“Lei da Palmada”
Terça-feira, 27 de maio de 2014

“Lei da Palmada”

Por Roberto Tardelli.

Veio o Boletim Bimestral. Por uma crueldade dessas que somente aos mais puros de espírito é dado suportar, a nota veio em vermelho cintilante, destacando-se ao longe de tudo quanto fosse obra humana positiva, como viadutos, pizza, futebol, vídeo-game e facebook, negando-as, uma a uma. E o vermelho coloriu seu boletim, que fez saltar em sua memória os olhos graves do pai, severo e cioso, que pagava com enorme sacrifício a escola, onde estudavam filhos de seus amigos. Os olhos graves que eram a garantia de que seu corpo padeceria imensamente, a cintadas, tapas, que fariam queimar suas pernas e costas, que acertariam seu rosto e peito e o poriam para dormir em frangalhos, surrado, humilhado e mijado, como sempre acontecia. Mijado. Tentou pedir ao professor um ponto a mais, só um maldito ponto o livraria daquela tortura, mas o professor sabia também como vingar-se daquele moleque tagarela e irriquieto, que falava demais. A hora da vingança havia chegado e o ponto somente se daria se fosse na presença dos pais. Mais cintada. Tentou imaginar um percurso em que sua casa ficasse tão distante que quando chegasse, já fosse adulto ou tanto tempo se transcorresse que seu pai se esquecesse da escola ou houvesse morrido ou desistisse da cinta. Um percurso que o fizesse desparecer por umas horas, aquele tempo suficiente para ser vítima da cidade gigante, que engole carros, prédios, adultos e crianças e que, ao surgir milagrosamente, todos o abraçassem e seu pai se esquecesse da cinta. Um percurso pelos locais mais perigosos onde pudesse ser seqüestrado e transformado em moeda de troca. Todos chorariam com sua libertação e seu pai se esquecesse da cinta.

Junto com o boletim, uma carta da escola. Uma denúncia, em que ele era acusado de não compreender a matéria e de não acompanhar o nível da sala. Embaixo da assinatura da coordenadora pedagógica, o ciente de seu pai ou de sua mãe, tanto fazia porque os dois bateriam nele. Recusou-se a levar a carta e foi ameaçado, a escola mandaria um email ou, pior dos piores, telefonaria para seu pai e sua mãe, interromperia a ambos no trabalho e os intimaria para uma reunião. Cintada e mais cintada.

No dia seguinte, seu pai o levaria de carro e diria que começou do zero, que passou fome, que apanhou de seus amorosos pais e que por isso vencera na vida. A mãe lhe daria um par de tênis caro e pediria segredo, seu irmão não poderia saber que ele estava ganhando algo fora de uma data festiva. 

No portão do condomínio, tentou olhar pedindo socorro ao bom José Ribamar, um porteiro que o recebia sempre sorrindo e tirava uma de seu time. Sentiu que que ele percebeu que havia algo terrível que o aguardava e recebeu de Ribamar uma solidariedade muda, transmitida com o olhar sofrido de quem já havia passado por seca, enchente e tufão. Ouvia seu coração no elevador. Queria que fosse mais alto o apartamento. Queria que acabasse a energia, queria não ter que entrar.

O cachorro sentiu sua presença e sentiu seu pavor. Solidarizou-se como é dos cães fazê-lo. Viu a cinta, a fivela, viu os olhos vermelhos do pai, ouviu antecipadamente como era difícil manter aquele padrão de vida, como ele tinha que trabalhar e que ele seria tirado daquela escola e seria empregado, office-boy, lavador de carros, eu comecei lavando carros da família, por que você não põe começar lavando carro com gente igual a você?, ouviu o zumbido do couro cortando o ar e ardendo suas pernas, coxas, costas, a força da cinta marcando sua pele, o vergão abrindo, o mijo. O ritual, a reza depois da surra, o pedido de perdão por não ter estudado, por não reconhecer o esforço do pai, pedir perdão pelo desgosto dado à mãe, pedir perdão pelo mau exemplo dado ao irmão mais novo, esse sim, um filho exemplar. A cabeça latejando do tapa, as idéias em parafuso, as pernas bambas, o corpo ardendo, o suor queimando o vergão, o cheiro de mijo na roupa, a mãe chorando, o irmão fingindo dormir, o pai preparando um whisky, decepcionado pela ingratidão de quem não reconhecia seu  trabalho e o peso daquela mensalidade.

Anteviu tudo isso. Antes mesmo que o elevador completasse sua viagem, ele, com a precisão dos desesperados, dos que têm apenas uma única chance de sobreviver ao exército inimigo, falsificou seu boletim; com algum precário talento, desenhou um  nove, sobre o quatro. Sentiu-se subitamente fortalecido. Entrou em casa e exibiu aos pais, de longe: “Minhas notas!! Tirei nove!!” E guardou. A carta maldita, ele falsificou a assinatura da mãe. Conseguiu preservar sua incolumidade física, conseguiu livrar-se da surra purificadora.

Seu pai sorriu vitorioso. Tudo havia melhorado porque no bimestre anterior havia dado uma surra para ele aprender a estudar. Deu certo. Acabou a vagabundagem. Era assim em sua casa. Pendurou a cinta no prego onde ela morava, desde a última vez. Estava, finalmente, livre da surra. Sua mãe estava feliz por seu desempenho e até seu irmão respirava  aliviado. Almoçaram todos e ele tirou uma foto e postou em sua página. Todos sorriam. Era a foto de uma família feliz. Marcou, legendou: FAMÍLIA NOTA NOVE.

Ou nota quatro.

imagem Shelby Steward

Terça-feira, 27 de maio de 2014
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