Mães que não amam
Terça-feira, 13 de maio de 2014

Mães que não amam

Por Roberto Tardelli.

Nessas datas emotivas, talvez seja o Dia das Mães uma espécie de top-ten delas, todos nos tornamos mais suscetíveis a expressões fortíssimas como “amor incondicional”, que nesses momentos, ganham um alento e transcendem sua condição de clichês representativos do amor materno, e ganham existência real, como se houvesse efetivamente incondicionalidades em algo absolutamente humano, que é o amor. Os animais não amam, apenas cuidam até certo momento da vida de seus rebentos e, lançados livres e adultos na Mãe maior, nada impedirá que gerem filhos com quem os gerou, já que sequer mais se reconhecem. Não há incesto ali, apenas a preservação da espécie. Incondicional é a lei da natureza, a lei natural, aquela que não depende de condições morais, de conformações éticas, religiosas, políticas ou morais. Não pode, portanto, haver um amor incondicional.

Por isso, o tal “amor incondicional” acaba se tornando uma imposição às mulheres, que somente podem amar loucamente seus rebentos, sejam quais forem as circunstâncias que envolverem sua vida, sejam quais forem as solidões, os desamparos, os ressentimentos e culpas.

Nas crianças, existe o correlato dever de “ingratidão incondicional”. Tenha ela sofrido males desumanizantes, sofrido cruéis castigos, relegados a negligências de toda ordem, nem por isso lhes é lícito ter horror ou raiva ou ódio, criações também humanas, àquela que a gerou é a trouxe ao mundo. Amar a mãe é postulado da civilização judaico-cristã e, entre esses últimos, cada relação mãe-filho tem no mito de Maria, a mãe de Jesus Cristo, sua base, fonte e rampa de lançamento. Maria, a mãe de Cristo, é o arquétipo materno: casta, virgem, tem em seu ventre o fruto abençoado.

O círculo mãe e filho, pois, se fecha e se alimenta da dicotomia amor-gratidão, um e outro incondicionais, ou seja, acima e sobre quaisquer circunstâncias humanas, profundamente humanas, que unem e separam, que acolhem e afugentam.

“Ele me engravidou, Tardelli, e me largou ali, nem uma fralda, nem uma fruta, nada e passa todo dia, todo dia!, com ela na garupa da moto, rindo da minha cara. Ele tem o mesmo sorriso cínico do pai, tem o mesmo jeito de andar que o pai, o nariz é igual, as vozes são tão iguais que quando ele me chama, penso que é aquele canalha. Eu estava me separando, tinha ódio dele, fraquejei e engravidei. Meu filho mais novo já estava criado, fui num forró, bebi demais e voltei com ele no bucho. Tomei chá, tomei beberagens, fiz promessa para perder, mas ele grudou na minha barriga. Olho pra ele faz dez anos e tenho certeza que ele nem sabe que eu existo. Falei pra professora, pode bater à vontade, tirar sangue, pra mim não puxou. Dos meus três filhos, esse é o único que não presta pra nada. Bati com gosto. O que foi que eu fiz para merecer esse castigo? Deveria ter deixado vc com teu pai.”

Essas frases ouvi por anos a fio. Foram ditas por mães e em todas as ocasiões, tinham ao lado o rebento, que, tempos depois, anos depois, estaria sorrindo com ela em uma foto na rede social. Isso porque o amor materno, como qualquer outra forma de amor, não é uterino, não é resultado do parto. Ao contrário, o resultado do parto pode ser desastroso para o bebê, podendo chegar ao infanticídio. Esse crime, descrito pelo art. 123 do Código Penal, “matar a mãe o próprio filho durante o parto ou logo após, sob influência do estado puerperal”, é cada vez mais raro, ao menos nos centros urbanos mais desenvolvidos porque os partos ocorrem em ambiente hospitalar, onde a criança acaba protegida da própria mãe, muitas vezes aterrorizada pela dor do parto, aterrorizada pelo medo de nascer uma criança difícil de ser amada, com medo da solidão decorrente do procedimento operatório, aterrorizada pela expulsão de um ser vivo de dentro de si, aterrorizada pelo futuro incerto que chegou entre sangue, placenta e dor, que podem levar a parturiente a um estado mórbido que não é amor pela criança que nasce.

Em uma concepção religiosa e vingativa, a gravidez, muitas vezes, é a punição pela relação sexual ilícita, irrefletida e inconseqüente, que deve ser levada pela vida toda pela mulher que transgrediu; essa punição não atingirá apenas a ela porque essa punição, gravidez, traz consigo um ônus que pode estar além de seu entendimento e de suas forças, que é o de criar seu filho, muitas vezes sob olhares censores de famílias nem sempre vocacionadas para o acolhimento àquele que chega sem ser convidado.

Essas mulheres são julgadas pelo não-amor que deveriam devotar aos filhos e que não conseguem fazê-lo porque, antes da maternidade, existiam feridas abertas e que foram purgando cada vez mais.

Ela foi humilhada no limite de sua alma, sentiu o invasor arrebentando sua intimidade, seu pudor, seu recato; estuprada, o filho que saiu de dentro dela tinha o rosto, a marca e olhos daquele que a estuprou. Conseguir amar esse filho é uma tarefa sobre-humana de superação. Embora o Código Penal autorize a interrupção dessa gravidez, decorrente de estupro, nada lhe será fácil simplesmente porque praticamente inexistem estruturas públicas de atendimento a que possa recorrer em tempo hábil.

Essas mulheres, tratadas como seres desnaturados, incapazes de amar incondicionalmente suas crias, existem e andam e cruzam conosco pelas ruas. Escondidas, envergonhadas, clandestinas, elas nunca tiveram apoio algum e são esquecidas porque, na idealização religiosa da maternidade, na exigência de um incondicional amor, esses sentimentos humanos pecaminosos sequer são permitidos, muito mais se a mulheres trabalhadoras, pagadoras de impostos; não lhes é permitido amar em outras chances de concepção ou que pudessem realizar a maternidade de outra forma.

Essas mulheres podem estar tão próximas de nós que de tão perto sequer as vejamos.

Que cometem o pior dos crimes não escritos na lei, o de não conseguirem amar, tão grave que há ficar dentro dela, proibido de sair ao mundo, de revelar-se ao mundo. Um crime tão cruento e humano, tão humano e desolador, que sua pena é essa: silêncio eterno. Obsequioso, quebrado apenas pela pancada, pelo abandono, pelo remorso invencível de quem tentou amar e não teve forças para tanto.

imagem Lin Pernille Photography
Terça-feira, 13 de maio de 2014
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