Excelentíssimos
Segunda-feira, 26 de maio de 2014

Excelentíssimos

Por Roberto Tardelli.

 

Recebi um ofício, endereçado a mim, mas que antes de meu nome trazia uma sentença longa de tratamento, porque além de mim mesmo, eu era EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR. Após esse enorme tratamento, eu. Logo em seu primeiro período, vinha lá que “temos a honra de convidar Vossa Excelência…” 

Coisas do Brasil dos bacharéis alguém ser chamado não apenas de “muito bom” ou “excelente”… Não. Ser “excelentíssimo” é trazer um superlativo máximo da língua portuguesa. É impossível alguém ser mais que isso, uma espécie de fronteira do infinito da excelência, ser “excelentíssimo”. É o fim, o limite final e impossível da excelência humana. Porém, vai-se adiante e sou tudo isso, mas também sou “Doutor”, cuja colocação não está no significado da titulação acadêmica, mas lhe é superior, uma vez que doutor está na acepção de “sábio”. Traduzido livremente, SENHOR INFINITAMENTE SÁBIO.

Com um sobrescrito desses, veio a segunda pancada lingüística, quem o assinou disse ter a honra de me convidar… Sempre pensei o contrário, eu sentir-me honrado pelo convite; a distinção está em ser convidado, jamais poderia estar em convidar.

Imagino uma carta comercial: “Senhor Credor, tenha a honra de convidar Vossa Excelência a dirigir-se ao escritório de seu advogado, a fim de serem fixadas as bases da ação de cobrança que deverá ser ajuizada contra mim, diante de minha invencível decisão de não honrar com o pagamento do quanto lhe devia. Certo de sua pronta atenção, subscrevo-me atenciosamente”… 

O que é honroso é, certamente, o convite que se recebe, não o que se faz, ora bolas, a menos que o convidado seja um SENHOR INFINITAMENTE SÁBIO… Seria fantástico se existisse alguém com tanto saber e, havendo, que contrariasse sua tanta sabedoria e fizesse questão desse salamaleque todo. Os sábios são humildes, dizem as fábulas de sábios.

O Brasil ama esses superlativos bocós. Um juiz, por mais ou menos que seja, será sempre meretíssimo. É mais que mérito, mais que inteligência, mais que que tudo, é o máximo do máximo impossivelmente ao alcance do mais imortal dos mortais sobre todas as coisas, é meretissimo. Caramba. Mérito tanto assim, convenhamos, é pra lá de muito sobrehumaníssimo.

A questão é mais que lingüística, é profundamente ideológica e tem por finalidade criar uma autoridade inquestionável à patuleia, a uma distância inconcebível para quem suporta o Estado e seus agentes políticos na sua cola. 

O tratamento protocolar e os plurais majestáticos desenham as fronteiras da língua e seu uso comum cria uma legitimação cultural e consolida fossos culturais, sociais, políticos. Não é necessário dar-se conta disso, mas, sim, incorporar-se sua mística, sua oculta significação, seu poder instalado.

O Poder fala, o Poder se expressa. O Poder se legitima pelas expressões que o compõem, que trazem sua mística, que o torna imune a desafios, contestações, questionamentos. Nas paralelas que encontram, o Poder, em um processo de retroalimentação, que tem nas expressões aceitas e incorporadas uma ferramenta poderosa de incorporação cultural, quer sempre atingir sua face mais sombria: o poder absoluto.

Segunda-feira, 26 de maio de 2014
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend