O desafio da Ética para os Profissionais do Direito na Pós-Modernidade
Quinta-feira, 26 de março de 2015

O desafio da Ética para os Profissionais do Direito na Pós-Modernidade

Por Sérgio Aquino

 

Esse é um tema cuja matriz histórica é espinhosa e de difícil compreensão como vetor para qualquer organização social. Debater o fenômeno da Ética, especialmente aos profissionais do Direito, requer um mergulho profundo nesses momentos de crítica e revisão da Modernidade[1] para se identificar aquilo que tem a capacidade de estabelecer cenários para a integração humana. A Ética se apresenta como um desses critérios. Entretanto, duas indagações aparecem: a) O que é a Ética na Modernidade?; b) O que é a Ética na Pós-Modernidade?

A Ética na Modernidade, esclarece Bauman, é a tentativa de expiação dos pecados na Idade Média por meio da Razão Lógica. Trata-se do o esforço da Idade Moderna em antever e prescrever, com maior grau de certeza, a ocorrência de determinados fenômenos e diminuir, ou eliminar, as alternativas de resolução para essas dificuldades[2]. Numa expressão: na medida em que surge a dificuldade, ter-se-á apenas uma resposta para sua solução. Essa resposta precisa ser enunciada (senão, imposta) pela autoridade ética a partir do conhecimento o qual é guiado pela Razão Lógica.

O edifício da Ética proposto pela Modernidade elabora cada alicerce a partir daquilo que as suas autoridades prescrevem como verdades. O poder desses peritos é legislativo e judiciário ao mesmo tempo[3]. As condutas humanas serão julgadas como aptas ou não conforme a previsão da norma ética. Os mencionados especialistas – reitera-se – são capazes de tornar universais as condutas éticas porque dispõem de um conhecimento no qual a pessoa comum não tem. O homem da vida de todos os dias não tem capacidade intelectual para orientar suas próprias ações. Não conhece o “bom” para disseminar o “bem”.

Percebe-se como a função dos especialistas, nesse momento, não é o de difundir o conhecimento, tampouco esclarecê-lo, mas de impor aquilo que se produz como “verdade” no intuito de salvar esse homem comum de seus próprios erros. Essa não é a função da Ética porque a eleição dos critérios de como agir entre as pessoas reivindica a necessidade de seu perpétuo debate. A imutabilidade da Ética proposta como “verdade” não traz a renovação nos cenários humanos, ao contrário, imobiliza qualquer chance de sua revisão no decorrer do tempo.

O “aparente” abandono sobre a escolha de nossas decisões e delegar essa tarefa para as “agências supraindividuais”, aos gestores éticos, já produziu desastres históricos, tais como a Segunda Guerra Mundial. Naquele momento, procedimentalizou-se, de modo racional, a indiferença, estampando-a como “normal” ou “racional”.

Não havia espaço para reflexão pessoal sobre o que se mostrava como razoável. Essa ação pertencia apenas aos peritos. A eficiência, precisão das normas racionais e a especificação de seus papéis, rememora Bauman, permitiu que a violência fosse autorizada e as vítimas desumanizadas, especialmente por definições e doutrinas ideológicas[4]. Eis a negação de autoridade à consciência moral[5].

Desse modo, percebe-se que os especialistas são as pessoas nas quais não podem prescindir de argumentos coerentes, de fundamentos racionalmente explicáveis e garantias infalíveis a fim de preservarem seu status na dinâmica social[6]. Nesse cenário, indaga-se: esses peritos compreendem, de modo adequado, o que é Ética? Será que, na ausência dessas pessoas, não seríamos capazes de descobrir meios acerca de como deveríamos nos portar diante do Outro, de nos caracterizar como “pessoas verdadeiramente morais e decentes” [7]? A resposta, quando não observada pela nossa responsabilidade, pode ser contemplada na sugestão de Bauman:

“[…] Cedo ou tarde, começaremos a procurar intensamente e por nossa própria vontade uma orientação confiável de ‘pessoas do saber’. Se pararmos de confiar em nosso próprio julgamento, iremos nos tornar sensíveis ao medo de estar errados; chamamos o que receamos de pecado, medo, culpa ou vergonha – mas, seja qual for o nome, sentimos a necessidade da mão útil do perito para nos trazer de volta ao conforto da segurança. Trata-se de um medo tal que se amplia a dependência da especialização. Contudo, uma vez que ela se estabeleceu e fincou raízes, a necessidade de especialização ética torna-se ‘autoevidente’ e sobretudo autorreproduzida[8]”.

Observa-se como a “era dos especialistas” conduziu a Ética para sua desfiguração. Na medida em que se vivencia outros momentos histórico, espera(va)-se uma mudança criada por essa (im)postura. Não! O cenário persiste. Quando a arquitetura ética moderna prescreve novos modos de agir, o reino do dever-ser se torna mais autoevidente, ou seja, sem esses alicerces cujos fundamentos podem ser demonstráveis, calculados e previstos, a Ética seria tão somente mais uma opinião pessoal na qual sua autoridade seria destronada pelo reino da objetividade e universalidade.

A condição ética da Modernidade tudo explica, tudo prevê, tudo controla. Esse é o modo como a homogeneização das condutas se torna universal, descontextualizando-se tempo, espaço e cultura. Esse “império” se destina a salvar todos de seus medos e angústias, mas, também, criam outros novos os quais todos se tornam seus reféns. A fundamentação racional acerca da Ética é terreno ambivalente porque a sua base é caótica, não pode ser explicada ou contida: bem vindos ao (pantanoso) mundo da Moral.

A referida categoria, conforme o pensamento de Bauman, pode ser vislumbrada a partir da indagação comumente realizada: Por que devo ser moral? O que me torna – ou melhor, obriga a ser – responsável pelo Outro? Essa pergunta se torna mais acentuada na medida em que se observa a liquefação[9] da Modernidade no período histórico denominado Pós-Modernidade.

Esse momento da História anteriormente citado demonstra como as promessas estáveis, sólidas, na Modernidade se tornaram líquidas. O projeto de vida desenhado pela Razão Instrumental[10], aos poucos, se torna saturado e demanda outras viabilidades de convivência. Se essa criação utilizar os parâmetros enunciados pela Ética da Modernidade, o medo, a angústia, a dúvida, a insegurança ampliarão seus domínios caracterizados como “medo” ao invés de ponto de transformação. No momento em que se “enfrentar o não-enfrentável”[11] o véu posto diante de todos rasga e cai.

Por esse motivo, Bauman denominou a Ética na Pós-Modernidade como a “Era da Moral”. Esse fundamento nuclear dos fenômenos éticos não consegue ser exaurido dentro de normas precisas e calculáveis. A Moral, para o referido autor, não pode ser demonstrada tampouco logicamente deduzida. A mencionada categoria é contingente, ambivalente, incontível. É a única autoridade capaz de orientar os seres humanos para a compreensão de si, pois flui na incerteza do desejo.

A ambivalência retrata o caráter fragmentário da vida. É a incerteza produzida pelas nossas percepções sobre o que é – ou venha a ser – razoável e irrazoável. Essas “conseqüências não-antecipadas” [12] mostram a necessária ponderação na qual precisa ser realizada a fim de compreender o trânsito entre os aspectos “dicotômicos” da vida. A ambivalência denota a ausência de uma resposta pronta, infalível para que as nossas angústias e tormentos sejam eliminados e se retorne ao afago e segurança dos enunciados éticos proposto pelos códigos ou os seus especialistas.

O caminho a ser percorrido para se desenhar a Moral é tortuoso, não existem atalhos os quais possibilitem um rápido percurso. Fechar os olhos e se tornar indiferente diante da vida também não é uma opção adequada. A “Era da Moral”, no pensamento de Bauman, não pode ser descrita pelo modelo “Marilyn Monroe” no qual o desapego às conseqüências das nossas ações perpetua um futuro dionisíaco, descompromissado, irresponsável[13], mas é possível refletir acerca da imagem de “Peter Parker” – o Homem Aranha – a maturação, a angústia e a dificuldade de se tornar uma pessoa moral a cada escolha feita. Esse é o início da caminhada perene e dúbia de se tornar responsável.

Por esse motivo, os “Códigos de Ética” se tornam indiferentes diante da ausência de uma referência moral a partir do Outro. Não é possível estabelecer condições de trabalho mínimas entre os pares, como é o caso da Advocacia, sem que haja os limites de minha ação pessoal (e profissional) os quais se manifesta pela presença de outra pessoa. É a partir desse exercício de reconhecimento que se consolida a Responsabilidade profissional. A Ética denota, portanto, essa procura por uma responsabilidade moral comum a todos.

Essa situação de reconhecimento, todavia, é dificultosa entre essas classes profissionais. No caso estudado, percebe-se que na Advocacia há uma prevalência (insistente) da “Era da Ética” (Modernidade) sob a “Era da Moral” (Pós-Modernidade). Exige-se do(a) Advogado(a) o cumprimento deontológico do seu “Código de Ética”. Insiste-se: a eficácia de um “Código de Ética” profissional é nula sem um exercício perene de compreensão[14] e reconhecimento deste vínculo antropológico comum[15] o qual nos aproxima e torna possível as Relações Humanas, inclusive as profissionais.

O cotidiano desses profissionais demonstra, claramente, a ausência de esclarecimento sobre as posturas descritas no seu “Código de Ética”[16]. Observa-se como os advogados não conseguem estabelecer entre si modos de conduzir ações profissionais capazes de promover a concórdia entre seus pares e ampliar a eficácia da Justiça[17]. Nessa última categoria citada, há uma disseminação como a objetivo final do Direito, mas a práxis profissional parece não compreender a sua natureza, tampouco da Ética, não obstante exista a obrigatoriedade do cumprimento de suas regras para a boa convivência profissional. Nomes vazios e nada mais.

A Moral é o fundamento de resistência contra uma Ética na qual preserva relações humanas jurídicas “coisificadas”. A presunção de que esses profissionais jurídicos conheçam as regras de conduta para a práxis advocatícia não denota a sua compreensão histórica, axiológica e humanística. Reivindicar a “Era da Moral” como fundamento ético da Advocacia significa estabelecer relações amistosas[18] e consolidar a Estética da Convivência[19].

Não é possível ao ser eticizado ser contrário ao estetizado[20], pois ambos convergem suas ações de indignação contra o “lado feio” da vida como o medíocre, o tedioso, o incorreto, a acomodação intelectual, as posturas arrogantes e egoístas, a intolerância[21]. Por esse motivo, insiste-se nas palavras de Bittar[22]:

“[…] é isso que a estética nos faz perceber: a diferença do outro, ainda que no outro queiramos encontrar apenas a igualdade, a igualdade que nos faz, por exemplo, comuns por sermos humanos. […] A estética gera, por isso, socialização, pois provoca o encontro de olhares no espaço comum que é o espaço da obra de arte – ele e eu nos fazemos num só momento da fruição da obra estética, seja uma pintura, seja uma canção. Ainda que o fruidor não seja o artista, e ainda que a percepção do artista seja uma e a percepção do fruidor seja outra, a obra de arte é o caminho do entrecruzamento entre olhares unifocados. Este é o potencial de intersubjetividade da arte, ou seja, de deslocamento de cada sujeito de sua mera condição de sujeito-solitário, pois provoca a sua saída de dentro de seu assujeitamento autocentrado, de seu encapsulamento, para fazer dele um sujeito-parceiro da reconstrução do sentido da obra de arte”.

A Estética da Convivência é genuína fonte de indignação[23] contra essas ações pseudo-éticas regimentadas, axiologicamente petrificadas e historicamente disseminadas pela persistência moderna da “Era da Ética”. Essa é a “salvação” prometida contra a ambigüidade e ambivalência humana contida nas decisões dos Advogados e Advogadas em terrae brasilis. A incompreensão do significado moral, da Responsabilidade, em cada atitude desses profissionais ratifica tão somente uma “mentira ética institucional” contrária ao fomento da presença estética nas relações humanas jurídicas.

Nenhuma profissão jurídica consegue preservar aquilo que o Direito enuncia como indispensável às pessoas – seja na sua dimensão individual ou coletiva – sem compreender – historicamente – que a institucionalização de códigos fundamentados na “Era da Ética” desprezam as indagações e as dificuldades que surgem na metamorfose das condutas humanas. Sem essa postura de inquietação, admiração e perplexidade com os fenômenos éticos e morais, é improvável que se oportunize a disseminação de sua necessidade entre as diferentes profissões.

A “Era da Moral” é uma aporia. É necessário insistir nessa característica. Não há respostas simples, tampouco garantias infalíveis para seu aperfeiçoamento. Somente quando se compreender a natureza ambivalente, dúbia e incerta da Moral, a Ética deixará de se exigir a homogeneização das condutas como meio de se garantir ordem e segurança a todos. Verifica-se, a partir desses argumentos, que a hipótese elaborada para esta pesquisa foi confirmada.

É o ir e vir entre a apreensão e a esperança, a angústia e o alívio na qual dignifica o “Ser Moral”. Ética e Moral crescem sob o mesmo solo fértil no qual o húmus é a Responsabilidade que se inova e reinventa na relação infinita do “Eu” e “Tu”. Esse é o horizonte utópico da Pós-Modernidade na qual se sabe, com maturidade, lidar com a Responsabilidade incondicional de todos com todos.

Esse cenário descrito reivindica a presença da Ética nas profissões jurídicas, como é o caso da Advocacia. Quando não se compreende e se exercita a Ética, sob as raízes da Moral, indaga-se: É possível exigir, entre aqueles que pertencem a uma mesma classe profissional, a perseverança histórica na indagação de suas condutas enquanto Advogados? Essa resposta, no entanto, depende desse diálogo entre o “Eu”, o “Tu” e o “Nós”.

Sérgio Ricardo Fernandes de Aquino é Doutor e Mestre em Ciência Jurídica pela Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI. Professor universitário – Graduação e Mestrado – em Direito e Pesquisador no Complexo de Ensino Superior Meridional – IMED.


[1] “A pós-modernidade, na acepção que se entende cabível, é o estado reflexivo da sociedade ante as suas próprias mazelas, capaz de gerar um revisionismo completo de seu modus actuandi et faciendi, especialmente considerada na condição de superação do modelo moderno de organização da vida e da sociedade. Nem só de superação se entende viver a pós-modernidade, pois o revisionismo crítico importa em praticar a escavação dos erros do passado para a preparação de novas condições de vida. A pós-modernidade é menos um estado de coisas, exatamente porque ela é uma condição processante de uma amadurecimento social, político, econômico e cultural que haverá de alargar-se por muitas décadas até a sua consolidação. Ela não encerra a modernidade, pois, em verdade, ela inaugura sua mescla com os restos da modernidade. Do modo como se pode compreendê-la, deixa de ser vista somente como um conjunto de condições ambientais, para ser vista como certa percepção que parte das consciências acerca da ausência de limites e de segurança, num contexto de transformações, capaz de gerar uma procura (ainda não exaurida) acerca de outros referenciais possíveis para a estruturação da vida (cognitiva, psicológica, afetiva, relacional, etc.) e do projeto social (justiça, economia, burocracia, emprego, produção, trabalho, etc.)”. BITTAR, Eduardo C. B. O direito na pós-modernidade. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2014, p. 94.
[2] BAUMAN, Zygmunt. Bauman sobre Bauman: diálogos com Keith Tester. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 54.
[3] BAUMAN, Zygmunt. A vida em fragmentos: sobre a ética pós-moderna. Tradução de Alexandre Werneck. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 22.
[4] BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e holocausto. Tradução de Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 41.
[5] BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e holocausto. p. 41.
[6] BAUMAN, Zygmunt. A vida em fragmentos: sobre a ética pós-moderna. p. 24.
[7] BAUMAN, Zygmunt. A vida em fragmentos: sobre a ética pós-moderna. p. 24.
[8] BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e holocausto. p. 42. Grifos da obra original em estudo.
[9] “[…] os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade. Os fluídos, por assim dizer, não fixam o espaço nem prendem o tempo. Enquanto os sólidos têm dimensões espaciais claras, mas neutralizam o impacto e, portanto, diminuem a significação do tempo (resistem efetivamente a seu fluxo ou o tornam irrelevante), os fluídos não se atêm muito a qualquer forma e estão constantemente prontos (e propensos) a mudá-la; assim, para eles, o que conta é o tempo, mais do que o espaço que lhes toca ocupar; espaço que, afinal, preenchem apenas por um momento. Em certo sentido, os sólidos suprimem o tempo; para os líquidos, ao contrário, o tempo é o que importa.”. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Tradução de Plinio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 8.
[10] Horkheimer rememora os efeitos produzidos pela referida expressão: “A redução da razão a um mero instrumento afeta finalmente até mesmo o seu caráter como instrumento. O espírito antifilosófico que é inseparável do conceito subjetivo de razão, e que na Europa culminou com a perseguição totalitária aos intelectuais, fossem ou não os seus precursores, é sintomático da degradação da razão. Os críticos tradicionalistas e conservadores da civilização cometem um erro fundamental quando atacam a civilização moderna sem atacarem ao mesmo tempo o embrutecimento que é apenas outro aspecto do mesmo processo. O intelecto humano, que tem origens biológicas e sociais, não é uma entidade absoluta, isolada e independente. Foi declarado ser assim apenas como resultado da divisão social do trabalho, a fim de justificar esta última na base da constituição natural do homem.”. HORKHEIMER, Max. Eclipse da razão. São Paulo: Centauro, 2000, p. 61.
[11] BAUMAN, Zygmunt. A vida em fragmentos: sobre a ética pós-moderna. p. 31.
[12] BAUMAN, Zygmunt. Ética pós-moderna. Tradução de João Rezende da Costa. São Paulo: Paulus, 1997, p. 25.
[13] “[…] O mundo pós-moderno, em que as autoridades brotam sem aviso prévio, do nada, para desaparecer de imediato, também sem aviso prévio, prega adiar o pagamento. Se a caderneta de poupança é a epítome da vida moderna, o cartão de crédito é o paradigma da vida pós-moderna.”. BAUMAN, Zygmunt. A vida em fragmentos: sobre a ética pós-moderna. p. 15. Grifos da obra original em estudo.
[14] “Há duas formas de compreensão: a compreensão intelectual ou objetiva e a compreensão humana intersubjetiva. Compreender significa intelectualmente apreender em conjunto, comprehendere, abraçar junto (o texto e seu contexto, as partes e o todo, o múltiplo e o uno). A compreensão intelectual passa pela inteligibilidade e pela explicação. […] A compreensão humana vai além da explicação. A explicação é bastante para a compreensão intelectual ou objetiva das coisas anônimas ou materiais. É insuficiente para a compreensão humana. Esta comporta um conhecimento de sujeito a sujeito. […] Compreender inclui, necessariamente, um processo de empatia, de identificação e projeção. Sempre intersubjetiva, a compreensão pede abertura, simpatia e generosidade”. MORIN, Edgar. Os sete saberes necessário à educação do futuro. Tradução de Catarina Eleonora e Jeanne Sawaya. 4. ed. São Paulo/Brasília: Cortez/UNESCO, 2001, p. 94/95.
[15] “Cada ser humano é um cosmos, cada indivíduo é uma efervescência de personalidades virtuais, cada psiquismo secreta uma proliferação de fantasmas, sonhos, idéias. Cada um vive, do nascimento à morte, uma tragédia insondável, marcada por gritos de sofrimento, de prazer, por risos, lágrimas, desânimos, grandeza e miséria. Cada um traz em si tesouros, carências, falhas, abismos. Cada um traz em si a possibilidade do amor e da devoção, do ódio e do ressentimento, da vingança e do perdão. Reconhecer isso é reconhecer também a identidade humana. O princípio de identidade é unitas multiplex, a unidade múltipla, tanto do ponto de vista biológico quanto cultural e individual”. MORIN, Edgar; KERN, Anne Brigitte. Terra pátria. 5. ed. Porto Alegre: Sulina, 2005, p. 59. Grifos originais da obra em estudo.
[16] Citam-se os seguintes exemplos: a) Em Santa Catarina: Processo Disciplinar n. 1086/2008 – Ementa: A confissão de acordo com terceiros para captação de clientes e a comprovação que este entregou documentos relativos a determinada causa – caracterizada fica a transgressão descrita pelo inciso III do art. 34 – aplicação da pena de censura convertida em advertência sem registro nos assentamentos – art. 36, I e parágrafo único – atenuante do art. 40, II. Decisão por unanimidade; Processo Disciplinar n. 148/2009 – Ementa: Não pratica falta ética o advogado que se insurge em petição trabalhista contra profissional que, em fase final de processo, atravessa petição e procuração sem notificar aquele. Arquivamento do processo com retirada dos registros do advogado representado. Decisão por unanimidade; b) Em São Paulo: Acórdão 915/2012 – Ementa: Advogado – Ofensas e ameaças em peça processual – Quebra do dever de urbanidade insculpido nos arts. 44 e 45, do CED – Dever de dispensar consideração e respeito à autoridade judiciária e aos servidores da Justiça – Acusação à parte que integra a relação processual e não ao advogado – Hipótese que, também não é de se verificar a incidência do disposto no § 2o, do art. 7o, do EAOAB – Improcedência da representação – arquivamento.; Acórdão 111/2012 – Ementa: Dever de urbanidade – Ofensa pessoal – Infringe o Código de Ética aquele que efetua ataques pessoais a colega de profissão e lhe oferece afirmações injuriosas como “desonesto” e “incompetente”. A relação profissional entre advogados deve se pautar pela educação e cortesia. Violação ao artigo 44 do Código de ética da OAB. Pena censura, com fulcro no artigo 36, II do Estatuto da OAB.
[17] Nas palavras de Comparato: “A justiça, a exemplo de outras artes e ofícios […], é uma virtude voltada inteiramente para os outros e não para o próprio sujeito. A procura da vantagem pessoal é mesmo o oposto de toda a manifestação da justiça”. COMPARATO, Fábio Konder. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. 3. reimp. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 525.
[18] “A sensação de cumplicidade e cordialidade produzidas pela Amizade conduz a modos de vida mais hospitaleiros, transfronteriços, porque reivindica da Fraternidade como aposta de metamorfose do Ser humano no decorrer do tempo. A desejada concórdia entre todos somente se viabiliza pela presença do amigo na Terra. Esse compartilhar o existir (para fora do “Eu”) evidencia a incompletude humana e a necessidade de se esclarecer como o vínculo antropológico comum é a expressão na qual permite transpor os interesses nacionais por necessidades humanas fundamentais. As relações humanas amistosas precisam ser compreendidas e exercitadas com habitualidade para se difundir que o todo está inscrito em cada ser vivo e cada ser vivo é a imagem desse todo. O uno é múltiplo e vice versa”. AQUINO, Sérgio Ricardo Fernandes de. A amizade como fundamento raciovital à sustentabilidade de uma sociedade-mundo. In: TRINDADE, André Karam; ESPÍNDOLA, Angela Araújo da Silveira; BOFF, Salete Oro. Direito, democracia e sustentabilidade: anuário do programa de pós-graduação da faculdade IMED. Passo Fundo, (RS): Editora da IMED, 2013, p. 171.
[19] Sob o ângulo da Política Jurídica, a categoria denota sensação de “[…] harmonia e beleza que rescende dos atos de convívio social que se apóiam na Ética e no respeito à dignidade humana”. MELO, Osvaldo Ferreira de. Dicionário de Política Jurídica. Florianópolis: Editora da OAB/SC, 2000, p. 37/38.
[20] “[…] Se a grande função da arte é propiciar prazer espiritual, que prazer maior para o ser humano sensível do que o bem-conviver, a comunicação aberta, o sentir-se aceito na diversidade, e descobrir-se com as condições psicológicas e culturais de aceitar pensar o outro? A arte de viver é uma constante colocação de estética na convivência”. MELO, Osvaldo Ferreira de. Fundamentos da política jurídica. Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris, 1994, p. 62.
[21] MELO, Osvaldo Ferreira de. Fundamentos da política jurídica. p. 62.
[22] BITTAR, Eduardo C. B. Democracia, Justiça e Direito Humanos: estudos de teoria crítica e filosofia do direito. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 138/139.
[23] “Eu desejo a todos, a cada um de vocês, que tenham seu motivo de indignação. Isto é precioso. Quando alguma coisa nos indigna, como fiquei indignado com o nazismo, nos transformamos em militantes; fortes e engajados, nos unimos à corrente da história,e a grande corrente da história prossegue graças a cada um de nós. Essa corrente vai em direção de mais justiça, de mais liberdade, mas não da liberdade descontrolada da raposa no galinheiro. […]. Se você encontrar alguém que não é beneficiado por eles, compadeça-se, ajude-o a conquistá-los”. HESSEL, Stéphane. Indignai-vos!. Tradução de Marli Peres. São Paulo: Leya, 2011, p. 16.
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