Violência Doméstica Contra Crianças
Sexta-feira, 23 de maio de 2014

Violência Doméstica Contra Crianças

Por Carla Moradei Tardelli e Leandro Souto da Silva.

 

Sabemos que ao publicar esse texto receberemos muitos comentários desfavoráveis à nossa opinião. Ainda assim, decidimos fazê-lo, já que a onda de violência a que estamos assistindo traz à tona a questão da educação de crianças e adolescentes e a utilização de castigos físicos como a solução mágica para muitos desses nossos problemas.

As redes sociais trazem muita informação e entretenimento, mas também grande dose de preconceito e equívocos.

Uma das postagens que nos chamou a atenção recentemente foi uma que mostrava um pé de chinelo, uma varinha e outros instrumentos de castigo físico. O texto era algo como: “Se você se lembra disso hoje é uma boa pessoa”.

A nós pareceu revoltante associar o bom comportamento atual à violência sofrida quando se era frágil e sem condições de reação.

Grande parte das pessoas alega ter sofrido maus tratos e ter “chegado aonde chegou”. Como se ter tido seus corpos violados por castigos físicos as tornassem melhores e influenciasse na formação de seu caráter.

 A violência física, em geral, só ocorre quando o agressor percebe o agredido como alguém frágil, temeroso e sem possibilidade de responder na mesma moeda.

Pais castigadores acreditam que ao agredir seus filhos estarão impondo-lhes respeito ao próximo, valores morais, educação. Ora, isso é absurdo!  Como ensinar a alguém a ter respeito pelo próximo agredindo seu corpo, castigando-o fisicamente?

 Façamos um paralelo. Quantos familiares, adultos, além de nossos filhos, nos irritam, faltam com o respeito, destratam-nos abertamente? Alguma vez já pensamos em castigar fisicamente nosso irmão irritante, nossa cunhada arrogante, nossa tia fofoqueira? E no trabalho? Quantos colegas, subordinados e superiores não interagem conosco com o devido respeito? Nós os agredimos fisicamente para “ensinar-lhes” o modo correto de comportamento?

A resposta é não. Buscamos o diálogo, o acordo, a conciliação. Do contrário a convivência se tornaria insuportável, impossível.

Por que em casa, no ambiente que deveria ser o mais aconchegante e propiciador de respeito mútuo, pais e mães se consideram no direito de agredir seus filhos fisicamente, como se fossem sua propriedade, no pior sentido da palavra, ou seja, objetos que podem ser malhados e feridos para que passem a respeitar o outro?

A resposta nos parece simples. Porque a criança, que normalmente idolatra seus pais e considera certo tudo o que eles fazem, não reage! Apanha calada, chora, se sente culpada e merecedora daquele castigo, por acreditar que seus pais querem o melhor para ela. Não questionam, por um longo período, a atitude dos pais, assim como muitas crianças violentadas sexualmente também agem, acreditando que as carícias impróprias são parte do cuidado que deveriam receber.

Considerar o castigo físico algo normal, correto e não passível de crítica é o mesmo que um pai considerar sua filha sua posse e afirmar-se no direito de deflorá-la antes de qualquer outro que o faça. É não respeitar o corpo da criança, invadindo seu espaço pessoal, com a falsa imagem de que assim estará evitando maus comportamentos futuros.

Enquanto isso ensina à criança que a violência se justifica, que o diálogo não funciona e que respeitar é temer aquelas figuras que deveriam ser referência de amor e compreensão.

Na próxima vez em que estiver próximo de alguém prestes a castigar fisicamente uma criança, normalmente o próprio filho, repare em seu olhar sádico e no prazer que a descarga de agressividade lhe traz. Essa observação pode nos fazer menos coniventes com a violência contra a infância.

No mesmo momento, olhe para a criança e perceba qual seu sentimento: gratidão pelo castigo ou medo, terror ou ódio por ele.

O uso da violência pelos pais, muitas vezes, reproduz a violência por eles sofrida. Algo como, se eu passei por isso e estou aqui, você também pode passar. Ou seja, no fundo há um desejo de retaliação, de vingança dos próprios pais, por meio dos filhos.

Buscar o diálogo, ensinar com carinho, dar exemplos de respeito ao próximo são formas muito mais eficazes de educação do que a agressão física, que só revela descontrole e agressividade direcionada a quem não pode se defender.

Finalmente, antes de manifestar sua opinião sobre a recém aprovada Lei Menino Bernardo, anteriormente conhecida como “Lei da Palmada”, reflita um pouco sobre seus valores e os que transmite às novas gerações. Procure fazer um paralelo com a violência da qual você não quer ser vítima e abomina e a violência imposta a quem não pode se defender e tolerada por grande parcela da sociedade.

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Sexta-feira, 23 de maio de 2014
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