O Iraque de hoje é o Afeganistão de amanhã?
Terça-feira, 24 de junho de 2014

O Iraque de hoje é o Afeganistão de amanhã?

Por Maristela Basso.

 

Tudo indica que, após a saída das tropas americanas do Afeganistão, será apenas uma questão de tempo o levante contra o governo, de forma semelhante ao que acontece no Iraque hoje. As experiências semelhantes de ocupação nos dois países, cujas guerras, juntas, já custaram aos EUA mais de 4 trilhões de dólares e quase 7000 mil militares, alertam sobre os riscos do avanço de grupos radicais, cisões e o ressurgimento de um Taleban revigorado e mais agressivo.

Afeganistão e Iraque têm problemas semelhantes. Segurança frágil, milícias sectárias, corrupção crônica, instituições não consolidadas, governo com pouca aceitação e sistema de tomada de decisões autoritário e nada transparente. Enquanto no Iraque, os sunitas do “Exército Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL)” avançam tomando cidades e regiões importantes do país em direção a Bagdá, procurando isolar e destruir os grupos xiitas e o atual governo, no Afeganistão a cisão entre os grupos tribais é promovida pelo Taleban, cujos integrantes haviam se refugiado no Paquistão e, depois do assassinato de Bin Laden, retornaram para o Afeganistão, com sede ainda maior de vingança, contra os americanos e aqueles que ficaram ao lado deles durante a ocupação – dentre eles o governo local empossado com os auspícios dos ocidentais. 

O Talibã/Taliban (“estudantes”) é um movimento fundamentalista islâmico nacionalista que se difundiu no Paquistão e, sobretudo, no Afeganistão, a partir de 1994 e que, efetivamente, governou este país entre 1996 e 2001, quando da entrada no país das tropas americanas (e de outras nacionalidades). É considerado uma organização terrorista.

O relatório do Secretário-Geral da ONU ao Conselho de Segurança (A/64/742-S/2010/181) indica que um número expressivo de crianças são recrutadas e utilizadas por grupos armados de oposição em todo o país.  Os casos documentados revelam que crianças a partir dos 13 e 14 anos de idade já realizam ataques suicidas e usam explosivos com desenvoltura.  O recrutamento forçado ou voluntário de crianças é feito, de um lado, pelas forças de oposição ao governo, especialmente pelo Taliban, como comprova a documentação dos casos de crianças que estão sob a custódia do governo nacional, supostamente com base em acusações relacionadas à segurança, tais como: transporte de explosivos, condução de ataques do tipo suicida contra a segurança (nacional e internacional), as forças policiais ou funcionários do governo.  Lê-se no Relatório citado que crianças são sequestradas no Afeganistão e levadas para o Paquistão, onde são submetidas a treinamento militar.  Vários casos de crianças paquistanesas usadas para conduzir operações militares relacionadas com o Afeganistão também são confirmados no Relatório. Por outro lado, as crianças também são recrutadas e usadas pela própria Polícia Nacional Afegã contra os grupos rebeldes – com as mesmas funções: matar e morrer. 

Ademais, a violência sexual infato-juvenil é uma constante – sob os olhares permissivos da sociedade afegã. A prática de “BaZi Bacha” e o abuso sexual contra meninos é um sério motivo de preocupação.  O clima geral de impunidade e de vácuo no Estado de Direito afeta e compromete a denúncia da violência e o abuso sexual contra crianças às autoridades (nacionais e internacionais) e, por conseguinte, dificulta a condenação dos perpetradores.  De acordo com o Relatório intitulado “Silêncio é a Violência”, elaborado pela “United Nations Assistance Missions in Afganisthan- UNAMA” e pelo Gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, os autores desses crimes estão ligados ao poder local, ao governo, são policiais, assim como, membros dos grupos armados ilegais e das gangues criminosas. 

Sabe-se do envolvimento de forças militares do governo com o Taliban e outros grupos armados.  O acesso dos órgãos de ajuda humanitária às instalações de detenção de crianças e jovens continua a ser difícil e informações sobre as crianças detidas pelas forças pró-governo continuam limitadas.  O uso de técnicas duras de interrogatório e confissão forçada de culpa pela Polícia Nacional Afegã e pela Direção Nacional de Segurança foi documentado, incluindo o uso de choques elétricos e espancamento.

Mais recentemente, depois das investidas do EIIL no Iraque, o Taliban reforçou sua campanha de assassinatos contra funcionários do governo afegão, especialmente os de alto perfil, em clara declaração de guerra contra o governo.

Frente à insegurança do país e à incapacidade de dar fim aos conflitos, o Canadá já retirou todos os seus 2.850 soldados do país.  O presidente francês também retirou seus soldados. Senão bastasse os assassinatos contra funcionários e homens públicos, as Nações Unidas continuam chamando atenção, também do Conselho de Segurança, para as atrocidades cometidas contra os civis inocentes.

No final de dezembro de 2013, o jornal “Washington Post” divulgou que um relatório anual, preparado por 16 agências de inteligência americanas, concluiu que os avanços obtidos nestes últimos anos no Afeganistão podem se deteriorar até 2017, mesmo que os países ocidentais prossigam com sua ajuda. O Relatório prevê o crescimento da influência do Taliban, mesmo que os Estados Unidos mantenham milhares de soldados no país após a retirada oficial da força internacional em 2014, assim como a ajuda financeira ao governo do presidente afegão Hamid Karzai, que rejeita assinar um acordo de segurança que prolongue a presença de soldados estrangeiros, em especial americanos, para além de 2014.  Contudo, esta decisão deverá ser tomada por seu sucessor eleito nas presidenciais previstas para acontecer ainda este ano, e proximamente.

As expectativas para o Afeganistão, portanto, não são nada promissoras, o que aumenta a insegurança não apenas naquela região como no resto do mundo. E enquanto isto, assistimos à Copa do Mundo da FIFA, como se desconhecêssemos que o destino de milhares de crianças e civis inocentes, naquela parte do mundo, são valas comuns apócrifas, mantidas em segredo por familiares e vizinhos silenciados pelo medo. 

Imagem:Vikram Singh
Terça-feira, 24 de junho de 2014
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