Avanço ou Retrocesso na Índia após as Maiores Eleições do Mundo
Terça-feira, 20 de maio de 2014

Avanço ou Retrocesso na Índia após as Maiores Eleições do Mundo

Por Maristela Basso.

Os resultados das eleições, na Índia, divulgados na última sexta-feira, dia 16 de maio, declararam o fim da “Dinastia Nehru-Gandhi” que dominou a política do país desde a sua independência, em 1947. O “Partido do Congresso” (da família Gandhi) teve o pior resultado da história e vai mandar para casa seu expoente e premiê, Manmohan Singh, no poder há mais de dez anos.

Em vitória retumbante, o “Partido do Povo Indiano” (BJP-Bharatiya Janata Party), conquistou 282 assentos dos 543 da Câmara dos Deputados da Índia. O que equivale a dizer que um único partido pode formar o novo governo sem apoio de nenhum aliado – a primeira vez que isto acontece em 30 anos.

O mérito da vitória do “Partido do Povo Indiano” se deve a Narendra Modi, um verdadeiro tsunami da oposição. Como governador do estado indiano de Gujarat, Modi implementou técnicas administrativas eficientes, abriu a economia, investiu em infraestrutura e fez o estado crescer acima da média nacional. Ele deve ser o novo premiê da Índia.

Não obstante a imagem de empreendedor moderno, cercado de assessores destacados do setor privado, Modi é um enigma. De um lado é um nacionalista convicto, adepto ao hinduísmo ortodoxo. De outro, é filho dileto da “Organização Nacional dos Voluntários”, grupo extremista de direita radical paramilitar. Na biografia de Modi está o massacre de mulçumanos no estado de Gujarat, em 2002, quando ele já era govenador. Por esta razão, o governo norte-americano cassou seu visto de entrada no país. 

Diante desse histórico, sua eleição, ainda que democrática, legal e transparente, suscita muitas dúvidas e inseguranças. A ideologia hinduísta de Modi resume a civilização indiana, feita de mestiçagens, apenas à comunidade hindu (80% da população). As minorias mulçumana (14%) e cristã (2%) devem ficar fora do espaço público. Ademais, Modi silencia quanto ao futuro de cerca de 1,3 milhão de catadores de excrementos (98% mulheres) que pertencem à casta dos intocáveis (“dalits”). São eles que fazem o trabalho sujo para 15 milhões de pessoas no país.  

Na Índia, segundo o Banco Mundial, uma em cada dez mortes se deve à falta de saneamento básico, o que implica cerca de 780 mil indianos mortos por ano.

Os direitos das mulheres são frequentemente negligenciados.  Um estudo recente da ONU estimou que dois terços das mulheres casadas na Índia sofrem violência doméstica.  O infanticídio feminino e o aborto seletivo por sexo ainda acontecem sob os nossos olhos e refletem a partilha desigual de recursos disponibilizados para as mulheres e meninas em áreas como acesso à educação, alimentação e assistência médica. 

Devido a falhas no sistema de saúde, dezenas de milhares de mulheres indianas e meninas morrem a cada ano em trabalho de parto e gravidez, ademais de sofrerem lesões evitáveis, infecções graves e deficiências decorrentes da má alimentação.  Dados recentes mostram que mais de um quarto das mortes maternas no mundo ocorrem na Índia.  O coeficiente de mortalidade materna do país é muitas vezes superior ao da Rússia, China e Brasil (para ficar apenas nos países do BRICS); e uma menina que atinge a idade reprodutiva na Índia tem 100 vezes mais probabilidades de morrer de causas absolutamente controláveis do que uma garota no mundo desenvolvido.

Milhões de crianças na Índia não têm oportunidades educacionais.  Embora a Constituição preveja o ensino primário obrigatório e gratuito – a realidade é desigual entre as castas e entre ricos e pobres.  Um grande número de estudantes está fora da escola por motivos que incluem a pobreza. Milhões de crianças ainda hoje estão empregadas em locais perigosos e outras nas “piores formas” de trabalho humano. A discriminação de gênero, casamento precoce, a má qualidade dos professores e currículos fracos, assim como a falta de serviços básicos, fazem parte da realidade do país. Muitos ainda são afetados por conflitos internos. É prática corrente o recrutamento de crianças a partir dos 12 anos e jovens de 16 e 17 anos pelas forças militantes internas para operações armadas.

É uma vergonha e uma desonra. 

A Índia é a segunda maior população do mundo, a décima economia do globo e um dos “players” em maior expansão no comércio internacional. E, enquanto o povo se divide em castas, os “dalits” fazem o “dirty job”, as crianças são vilipendiadas, as mulheres estupradas e a corrupção capeia, nós, aqui, queremos saber se o comércio bilateral Brasil-Índia vai ultrapassar os US$ 9,5 bilhões de 2013, e a comunidade internacional faz vistas grossas ao que o “Partido de Povo Indiano” fará com o novo “hindu power”.

imagem Yogesh Mhatre

Terça-feira, 20 de maio de 2014
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