“Je suis Charlie?”
Sábado, 17 de janeiro de 2015

“Je suis Charlie?”

Por Carla Moradei Tardelli e Leandro Souto da Silva

 

O começo de 2015 foi marcado por mais uma chocante notícia de terrorismo.

Como é de conhecimento de todos, o Jornal Francês Charlie Hebdo foi alvo de extremistas que, em um atentado terrorista, mataram 12 pessoas entre jornalistas e policiais.

Tal ato causou comoção em toda a comunidade internacional, motivando inúmeras manifestações de apoio às vítimas e seus familiares e repúdio aos atos violentos, cuja autoria foi reivindicada pela Al Qaeda.

Em todo o mundo, em especial nas redes sociais, as pessoas manifestavam seu pesar e apoio ostentando a frase “Je suis Charlie”, ou “Eu sou Charlie”, traduzindo para o português.

Para que comecemos a reflexão importante descrevermos a natureza do periódico atacado, o qual se autointitula como “Journal Irresponsable”. Caracteriza-se pela sátira a diversos setores mas, em grande parte, dirige-se à religião.

Com charges mostrando o profeta Maomé nas mais variadas situações vexatórias, despertou a ira dos extremistas islâmicos, resultando no fatídico evento desse janeiro.

Porém, é preciso que reflitamos a questão sobre dois aspectos:

O primeiro deles diz respeito aos limites da liberdade de imprensa. Até que ponto a imprensa, para cumprir seu importantíssimo papel na sociedade, pode isentar-se de responsabilidade?

É preciso lembrar que nada nesse mundo justifica os atos terroristas, sejam eles quais forem.  A violência deixou de ser a resposta para os problemas da humanidade a partir do momento em que nos consideramos civilizados o suficiente para desenvolver o mínimo de diálogo possível.

Não vivemos mais em uma época medieval onde a reação violenta era a solução encontrada para a resolução das divergências.

Portanto, a violência não é e nunca foi a resposta para os problemas do ser humano.

Retomando o raciocínio, o próprio jornal se intitula como irresponsável. Não podemos deixar de pensar no risco que uma imprensa irresponsável pode representar ao estado democrático de direito, ao passo que sua finalidade não é exercida.

E qual seria essa finalidade: em termos genéricos e simplórios: informar. Há que se ter um limite. E mais: esse limite nem é tão grande assim a ponto de gerar estardalhaços. Explicamos: o limite está na responsabilidade e no respeito aos destinatários daquela informação.

A imprensa é livre e assim deve ser, mas deve, como todas as demais instituições e setores, observar as normas legais, bem como os direitos fundamentais.

Importante caminharmos no sentido de outro aspecto interessante e deveras triste desse lamentável atentado. O mundo começou uma verdadeira mobilização em solidariedade aos mortos nesse evento, atitude louvável até certo ponto.

Óbvio que a comoção faz com que as pessoas se sensibilizem não só com a dimensão da tragédia, como também com o problema que a originou.

Fala-se em “morte da liberdade de imprensa”, o que nos parece demasiado exagerado.

Outrossim, entramos em outro ponto: alguém por acaso lembrou dos milhares de nigerianos que morrem todos os anos por conta dos atos terroristas do grupo extremista Boko Haram?

Alguém, em algum tempo livre entre o “Je suis Charlie” e uma ida ao toilette, lembrou-se das meninas sequestradas e aterrorizadas naquele país?

Parece que não.

Infelizmente é muito mais fácil sensibilizar-se com um ataque a um jornal francês matando jornalistas (o que é realmente triste e lamentável por todos os motivos já descritos), do que com o negro pobre de um país miserável da África.

Por qual razão não começar um “Je suis nigériane”?

Pelo simples fato de que isso não é problema nosso. Os jornalistas mortos sim, pois a imprensa deve ser preservada.

Mas não precisamos ir tão longe.

Aqui no Brasil, 83 negros morrem por dia, vítimas de homicídio e ninguém parece se preocupar muito com isso.

A miséria atinge níveis alarmantes em todo o mundo e a violência cresce emparelhada com ela. O Brasil ainda tem inúmeros problemas, entre eles a educação que parece ser a origem de tudo.

Mas ainda assim, talvez seja mais importante ou mais fácil defendermos a liberdade de uma imprensa que nem é a nossa.

Não queremos dizer que não seja importante levantar tal bandeira. Por óbvio que é.

Podemos sim ser “Charlie” como todos estão dizendo. Mas por que só “Charlie”, quando podemos ser, também, diversos outros?

Carla Moradei Tardelli é Advogada, membro da Associação dos Advogados do Estado de São Paulo, graduada em Direito pela Universidade Paulista em 2008. Pós graduada em Direito de Família pela Escola Paulista da Magistratura – EPM. Professora em Cursos Jurídicos Preparatórios. Graduada em Psicologia pela PUC/SP em 1988, atuando por 21 anos, junto às Varas de Família e Sucessões e Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.
Leandro Souto da Silva é Advogado, membro da Associação dos Advogados do Estado de São Paulo, graduado em Direito pela Universidade São Judas Tadeu em 2006. Professor em Cursos Jurídicos Preparatórios. Atuou como Assistente Judiciário e Escrevente Técnico Judiciário do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo por seis anos, com lotação em Vara de Família e Sucessões. 

Sábado, 17 de janeiro de 2015
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