Qual globalização?
Sábado, 10 de janeiro de 2015

Qual globalização?

Por Patrick Mariano

Na coluna ContraCorrentes

 

A única globalização que ocorreu nas últimas décadas foi a do capital. A promessa de integração entre os povos (que vinha como carro chefe do seu conceito) não passou de artifício discursivo para justificar o livre trasladar do capitalismo em sua versão sem fronteiras.

Para que o capital pudesse livremente alcançar qualquer recanto, foi preciso acabar com a soberania dos países que agora estão todos reféns das bolsas. Além disso, se criou um novo deus com o nome de mercado.

É o mercado quem define qual será penúria que um povo deve sofrer. Aposentados portugueses, pensionistas brasileiros, famílias americanas que sonharam em melhorar de vida hipotecando a própria casa, estudantes que passam a ter que pagar para estudar e idosos que serão despejados na Espanha.

Nos venderam a esperança de um mundo sem fronteiras, mas poucos sabiam que essas fronteiras que se derrubavam eram só para algumas famílias e empresas que possuem a maior parte da riqueza do mundo. Uma calça italiana de grife é produzida na Tunísia, um tênis da Nike no Vietnã ou na Indonésia. E o que sabem os americanos e Italianos sobre isso ou sobre o povo da Tunísia? Nada ou quase nada.

Ao contar a história da europa no pós-guerra, Tony Judt aborda o estímulo da emigração de mão de obra para a Alemanha nas décadas finais do século passado, em razão da necessidade do capitalismo em se expandir. Uma vez que os imigrantes assentavam por lá suas vidas, o governo Alemão quis mandá-los embora. Enquanto precisava da sua força de trabalho eram bem vindos, mas no momento em que passaram a ter os mesmos direitos de qualquer alemão, já viravam objeto de preocupação e políticas restritivas foram adotadas.

Inexiste fronteiras para o capital, mas só para ele. Muros são erguidos na Europa, EUA e Israel. O medo do outro é estimulado. Ao abordar a questão do medo na atualidade, Mia Couto lembra-nos que a única obra humana que pode ser vista do espaço é a muralha da China.

Da mesma forma que nos repetiam que os comunistas comiam criancinhas, hoje nos fazem crer os filmes americanos que os terroristas estão aí à nossa espreita em uma estação de trem ou num cinema qualquer. Se fomenta estereótipos e através deles passamos a filtrar as imagens que nos chegam em nosso cotidiano.

É o medo que “justificou” os EUA invadirem outro país, – com direito a transmissão on line para a Casa Branca – executassem um ser humano e dessem cabo ao seu corpo. Milhares de pessoas foram às ruas para comemorar tal feito.

Da mesma forma, foi o medo que justificou a construção de campos de concentração em outros países para torturar sistematicamente pessoas presas, retirar-lhes o status de cidadão e sequer garantir o direito que se dá a prisioneiros de guerra pela convenção de Genebra.

Guantánamo, monumento a céu aberto da degradação imperialista norteamericana ainda está de pé a brindar a incapacidade humana de respeitar a dignidade do outro e lidar com as suas diferenças.

Guantánamo, Abu Ghraib, o muro de Israel, dos EUA e da Espanha são símbolos de uma política violenta e fracassada que só incentivou e gerou mais ódio.
Se é evidente que a política externa norteamericana foi um fracasso cultural e social nas últimas décadas, porque ainda se insiste na sua execução? A quem interessa?

O relatório do Senado dos EUA sobre essa desastrosa política externa do pós 11 de setembro confirmou o que muitos já sabiam. As maiores atrocidades desse século foram cometidas com a justificativa de combater o “terror” e ninguém será responsabilizado por isso. Ou melhor, pagaremos todos a conta de um império criminoso, cruel e incapaz de lidar com as diferenças.

Apesar dessa evidência, o governo da Espanha (após o que ocorreu na França) diz querer adotar as mesmas regras dos EUA quanto ao armazenamento de dados pessoais da entrada e saída do País. É impossível se pensar em outras saídas que não a exclusão, estigmatização e criminalização do outro?

Muitas outras medidas virão após o que ocorreu na França. Penas mais altas, reforço de estereótipos, violação de intimidades , torturas, prisões ilegais e novos muros serão construídos aqui e acolá.

Viveremos sempre com medo porque não nos interessa dialogar, compreender e assimilar. Aprendemos a ter medo e dele não soubemos mais nos separar.

Vestiremos nossas calças produzidas pelas mãos de trabalhadores da Tunísia, usaremos tênis feitos no Vietnã e aparelhos tecnológicos produzidos em países de nomes estranhos. Apesar de estarmos tão próximos dessas mãos, ficaremos com receio de apertá-las, pois nos fizeram crer que pode ser perigoso.

Patrick Mariano é doutorando em Direito, Justiça e Cidadania no século XXI na Universidade de Coimbra, Portugal. Mestre em direito, estado e Constituição pela Universidade de Brasília, integrante da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares-RENAP, do coletivo Diálogos Lyrianos da UnB e autor do livro 11 Retratos por 20 Contos.
Junto a Rubens Casara, Márcio Sotelo Felipe, Marcelo Semer e Giane Ambrósio Álvares participa da coluna Contra Correntes, que escreve todo sábado para o Justificando.

 

Sábado, 10 de janeiro de 2015
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