os vendedores de merda from Paraguai que habitam o farol, estão do lado de lá da cerca maniqueísta e do carro. Estamos cada vez mais blindados e inacessíveis, com pensamentos mágicos de finalmente estarmos protegidos da patuleia pedinte e criminosa.

Presos em um impasse, não sabemos ainda se devemos ter pena ou ódio deles. Cristãos que somos, nossa caridade está em baixa e procuramos optar sempre por onde não precisaremos exercê-la ou negá-la, correndo para shoppings, onde a bolha do apartheid nos faz sempre felizes e alimentados nos fast-foods. Odiamos a Copa do Mundo, mas amamos o futebol. Odiamos a Copa porque veio na carroça de um governo que nos frustra quando acerta alguma coisa. Sentimos falta do bacharel colonialista, do coronel engravatado. Sentimos falta de alguém que nos diga o que é certo e o que é errado e nos poupe de nossas descobertas morais.

Maniqueismo_LiberdadeElegemos a causa de tudo: a impunidade. Se houvesse uma pesquisa de opinião pública, certamente a impunidade seria imbatível, como a princípio e o fim de nossos males. Nosso complexo de inferioridade encontrou nela sua bactéria deflagradora de nossas mazelas. Se puníssemos com mais energia, se o chicote estalasse com mais energia, as coisas seriam melhores. Nossos políticos são corruptos porque são impunes, somos assaltados por moleques e vadios, porque são impunes, o trânsito é um inferno porque os outros motoristas são impunes, nossa educação é um lixo porque os alunos são impunes. A impunidade é a causa imanente de tudo.

Essa é a mentalidade tipicamente maniqueísta. Divide o mundo entre bons e maus, entre mocinhos e bandidos. Os mocinhos capturam e prendem os bandidos e tudo fica bem. Os mocinhos são brancos e lindos, namoram e comem educadamente, sonham com um mundo de paz, em que todos respeitem as regras feitas por eles. Os bandidos são os que ficam no farol, ameaçando uma sociedade da qual não fazem parte, porque se trata da “sociedade ordeira”. Essa é a sociedade defendida pelos mocinhos e pelas Forças do Bem.

Nesse simplismo, não há lugar para aceitações de comportamentos que escape à dualidade preto-branco, homem-mulher, patrão-empregado, crime-impunidade e outras que poderemos infinitamente enumerar. Tudo o que vem a quebrar as dualidades é imediatamente rejeitado e criminalizado. Quem ousar desafiar os padrões pré-fabricados das dualidades consentidas, será discriminado, desmoralizado, exibido como “mau exemplo”.

É nessa fornalha ideológica que se forjam os ressentimentos todos, nesse eixo Bem-Mal giram os preconceitos, giram as discriminações, giram os arbítrios, giram as violências públicas que vemos todos os dias. Esse eixo justifica a invasão de uma comunidade, de um bairro pobre, justifica um regime racista, justifica homofobias, xenofobias e retroalimenta seu próprio discurso. Cada vez mais a impunidade crescerá e justificará a necessidade de uma reação.

A sociedade maniqueísta sempre será cindida e o país que dela resulta é necessariamente dividido.

O Brasil maniqueísta se esconde na máscara do medo, consome-se no discurso superficial e vulgar, a culpar a nós mesmos pela indefinível sensação de insegurança, a um só tempo inevitável e fruto de uma inferioridade histórica. A máscara que nos sobressalta é aquela que nos esconde de nós e nos faz estranhos entre os iguais, que nos faz pedir vinganças contra o mal por nós mesmos causado, porque ele é resultado de nossa moagem ideológica, caótica e profundamente discriminatória.

Temos um Brasil que hostiliza e rosna feroz para outro Brasil, que vive nos faróis, que invade terras bem nascidas, que silenciosamente cobra a realização de nosso projeto republicano, nascido em glorioso momento de inspiração, em um raro sopro que tivemos de nação, em 1988, um dia em que amanheceu diferente e que nos fez sonhar acordados com uma terra em que plantariam as sementes mundiais da gentileza, um lugar no mundo em que as pessoas teriam assegurado em lei o direito à felicidade enquanto construção humana de liberdade.

Segunda-feira, 14 de abril de 2014
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