Que será do Brasil?
Quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Que será do Brasil?

Por Luiza Nagib Eluf

 

Vão dizer que reclamo porque não me elegi deputada federal. Não é só isso. Manifesto-me por ter conhecido de perto algumas falhas de nosso sistema eleitoral e não ver a população nem governantes em busca da solução necessária. Eleição no Brasil se ganha com muito dinheiro e pouco conteúdo. Existem exceções, claro, mas que apenas confirmam a regra. Lembremos da reeleição do Tiririca, que não sabe o que faz um deputado federal, foi lá para ver e voltou sem entender nada. O povo gosta dele, ri de suas piadas e acha que isso é suficiente. No entanto, para se exercer um mandato legislativo útil à Nação, é preciso ter conhecimento de causa.

A revolta contra certas atitudes de governantes, a insatisfação com a política e os políticos, trazida às ruas nos anos de 2013 e 2014, expressada por sucessivas manifestações em todo o país, não teve as consequências esperadas. Apenas incitou ao ódio e não se consolidou em propostas concretas. Não aumentou a consciência popular sobre poder do voto. Não incentivou a pesquisa acurada por bons candidatos e candidatas ao parlamento, apenas reforçou o descrédito generalizado e fez crescer o número de abstenções, de votos nulos e brancos no último pleito. A alienação continuou a mesma. A voz das ruas não foi às urnas. O voto de opinião foi exercido por poucos, pelo menos no que se refere aos cargos do Legislativo. Até um minuto antes de votar, muita gente ainda não havia escolhido deputado estadual e federal.

O Poder Legislativo é da maior importância. O escândalo do mensalão não teria existido se o povo escolhesse com mais cuidado seus representantes. Nosso sistema não permite independência total a nenhum Poder da República. Presidentes, Governadores e Prefeitos não conseguem levar seus governos a bom termo sem apoio das Câmaras e Assembleias. No entanto, como os candidatos proporcionais são muitos e o tempo de televisão é pouco e ainda dividido de forma desigual, a população se desinteressa.

Desta forma, não produzimos mais estadistas, como Paulo Brossard e Goffredo da Silva Telles Júnior. Este último, grande professor da Faculdade de Direito da USP, em 1950, quando era Deputado Federal e procurava lutar pela educação no país, pronunciou-se da seguinte forma: “Por que não podemos ter no Brasil um Parlamento inteiro de verdadeiros políticos, ou seja, de políticos somente voltados para o bem comum, para o bem da Nação, para o bem do nosso povo?” (registrado no livro Folha Dobrada, pg.317 e segts). Comentou ele que quase todos os parlamentares que encontrara eram verdadeiramente preocupados, mas apenas com suas imagens, seu prestigio político, sua reeleição. De lá para cá, nada mudou.

O primeiro turno do pleito de 2014 encerrou-se sem avanços republicanos e com pequena participação cidadã, depois de muitas críticas da opinião pública que resultaram em nenhum efeito prático. Demonizar a política e os políticos é inócuo. Participar é preciso. Eleger critérios e programar ações que possam aperfeiçoar o sistema eleitoral são a única forma de melhorar nossas vidas. Está em curso uma proposta popular de reforma eleitoral, abraçada pela OAB Federal, que merece atenção de todos, principalmente dos militantes que foram às ruas externar descontentamento. Transformar a frustração em algo edificante e produtivo – é isso que nos falta. A política não é um problema só dos políticos. A forma descompromissada com que o povo se comporta, como se a política nada tivesse a ver com ele, pode levar o Brasil ao inferno.

Luiza Nagib Eluf é advogada. Foi Procuradora de Justiça do Ministério Público de São Paulo e Secretária Nacional dos Direitos da Cidadania do Ministério da Justiça no governo FHC. Tem sete livros publicados, dentre os quais “A paixão no banco dos réus”.
 

Quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend