Vista do Brasil, de uma janela de Brasília
Terça-feira, 20 de maio de 2014

Vista do Brasil, de uma janela de Brasília

Por Luiz Carlos Gonçalves.

 

Quem ama o feio, bonito lhe parece. Esta é minha relação com a cidade de São Paulo: amada e feia, que dizer, bonita. É um pouco mais difícil reconhecer a beleza, admito, quando se olha para as ruas e se vê aquela miríade de postes perfilados, com fios de energia desgrenhados.  Ou quando nos lembramos das calçadas quebra-saltos e sai-daqui-cadeirante que temos.

Em Brasília, vendo da janela, logo abaixo,  uma avenida larga e arborizada e, ao fundo, o Lago Paranoá, penso que dá para considerá-la bonita, mesmo que não a amemos. Os fios estão aterrados. E o risco de quebrar saltos é menor, porque ninguém anda a pé e nem sei como procedem os cadeirantes e pessoas com deficiência.

Brasília é também uma cidade mais segura do que São Paulo, especialmente o Plano-Piloto. Vejo – da mesma janela carros conversíveis passando, capotas abertas.As pessoas não tem aquele medo fóbico do que pode acontecer no próximo sinal fechado. Os crimes violentos – que existem, é claro – ainda parecem gerar a onda de indignação que se perdeu um pouco em São Paulo.

Se passearmos pelas avenidas poderemos nos iludir que estamos numa cidade européia (menos a rodoviária: que horrível!). Iriam chamá-la de Nova Lisboa, a princípio. E tem a arquitetura, mais estranha do que bonita, a meu ver. A obra de Niemayer tem seus fãs, embora eu não seja um deles.

Seria possível que tivéssemos um Brasil inteiro “padrão-Brasília”? Digo, padrão “Plano-Piloto”?  Ouvi dizer que a renda per capita da cidade é equivalente à da Suécia. Mas há outras cidades ricas no Brasil que não são tão bonitas. O exemplo, de novo, é São Paulo.

Uma objeção imediata a este devaneio é que nem Brasília é assim, padrão “Plano Piloto”, e que algumas das cidades-satélites são ainda mais feias e perigosas do que… São Paulo.

Pergunto-me se algum dia poderemos dizer que o Brasil é o país das avenidas largas e arborizadas, mais seguras, com fios aterrados e calçadas bem feitas. Se o Brasil fosse Brasília, seríamos do primeiro mundo (a despeito das mazelas das cidades-satélite). Agora está até fácil vir do Aeroporto para a região central, porque fizeram um túnel (trincheira, como chamam aqui). Só não agradeço à Copa do Mundo porque ela multiplicou por três o preço dos hotéis.

Bem, mas esta é uma coluna que, supostamente, deve falar de Direito Penal e não de turismo comparativo. Pois é: estou falando. Pode um sistema penal justo contribuir para que tenhamos uma qualidade de vida melhor em nossas cidades, mesmo que sejam como São Paulo?  Aterrar fios e melhorar calçadas, evidentemente, não se encontram entre suas finalidades mas, talvez, quem sabe, ele poderia dar uma ajudazinha no problema dos semáforos…

Sem desistir de embelezar São Paulo, medito em Brasília como a redução no índice de crimes poderia ajudar na qualidade de vida. A cidade acaba de realizar mais uma “virada cultural”. Os jornais noticiam violência, crime, arrastões. Quem iria com sua família se submeter a tais riscos?

Vendo, daqui, uma avenida larga e arborizada, com um lago ao fundo, na qual automóveis passeiam com suas capotas abertas, penso no Brasil que poderíamos ter. Já amado, ele seria ainda mais belo.

imagem Leandro Neumann Ciuffo’s
Terça-feira, 20 de maio de 2014
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