Antes de buscar prazer na pornografia, veja alguns dados e pense duas vezes
Quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Antes de buscar prazer na pornografia, veja alguns dados e pense duas vezes

Por Brenno Tardelli

 

A mais triste miséria do mundo é aquela que existe para me trazer prazer. Por um momento solitário na minha intimidade, uma sensação de arrepio, um prazer e o relaxamento. Meu orgasmo, embora me traga uma sensação maravilhosa, é a causa de muita tristeza.

Embora o tráfico de pessoas seja uma atividade combatida em todo mundo, o pano de fundo para sua atuação é legalizado, extremamente lucrativo e atuante: a indústria pornográfica. Nesse conceito se inserem tanto a indústria cinematográfica, como sites e casas de prostituição.

Hipocrisia de lado, desde que me conheço na puberdade, sou um consumidor dessa indústria. Não estou sozinho, a empresa de dados britânica Optenet concluiu a pesquisa que revelou que mais de um terço da web (37%) é composto de pornografia.

Não haveria problema algum, não fosse a tristeza que mora atrás de duas pessoas transando em frente às câmeras.

pornografia-2Recente estudo divulgado  pela organização “Treasures”, voltada ao resgate de pessoas do tráfico sexual, trouxe números impressionantes da indústria que movimenta mais de R$ 100 bilhões por ano. Estima-se que ultrapassou o tráfico de drogas e alcançou a 2ª posição no ranking de lucratividade para o crime organizado, ficando apenas atrás do tráfico de armas. Apenas para se ter uma ideia do valor estupidamente alto movimentado pela atividade, a cada segundo (!) são gastos mais de R$ 10 mil com pornografia.

São lançados 11 mil filmes pornográficos por ano, 20 vezes o número de filmes lançados de todos os gêneros juntos – dados esses somente dos EUA.

Alvo de 94% da pornografia, as mulheres são as maiores vítimas dessa atividade. Embora muito discurso de defesa à atividade diga que se trata de empoderamento da mulher sobre o próprio corpo, dados revelam que o problema é muito mais complexo. Para se ter uma ideia, 90% das mulheres da indústria do sexo foram abusadas quando crianças. Cerca de 1.4 milhões das mulheres são escravas sexuais ao redor do mundo. A taxa de desenvolvimento de síndrome de stress pós traumático é equivalente aos de veteranos de guerras no Eua.

O país, aliás, é o grande traficante de mulheres no mundo, destacando-se na produção, consumo e movimentação financeira na indústria. De toda essa quantia, o estado da Califórnia é responsável por 1/3 dos dados.

abuso-sexual

Infográfico traduzido por Amanda Mariano Rozas.

Como tudo que é absurdo ainda pode piorar, no “submundo” da web, acessado via TOR, programa que torna seu acesso criptografado, pornografia infantil é o tema mais procurado dentre os usuários. O mundo sangra mulheres e crianças, para a satisfação da libido de cada um. Homens, embora existam muitos oprimidos pela indústria, são números ínfimos perto das vítimas desse lucro.

Soma-se à indústria cinematográfica, outro grande mercado da pornografia: a prostituição, esta ainda mais problemática. Isso porque a cinematografia coloca uma tela entre a pessoa e a realidade do mundo atrás da câmera. A prostituição, por sua vez, vive uma realidade dura, sentida na pele.

São milhões de mulheres ao redor do mundo, exploradas e quase sempre desprotegidas – no Brasil existem associações que lutam pelos direitos das prostituas, mas não há uma proteção jurídica para elas. Estão à mercê do mercado feroz. Dizer sobre proteção, ainda que trabalhistas a essas pessoas, é dizer contra a moral e bons costumes dos homens de bem. 

Uma das maiores hipocrisias nossas ao lidar com a indústria pornográfica é negar que ela existe. Ou que não a consumimos. Esse vácuo do medo de admitirmos quem somos, enquanto sociedade patriarcal, o que fazemos e para quem fechamos os olhos é sentido por todas as mulheres e é extremamente lucrativo para a indústria pornográfica.

É essa indústria que me fornece prazer. Ou, pelo menos, fornecia. 

Não são precisos 10 minutos de meu tempo, cliques em meia dúzia de links para se concluir o óbvio: não vale a pena. É muita energia depositada em algo que vem com muita miséria, muito abuso sexual. Muita tristeza. Fica difícil não olhar para as pessoas em frente à câmera, buscando de alguma forma desesperada passar a imagem de um prazer insano, e não sentir pena.

Então, voltando ao título. Vai procurar pornografia para sentir prazer? Pense duas vezes.

Atualização: dada a repercussão e complexidade do tema, escrevi uma continuação.

Brenno Tardelli é redator no Justificando e advogado na banca Tardelli Zanardo Leone.
* com a colaboração inestimável de Larissa Zanata.

Quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
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