Ele tem saudades da ditadura
Terça-feira, 22 de abril de 2014

Ele tem saudades da ditadura

Por Roberto Tardelli

Outro dia, não faz muito, um conhecido, senhor vetusto e de muitos poderes, me confidenciou que tinha saudades da ditadura. Sim, precisamente, ele me disse que tinha saudades dos tempos da Ditadura Militar. E, sem se dar conta de meu espanto, em seu devaneio, admitiu que viver sob uma Ditadura, embora tivesse lá seus poucos incômodos, tinha a enorme vantagem de “não ter essa putaria toda que a gente vê hoje”. Achei interessante a forma como se referiu à “putaria”: existia, mas era em proporções menores.

Por mais que eu respeite as opiniões alheias e procure respeitar ainda mais as que divergem das minhas, não é possível aceitar-se passivamente aquele que é saudoso de um regime, em que alguém ou um grupo se posiciona em nível de superioridade moral e governa nossas vidas ao sabor de conveniências que começam e terminam nos interesses dos que sustentam essa pessoa ou grupo no Poder.

Na democracia, a estabilidade do regime de leis garante nossa tranqüilidade, ou do que restar dela, que decorre da solidez de instituições curiosamente detestáveis, como os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Por menos que os suportemos, é muito melhor para todos nós que eles existam e funcionem a plena força, com seus méritos e defeitos. Aliás, quem reclama em uma democracia e suspira de saudades de um feitor durão, com cara de mau e cheio de poderes, não se dá conta que a recíproca não é verdadeira. Em outras palavras, na democracia, reclama-se muito, de tudo e o tempo todo, tornando-nos chorões políticos em tempo integral. Na Ditadura, só se reclama em silêncio, porque reclamar é o mesmo que conspirar e os conspiradores são todos destruídos; na Ditadura, somente o tirano pode reclamar e normalmente reclama de nós, o povo incompreensivo que deve se lascar sempre e mais, até aprender a amar aquele que pensa e decide por todos. Na democracia, por mais infamante que seja o crime, é sempre garantida a ampla defesa; na ditadura, por menos relevante que seja a possibilidade de transgressão à ordem imposta, a condenação já está no kit, luzindo no coletivo pacote de descidadania.

Esse vetusto senhor reclamava da indolência brasileira e dizia que toda sua família era inconformada por não haver pena de morte. Falava sem refletir que ele mesmo pedia que o Estado eventualmente decepasse sua própria cabeça ou a de alguém de seu círculo de afetividades. Dar licença para matar foge à minha vã imaginação. Reivindicar que se mate, com a devida vênia, é ter milhares de parafusos a menos. Exigir que se mate é renunciar ao sistema nervoso central.

Tenho certo que todos os pedem ditadura e pena de morte, fazem-no em relação aos outros, não me parecendo ter ideia que sua vida também mudará para muito pior, caso esse país de pesadelos venha mesmo a existir. Sempre que vejo pessoas defendendo essas idéias, não consigo vê-las de um lado do balcão onde estejam na companhia das pessoas que sentiriam o efeito dessas mudanças. Os radicais são sempre radicais para o próximo, jamais para si mesmos porque nunca se incluem como vítimas da quebra jurídica que defendem.

É o Brasil do apartheid: as leis seriam feitas para os outros, porque nada mudaria, na verdade, para os que ocupam as posições de domínio que jamais foram afetadas. Se houver uma Ditadura, meu saudosista amigo estará do lado de dentro da mesa e estará com a mão na chave elétrica se houver pena de morte. Seriam dois coelhos-do-mato com uma única e certeira paulada. Ditadura e pena de morte para segurar essa patuleia da favela, para jogar ao limbo onde estavam até pouco tempo atrás os homoafeativos, na companhia dos que pretendem ver descriminalizado o aborto e, os piores!, os que pretendem ver liberada a maconha, para “uso recreativo”, como insistiram comunistas americanos do Colorado. O Ditador estalaria seu chicote e bolsas-familias e congêneres deixariam de existir.

Quem pede Ditadura dá as costas para a História e desconsidera o fato de que a quebra da ordem jurídica nos colocaria em uma situação de constante perplexidade e insegurança, sempre nos humores do ditador ou nos interesses do grupo que o sustentou e sustentará. Na democracia, com as dificuldades todas de nossas limitações, aprendemos a conviver com a diversidade humana; na ditadura, o grupo hegemônico impõe seus valores e dizima tudo o que lhe for discordante.

Na democracia, nossa (justa) indignação porque acabamos íntimos de corruptos, canalhas, patifes, embusteiros, falsos profetas, malandros, sabemos onde foram, para onde viajaram, suas (seus) amantes; continuamos a votar neles, é vero, mas por razões de outra ordem. Conhecemos todos exatamente porque estão expostos,  com janelas abertas e  salas iluminadas; se apagássemos as luzes, poderíamos confundi-los com estadistas, como já nos ocorreu de outras vezes, com picaretas de outros tempos, inclusive, muitos deles, mosquitos que voavam em torno das botas dos Chefes da quartelada.

Havia, porém, nesse meu saudosista amigo uma certa amargura com essa estranha forma de governo, que permite ascensões sociais inconvenientes. “Era mais fácil antes, quando cada um sabia seu lugar”, embutido que era dizer lugar de branco e lugar de preto, lugar de rico e lugar de pobre, lugar de patrão e lugar de peão. Em uma democracia efetivamente republicana, esses lugares se confundem.

O Brasil não é preparado para a igualdade, não sabemos bem o que fazer com ela, afinal, monarquia e escravidão nós formaram, assentando em nós a licença moral para os dois extremos pavorosos da sociedade humana, os que nada fazem, fizeram ou fariam, a viver do sangue dos que jamais tiveram outra coisa que não fosse o trabalho extenuante e subremunerado. Admitimos constitucionalmente o direito de herança e nos ofendemos nas poucas vezes em que um pedinte no farol não nos chama por “Doutor”, traço de tratamento que impõe e marca as diferenças e os direitos de cada um.

Somos sectários de nascença e a nostalgia de meu amigo, desgraçadamente, é a de muitos de nós, fechados em carros blindados e em condomínios malucos com segurança.

Ouvi isso e fui embora, no caminho, um punhado de gente feliz comia nossa mais generosa iguaria: o pastel de feira, esse um que ditadura alguma conseguirá derrubar e que representa silenciosamente nossa oculta vocação de papear, xingar o governo e seguir adiante na vida. Nas feiras todas da semana.

Nas semanas todas da vida. Iguais, mas sem sabermos ainda que somos.

Roberto Tardelli é Procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo.

Terça-feira, 22 de abril de 2014
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