O Theatro de São João
Quarta-feira, 18 de junho de 2014

O Theatro de São João

Não é só um prédio, não é só um patrimônio, não é só beleza, não é só uma ideia.

Um teatro é cultura, é história, arte, amor. Mas não deixa ser alvenaria, arquitetura, decoração, esmero. Qualquer teatro tem gosto de passado, cheiro de doce, ares de paixão, mas o Theatro Municipal de São João da Boa Vista é tudo isso e muito mais. Uma obra que se olha com curiosidade e encantamento. Que faz imaginar tempos idos, horas distantes, momentos de requinte, criação, destruição, dor, abandono, morte e renascimento.  Como surgiu o Theatro? Quem andou por ele, em todos esses anos, fabricando falas e gestos, passos e roupas, luzes e sons?

Inaugurado em 1914, quase nenhum de nós era nascido então. Deve ter custado caro, caríssimo; que terra elegante poderia arcar com tanto requinte? Como era a São João de 1914? Mulheres de chapéu, homens de bengala. Gravata em pleno sol do meio dia. Saias que cobriam tornozelos, desconforto, ostentação, calor, leque. À sombra de mangueiras monumentais, comentários sobre a festa de abertura, as peças, os artistas, as flores. Quem era quem, coisa muito importante naquela época; era preciso ter pai, mãe, estirpe, patrimônio, posição, reputação. Sobrenome. E bastava dar um passo fora do trilho para tudo se acabar em exclusão. Nenhuma compreensão e ranços da escravidão.

Jovens sanjoanenses, influenciados por padrões culturais da Europa e dos Estados Unidos, lutaram e fizeram o Theatro de São João transformar-se em realidade. Em 1913, de uma sessão realizada no clube da elite “Centro Recreativo Sanjoanense”, surge a Companhia Theatral Sanjoanense Sociedade Anônima, com 113 acionistas, tendo como presidente o Coronel Joaquim Cândido de Oliveira. O teatro que estava para nascer, por ação da iniciativa privada e do empenho em incentivar a cultura, com material importado da Europa, ainda não sonhava ser abandonado, um dia.

Algum tempo depois, em 1929, a baixa frequência anunciava o começo do fim. instalou-se no Theatro um ringue de patinação! Até que a reação cultural elegeu o bar superior do prédio como palco de saraus, onde se podia cantar, declamar, representar ou tocar instrumentos. São João, terra de talentos, é berço de Guiomar Novaes.

Aos trancos e barrancos, o Theatro seguiu sua trajetória, permeada de altos e baixos, até transformar-se em cinema.

Sim, o Theatro, na minha juventude, nunca existiu. Era apenas uma construção que ocultava os restos mortais de uma época de glória, transformada em cadeiras velhas, quebradas, pisos descascados, paredes rachadas, pulgas… Ainda assim, eu gostava de frequentá-lo. Tínhamos duas opções para ver filmes: o Theatro ou o Cine Avenida. Mas por que teatro era cinema? “Já foi teatro”, dizia minha mãe. “Agora é quase ruína”.

Depois do último filme que assisti na velha casa da dramaturgia, tentei subir a escadinha que levava ao palco. Degraus quebrados, empreitada de risco, saltei e cheguei ao tablado. Olhei dali a plateia sombria, sensação ruim. Jamais poderia imaginar que anos depois, em 12 de abril de 2007, eu subiria ao mesmo palco para fazer uma palestra promovida pela prefeitura, casa lotada, 800 pessoas entre jovens, adultos, crianças e idosos, no Theatro novo em folha.

Não, o povo de São João não deixou por isso mesmo. O berço da arte, a cidade do sol, o solo da cultura, a vocação de refinamento, a vontade de florescer, a semente que não se destrói. Mesmo quando os tempos não são bons, a árvore da vida verga mas não quebra. Não se arranca de uma cidade, assim fácil, sua plantação de ideias, sua força criativa, seu reconhecimento dos feitos notórios, seus bens mais preciosos. O Theatro sofreu, arrastou-se por anos de reconstrução, padeceu na busca de recursos, escorregou, empacou e levantou-se, finalmente engrandecido pela união de esforços, e culminou na glória da restauração. Um espaço para toda a gente, um patrimônio municipal.

Uma obra. Um monumento. Um significado. Um Theatro centenário, grandioso, de pé diante do Brasil.

Quarta-feira, 18 de junho de 2014
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