“Se o papa fosse mulher, o aborto seria legal”, afirma grupo feminista no júri simulado da USP
Segunda-feira, 2 de março de 2015

“Se o papa fosse mulher, o aborto seria legal”, afirma grupo feminista no júri simulado da USP

Da Redação

// Por Alexandre Putti

 

Como todo ano, a Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP) realiza uma semana especial para receber os calouros. No final da semana ocorre sempre um júri simulado. O evento deste ano aconteceu na ultima sexta-feira (27) com um caso sobre aborto induzido.

Na ação, a ré Michele tinha realizado um aborto em casa com uma agulha de crochê, e logo depois foi encontrada desmaiada pelo irmão que a levou para o hospital. Chegando na emergência, o médico percebeu que a garota tinha realizado um aborto e resolveu chamar a polícia. 

O time que compôs o debate são velhos conhecidos do Just. Na acusação, o ex promotor, advogado e colunista, Roberto Tardelli. Na defesa, a ex-promotora, advogada que já foi colunista neste portal Luiza Nagib Eluf. A sessão foi presidida pelo juiz Roberto Luiz Corcioli Filho, afastado por seu tribunal por “absolver demais”. Corcioli foi entrevistado recentemente sobre a mulher presa e condenada a quase 7 anos por conta de 1g de maconha. Jurados, testemunhas e ré foram representados por alunos.

O julgamento

A sessão começou com o depoimento da mãe da acusada. Aparentemente bem humilde, ela confirmou que não sabia da gravidez da filha e no final pediu para que não julgasse sua “pobre menina”.

Em seguida, veio o irmão, o qual contou como encontrou sua irmã e a levou até o hospital. O último a depor como testemunha foi o médico que denunciou a ré. Neste caso, tanto o promotor quanto à advogada focaram na ética médica, e o fato do médico não ter respeitado-a ao violar o sigilo médico-paciente. 

Passadas as testemunhas, chegou a vez da ré dar seu depoimento. Ela contou que sabia que estava grávida, porém que só se lembrava de brigar com irmão e pegar a agulha. “Não lembro de mais nada depois disso, é como se isso estivesse apagado na minha memória”. 

O depoimento da ré mostrou o tom que seria dado à acusação. Tardelli provocou a ré ao perguntar se ela sabia quem era o pai. Dada a resposta negativa, o promotor deu a entender que Michele vivia uma vida promíscua. Com a palavra, Eluf desdenhou: a acusação não sabe o quanto sexo é bom. Todos riram.

A ultima pergunta da acusação causou um espanto em todos que estavam presente. Tardelli questionou se a acusada realizaria outro aborto. A ré diz que sim e explica que sua “situação financeira não a deixaria cuidar de um filho”.  

Ao final dos depoimentos, tanto defesa quanto acusação elogiaram os atores que interpretaram as testemunhas. De fato, o desempenho foi excelente.

Alegações finais 

Tardelli se levantou de sua cadeira com o primeiro conselho aos alunos: “nunca falem sentado. Ninguém aguenta ouvir”. Sua performance estava diferente da que todos estavam acostumados. No lugar do colunista que já defendeu a legalização do aborto em artigo neste portal, entrou o esteriótipo do acusador. Com voz grave e alta, sustentou o direito à vida e explicou que sem a religião não saberíamos nem o dia que é ‘hoje’, pois nosso calendário é cristão. “O direito só se justifica pela vida, a medicina só se justifica pela vida, sem a vida, nada disso faria sentido”. 

Sua fala foi diminuindo ao passo que cativava a plateia com suas histórias, decifrando a biografia da ré, suas ânsias e frustrações. Criticou o médico – já imaginou se nós não tivermos certeza se estamos indo a um médico ou a um delegado?. Tardelli falou de amor e seu sofisma deu lugar ao conhecimento humano. Ao final ninguém sabia se ele estava a favor ou contra, apenas concordavam com a cabeça.

Sua fala chegou ao fim, Luiza Eluf se levantou para saudar Tardelli e defender a ré. Sua fala foi dura contra àqueles que condenam Michele, baseando-se em aspirações machistas, elitistas e patriarcas. Virou-se para ela e explicou o porquê dela ser acusada – “Se você fosse rica não estaria sentada nesse banco, estaria nas melhores clínicas do país, realizando o aborto de forma segura”. Foi aplaudida de pé.

“Se os homens engravidassem, haveria saúde, amparo, e atenção. Mas nós mulheres, nesse país chamado Brasil, sofremos com a tradição escravocrata, preconceituoso e machista”, afirmou.

Quando seu discurso se inflamou ao máximo, a sessão foi interrompida para que manifestantes protestassem a favor da legalização do aborto. O grupo era composto por cerca de vinte mulheres que batucavam tambor e cantavam: “Se o papa fosse mulher, o aborto seria legal”.

O juri votou e por 6 votos contra 1 a ré foi inocentada e liberada das acusações. 

Segunda-feira, 2 de março de 2015
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