O que Roberto Gomez Bolaños tem a ensinar aos criminólogos?
Quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O que Roberto Gomez Bolaños tem a ensinar aos criminólogos?

Por Milton Gustavo Vasconcelos e Wilson Franck Junior

Na Coluna Liberdades

 

Um garoto bochechudo vestido de marinheiro aparece no pátio de uma vila humilde, de paredes descascadas. Ele pigarreia e exibe um objeto. Um objeto que pode ser uma bola, um churros, uma raquete de ping pong, um patinete, enfim, qualquer coisa… Essa cena certamente povoou sua infância. Também a assistimos, inocentemente, por centenas de vezes. Porém, longe de ser um inicio banal para um episódio de um programa infantil, expõe uma percepção aguda sobre o comportamento humano. Somada às cenas que se seguem, revela com maestria um fenômeno fundamental à compreensão do crime: a estreita relação entre desejo e violência.

As cenas acima descritas, como tantas outras que marcaram nossa infância, foram escritas e dirigidas por Roberto Gomez Bolaños (1929-2014), dramaturgo e ator mexicano, falecido no último dia 28 de novembro. Além do humor característico, há nas tramas que envolvem as personagens do seriado Chaves, uma boa dose de inveja, ciúmes e rivalidade. Por esta razão, o diretor de cinema Augustín Delgado apelidou Bolaños de Chesperito, o pequeno Shakespeare. Nada menos acertado. Bolanõs, assim como Shakespeare, Cervantes, Dostoievsky, Proust, Stendhal, Machado de Assis e Flaubert, intuía a natureza imitativa do desejo humano. O seu gênio consistia nessa sua especial capacidade de colocar o desejo mimético no centro dos conflitos entre as personagens.

Foi René Girard (Avinhão 1923), antropólogo e filósofo francês, professor emérito da Universidade de Stanford – CA, quem criou a expressão desejo mimético, após ter investigado o comportamento humano a partir dos grandes clássicos da literatura ocidental. Analisando a trama do que ele chama de “romance romanesco”, percebeu que as histórias tinham algo em comum: o desejo dos personagens principais não se mostrava autêntico. Ao contrário dos “romances românticos”, em que o herói é absolutamente autotélico, o romance moderno, ou “romanesco”, revela a estrutura triangular do desejo humano. O personagem que é inicialmente apresentado como herói não ocupa o centro do romance, seus desejos estão sempre ligados a figura do mediador, um terceiro a quem o herói toma como modelo.

O mediador designa ao herói os objetos de desejo, tornando-os desejáveis aos olhos do imitador. Logo, os objetos não tem valor em si, mas valem pelo prestígio que o mediador empresta a eles. O modelo deseja o objeto; o imitador, porque o imita, passa a desejá-lo também. O desejo do imitador reforça o desejo do modelo, e vice e versa. O modelo, por deter o objeto, atua portanto como “modelo e obstáculo”; ao mesmo tempo em que designa o que deve ser desejado, impede seu acesso ao  imitador, reforçando ainda mais o desejo deste. A convergência do desejo sobre determinados objetos leva a um circulo vicioso que, na perspectiva girardiana, constitui o motor da violência humana, desde simples rivalidades até as mais sangrentas e horrendas guerras. René Girard infelizmente não conheceu a obra de Bolaños, um escritor mimético por excelência. Tentaremos aqui, humildemente, analisá-la à luz da chave interpretativa fornecida pela teoria mimética de Girard.

Nos episódios de “Chaves”, seriado El Chavo del Ocho exibido pelo canal 8 do México entre 1971 e 1979, os ciclos de violência originam-se a partir da rivalidade em torno de um objeto. Em geral o objeto entra em cena nas mãos da personagem Quico, que o exibe no pátio para Chaves, e às vezes para Chiquinha. Quico funciona como modelo, mas é um modelo demasiadamente mimético, que precisa constantemente da aprovação dos outros. Quico, no início dos episódios, quase implora para que os outros desejem seus objtos para assim reafirmar o seu próprio desejo. As demais personagens, porque desejam mimeticamente, atendem à provocação. Em pouco tempo, o objeto será o escândalo dos personagens, que cometerão uma série de trapalhadas. Muitas vezes Chaves bate em Quico, que chama D. Florinda: “Mamãe!!! Me bateu!!!!”. Esta, desavisada bate em Seu Madruga, pensando estar se vingando da pessoa certa. Seu Madruga devolve a violência para Chaves. Em outras vezes, Chiquinha bate em Quico (com seus potentes chutes na canela), e o mesmo esquema se repete. A violência retorna para Chaves, o mais vulnerável. O ciclo se interrompe quando Chaves não se vinga. D. Florinda, por sua vez, vale-se de sua condição para agredir sem medo de represálias. Por vezes pode acontecer de Chaves, ao tentar com violência tomar o objeto de Quico, acertar por engano o Seu Barriga, o rendeiro e dono de toda a vila.

O esquema da violência pode se repetir com algumas variações. Mas o que tem isso de fundamental? A violência em “Chaves” é caótica. A vila vive uma “crise mimética”. Não há autoridade. Todos são iguais. Pobres, ricos, decadentes, idosos, desempregados, crianças. Os objetos estão em perpétua disputa: são de todos e, por isso mesmo, de ninguém. Não há Estado, e por isso não há fonte externa de violência que interrompa o ciclo interno de vingança e retaliação. Não existe monopólio da vingança: ela é de todos e de ninguém. Quem mais se aproxima de uma figura externa aos conflitos é Jaiminho, mas o carteiro preguiçoso que não sabe andar de bike seria incapaz de encerrar o conflito. A violência grassa na vizinhança, disseminando-se em espiral. Todos são vítimas direta ou indiretamente de um mesmo fenômeno mimético. Por não haver ritos ou qualquer mecanismo que permita a contenção e expulsão da violência interindividual, se a vila fosse um lugar real, seus moradores provavelmente matar-se-iam uns aos outros. Nesse ponto o pequeno Shakespeare teria muito a ensinar àqueles que pretendem exonerar a responsabilidade pessoal dos indivíduos para atribuí-la às estruturas de contenção de violência. Bolãnos é mimético demais e, por isso, nada ingênuo a esse respeito: a vila do “Chaves” é o retrato bem humorado do homem em estado de natureza, um estado de permanente guerra (mimética) de todos contra todos.

Mas as intuições de Bolaños sobre o desejo vão ainda mais longe. Há uma terceira e mais rara variante para a cena descrita anteriormente. Em alguns episódios, Chaves dissimula seu desejo… ”Eu não queria mesmo”, repete. O desdém do rival faz com que Quico também se desinteresse pelo objeto e o abandone. Induzido a erro, deixa de deseja-lo. Quico vai embora e Chaves consegue a coisa. O dono original, porém, quando descobre o estratagema, volta a desejar a coisa, e a violência reacende! Quico é, em geral, modelo. Mas há episódios em que Chaves designa o objeto de desejo. A personagem aparece jogando uma bola de trapos, ou usando um bilboquê improvisado. Quico então o imita, conseguindo versões mais sofisticadas do mesmo objeto, que, por sua vez, serão alvo de desejo por parte de Chaves. Chaves mais uma vez vale-se da dissimulação. Deixa de lado seu simples brinquedo, e Quico, que só detinha as versão sofisticada para rivalizar com Chaves, imita o gesto. Mas uma vez Chaves furtivamente irá se apropriar o brinquedo de Quico…

Se é o modelo mediador quem torna o objeto desejável, quanto mais ele tente protegê-lo dos desejos alheios, mais ele parecerá valioso. O obstáculo que o mediador impõe ao rival só acende o seu desejo. Tanto mais protegido e inacessível, mais rivalizado. A “bola quadrada” dos episódios do Chaves é este objeto inacessível, o suprassumo do desejo mimético. Como uma espécie de santo graal do desejo, todos a querem mesmo sem a conhecê-la! Desejam-na apenas e porque os outros a desejam. Cada um alimenta o desejo no outro. Bolanõs, como os grandes mestres da literatura universal, sabe que as coisas não têm valor em si, mas sim o valor que nós emprestamos a elas. Não existe áksios (valor em si), mas thymos (valor estimativo). Nesse ponto, ele teria muito a ensinar àqueles que reduzem o valor dos objetos exclusivamente ao custo de sua produção, ou que compreendem as relações humanas, a violência, o crime e a pena, meramente a partir das condições materiais ou econômicas de uma dada sociedade.

A mesma lógica mimética também se aplica às relações pessoais. Façamos duas indagações aos fãs da série: Dona Florinda já desejou seu Madruga? Chiquinha já desejou o Chaves? A resposta é Sim! O episódio em que Gloria e Paty vão morar na vila, Bolaños mais uma vez mostra com maestria a estrutura triangular do desejo. Chaves e seu Madruga, encantados pelas novas vizinhas, e na possibilidade de serem seduzidos por elas, tornam-se atraentes à Chiquinha e D. Florinda, o que não ocorreu em nenhum outro episódio. O mesmo acontece de outro lado, quando o Galã Hector Bonilla quebra seu carro em frente à vila. As mulheres, até mesmo a Bruxa do 71, digo… Dona Clotildes, passam a ser mais valorizadas. Como que num passe de mágica, a rivalidade mimética transforma o que antes era quase desprezo total, em um quase autêntico fascínio.

É possível que Bolanõs tenha chegado a essa sutil compreensão da natureza imitativa do desejo por ter vivido na pele o “desejo pelos olhos do outro”. Quando  casou-se com Florinda Meza (atriz que viveu Dona Florinda), ela já havia sido namorada do ator Carlos Villagrán (genial intérprete da personagem Quico). Isso foi motivo para que os atores contracenassem por mais de um ano sem se falar. A vida imita a arte, e “Chaves” e “Quico” acabaram convergindo sobre o mesmo objeto de desejo. Dostoievsky também vive uma situação semelhante, porém, ao contrário de Bolaños, o escritor russo viu sua amada optar pelos braços do “outro”.

Certamente você não conheceu ninguém em sua infância que não gostasse do seriado “Chaves”, que não repetisse algum bordão ou apelidasse pessoas com os nomes das personagens. O motivo disso nos é evidente. Roberto Bolanõs teve insights geniais sobre as relações humanas e conseguia revelá-las de forma tão simples que até as pequenas crianças se maravilhavam. Simples e complexo, o seu gênio consistia em fazer o profundo emergir à superfície; o oculto revelar-se à luz do dia. “Chaves” é profundamente revelador de nossa natureza e por isso todos nós nos identificamos, de um modo ou de outro, naquelas historinhas aparentemente superficiais. “Chaves” mostra os mecanismos do desejo e da violência, mas também mostra como escapar a eles. Chesperito, pela boca do filósofo cristão Seu Madruga, nos dá duas simples receitas que ele mesmo não consegue seguir, mas que podem nos desviar dos conflitos humanos: “a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena” e a que é ainda mais eficaz – e por isso mesmo a mais difícil de seguir: “as pessoas boas devem amar seus inimigos”. (MAGRUGA, Seu. 1973)

Milton Gustavo Vasconcelos é Mestre e doutorando em Ciências Criminais pela PUCRS, advogado criminalista.
Wilson Franck Junior é Mestre e doutorando em Ciências Criminais pela PUCRS.
 

Quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
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