Monstros
Segunda-feira, 19 de maio de 2014

Monstros

Estávamos em uma roda. Aquelas rodas de amigos e amigos de amigos, em volta de uma plataforma de idade imemorial e, desde que foi inventada pelo gênio humano, cumpre sua função de unir pessoas, a mesa. Estávamos em torno dela, fôssemos mais primitivos umas eras, seria a fogueira que nos poria lado a lado. A modernidade nos coloca a mesa como suportes para separações, cada qual em seu smart-phone, nos grupos de whatssapp, as mesas eletronicamente corretas estão cada vez mais silenciosas, cada vez menos debatedoras.

Nessa mesa moderna, estávamos quando um de nós deu a dizer e a curtir mil vezes uma cena horrível de um crime, praticado por um monstro.

– Pensar que vão soltar esse monstro um dia…

O  monstro havia despertado a indignação – tão facilmente encontrável nas redes sociais – das massas e, não precisou de um segundo para que ele, sem nenhum direito de defesa fosse destroçado por todos os irados internautas.

Quando as pessoas se convencem de que um crime, seja de que dimensões for, esteve a cargo de monstro, o que se opera é um interessante processo de desumanização do criminoso, que perde sua humanidade e, assim, perdendo sua humanidade, tem justificado os atrozes tratamentos que recebe.

Essa desumanização acaba justificando os linchamentos, os justiçamentos sociais, a legitimação moral de presídios superlotados, a defesa da pena da morte, a defesa da redução da idade de imputabilidade penal, a gritaria contra o excesso de recursos, justifica o regime disciplinar diferenciado porque ela rompe uma barreira, que é a barreira da igualdade de condição humana. Ela se rompe até no pensamento e na formulação linguística, haja vista que que a referência a esse criminoso se dá como se ele pertecensse a uma raça não-humana, eles são capazes de tudo

Ninguém se dá conta ou recusa a obviedade refletida nos espelhos sociais que todos os crimes, todos, sem nenhuma exceção, por pessoas humanas. Se todos somos pessoas humanas, parece ser clara a dedução de que nós, qualquer um de nós, está maios próximo do crime do que imagina. Aliás, é lugar comum dizer que todos já dizimamos populações inteiras de maus motoristas (lembrando-se que mau motorista é todo aquele que nos dificulta a ultrapassagem ou mudança de faixa) em pensamento. Já matamos professores, pais, chefes, superiores, prefeitos, jogadores de futebol que perdem o gol debaixo da trave, enfim, a morte ronda nosso pensamento a toda hora.

A diferença entre nós e o monstro  é que ele executou aquilo que mantivemos em pensamento. É dizer, ele apenas saltou o muro que divide a idealização da realização…

A desumanização nega o Direito, encerra qualquer possibilidade de ação civilizatória e nos torna brutais, cruéis, rancorosos, vingativos e no tratamento que dispensamos aos monstros, quase sempre acabamos por ser mais mostruosos que ele.

O linchamento é uma dessas formas primitivas de crueldade social e tem raízes históricas antigas e muitos o confundem com uma espécie de purgação de claro conteúdo religioso e sexual (notadamente se a vítima for do sexo feminino ou ostentar um padrão de sexualidade não aceito). Linchar é algo que simbolicamente se fazia muito e ainda se faz, por exemplo, no sábado de aleluia, dia da malhação do ícone da traição cristã, Judas. Bonecos de Judas são destruídos a pauladas e ao final queimados. Quem defenderá Judas? Sem defesa, Judas sequer terá para onde correr e, monstro que foi, cuja delação resultou na prisão e martírio de Jesus, conforme se prega no cristianismo, teria mesmo que acabar como sempre acaba, linchado.

Negar o Direito e negar direitos será sempre a pior das decisões políticas que de poderia tomar, até porque o vento que hoje sopra a favor, amanhã poderá soprar contra.

Depois da catarse eletrônica, depois do linchamento virtual, o amigo pediu mais um chopp. Foi natural a ele o chopp, magnífico em uma tarde suarenta, como foi escrever palavras horrorosas que não combinavam com sua elegância e educação; era visível sua urbanidade, seu respeito, sua boa formação, seu nível cultural acima da média muitos degraus

Vi sua postagem e a li em voz alta. Li para que ele ouvisse o que ele próprio, educado e fino, escreveu. Ele me olhou incrédulo.

– Eu escrevi isso?

Envergonhado, apagou a postagem. Pediu a conta. Sua cota de monstro parecia esgotada.

Segunda-feira, 19 de maio de 2014
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