A Blusa Amarela
Quarta-feira, 25 de junho de 2014

A Blusa Amarela

“Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela…” Esse verso abre uma música do setentão mais da hora do Brasil, Chico Buarque, Pelas Tabelas, composta em um momento catártico, quando o país inteiro, todos os Brasis, se levantou exigindo eleições diretas para a presidente da república, governadores e prefeitos de capitais e cidades consideradas de “segurança nacional” (Santos, por exemplo). Vestíamos amarelo e qualquer blusa amarela era uma forma de dizer o que não poderia ser dito às claras. O amarelo nos fez redescobrir um sentido que parecia perdido: o sentido de nação. Foi tão forte, foi tão arrebatador, foi tão definitivamente claro que, perdidas naquele ano para o regime militar que já agonizava, as eleições vieram, uma nova ordem constitucional se estabeleceu, um país se lançava à gentileza em um mundo que se devastava (ainda se devasta) em guerras fratricidas, a Constituição cidadã finalmente. Após quase quatrocentos anos, pudera.

Vestir amarelo. O Brasil se reencontra no amarelo. A megalópole se tingiu de amarelo. Anteontem, foi o dia de jogo da seleção brasileira, nossa expressão concreta de cidadania. Diria, nosso poema concreto de cidadania. Nosso poema concreto de nacionalidade, nossa tatuagem de Brasil, nosso momento de unidade nacional.

O amarelo nos une em uma torcida que supera concepções táticas, que transcende o jogo de futebol. O amarelo da seleção é o encordoamento de nossa nacionalidade e quem sabe o único símbolo que não nos foi imposto pelas elites do poder.

O hino brasileiro, este cantado a capela ou à capela, como se queira, é terrivelmente complicado e confesso que já era moço barbado quando soube o que significava lábaro que ostentas estrelado. Nós o cantamos de peito aberto, sem entender metade do que ele diz porque ele diz de uma forma parnasiana, cheia de inversões e alusões. Não precisamos entender para gostar, mas gostamos por motivos que não se relacionam com a legitimidade do hino, composto por encomenda e depois de mais de cem anos sem letra alguma. A música, uma opereta, nasceu muito antes, era uma homenagem ao retorno da família real ao Tejo. Mais de cem anos se passaram até que veio a letra, que começa com um enigmático Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante… É de endoidecer a professora de português, que rescreveria assim: As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico… Sei lá, que importância tem isso? Quantas beatas se derretem em terços sem imaginar o que de fato rezam? Basta-lhes a fé. Basta gostar do hino. O que ele diz, o que raios significa Se o penhor dessa igualdade conseguimos conquistar com braços fortes, pouco nos importa. Importa o hino, essa misteriosa canção que os belgas descompromissados substituíram pelos primeiros e geniais acordes de Aquarela do Brasil, nas arquibancadas do Maracanã.

Com a seleção, a única inversão que ocorre é a de pontas, que viram armadores, o tal elemento-supresa, expressão grandiosa demais para uma tática de futebol, mas que sintetiza a vida e as voltas que essa vida dá. A seleção é o nosso símbolo nacionalmente verdadeiro e popular, a seleção guarda no seu DNA a nossa identidade. O Brasil multi-étnico, o Brasil moleque, alegre e emotivo, meio displicente e apaixonado, que cai pelas pontas, que sorri, que se abraça na praça, na rua, no bar.

O Brasil que todos empurram para a frente, o Brasil que não perde suas horas e suas energias querendo punir e querendo trancar na cadeia todo o conflito social, o Brasil que contempla a igualdade absoluta que transforma o banqueiro e o morador de rua em torcedores iguais, que sofrem iguais e que gritam iguais o gol libertador.

O Brasil que a Constituição anuncia está em campo.

A bola da igualdade, no outro jogo, o jogo real da vida, está rolando.

Estamos perdendo. Mas, sempre é tempo de virar.

Foto: Portal da Copa

Quarta-feira, 25 de junho de 2014
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