O Assassino de Crianças
Segunda-feira, 6 de abril de 2015

O Assassino de Crianças

Por Roberto Tardelli

 

Em um dos júris da vida, o réu admitiu que era matador profissional, algo raro. Em dado momento, ele apresentou seu limite ético: por dinheiro algum no mundo, mataria uma criança. A criança limitava ação de quem desde sempre se orgulharia de sua insensibilidade moral, expressão que os juízes adoram usar, destinada a quem ultrapassa os limites da impiedade humana. O matador não matava criança.

Em uma das mais tensas cenas de O Sniper Americano, lixo cultural caprichadíssimo, com a etiqueta sempre instigante de Clint Eastwood, Chris Kyle, personagem central, que saiu da realidade para desafiar a ficção, autor de mais de cento e cinquenta mortes, no Oriente Médio; ele era um excepcional atirador e se encarregava de eliminar inimigos estrategicamente posicionados. A cena registra um momento de absoluta agonia do herói: a possibilidade de atirar contra uma criança, que empunhava um fuzil. O zoom se fixou nos dedos do matador oficial americano, que jamais fraquejaram diante da morte, mas, diante do menino, vacilaram; foi libertador para ele não atirar contra o garotinho. Ele chora de alívio, não suportaria matar uma criança. O filme contém esse momento sublime. Ele não atirou.

Quem, por mais miserável que possa ser, atira de fuzil em uma criança? Quem foi esse um que ultrapassou todos os matadores? Qual o nível de insensibilidade moral será preciso ter alguém para disparar contra uma criança?

Não, por favor, não me venham com as histórias de ser um grupo de policiais à beira de um colapso nervoso, nem me digam que são mal remunerados, nem insinuem que foi sem querer, diante de um erro de avaliação de um soldado que, despreparado, vai para uma guerra sem ter nenhuma noção de quem é seu inimigo. Não. Quem atirou naquela criança é um assassino. Um assassino de crianças. Um assassino tão pustulento que não recuou sequer diante de uma criança.

A dor, diante da estupidez sem limites, lacera ainda mais a alma. Se ter um filho morto é a pior das perdas, tê-lo morto pela ação do Estado Policial é ainda mais desesperador, porque não foi uma fatalidade, não foi uma doença incurável, não foi um erro médico. O menino morreu porque alguém optou deliberadamente por matá-lo. Quem matou era um agente público, em atividade pública. Teoricamente, o filho morreu por quem foi pago pelos impostos recolhidos dos pais. A sensação é a de terem financiado a morte de seu próprio rebento. Horrível.

Para piorar as coisas, o Governador anuncia que não recuará, que seus homens fardados continuarão disparando e matando e que, num instante de canhestro altruísmo, pagaria o traslado do corpo do garoto para o Piauí, onde será sepultado. É essa a solidariedade de que dispõe e foi patético ver o Governador carioca tratar o assassinato de uma criança como se fosse um acidente de trabalho.

É muito mais do que isso: em uma enorme comunidade, de milhares de pessoas estão sob estado de sítio. As ruas são cortadas por veículos blindados e soldados fortemente armados que saem a combater traficantes, escondidos na população. Se ali se escondem, é porque ali encontram abrigo e assim a população, toda ela, passa a ser suspeita. Não há direitos humanos, não há ninguém que diga ao governador que aquele que manda atirar, também atira. Não há um seu maldito assessor que tente mostrar a Sua Excelência que seus soldados são piores que os traficantes que combate, porque nunca um traficante fuzilou uma criança. Nenhum bispo, nenhum pastor, nenhum promotor de justiça, nenhum juiz, nenhum ministro, nenhum advogado; é impressionante o silêncio.

Na morte brutal do garoto, houve uma revolta, ingênua, de umas poucas pessoas, mais aterrorizadas do que revoltadas, e que foi debelada sob bombas de efeito moral e spray de pimenta, lançados por policiais militares contra pessoas comuns, pessoas que nada faziam de ilícito ou de ilegal, pessoas que carregavam nos ombros um menino morto, assassinado.

Essa brutalidade é reveladora de uma ideologia. A polícia tem aquelas pessoas como inimigas, a polícia as tratou como fossem inimigas e somente assim agiu porque há mais que mera ordem-unida. Os policiais aquartelados aprendem que, se os traficantes se escondem entre a população que os protege, é porque há cumplicidade. Na ideologia dominante, o menino que morreu, morreu porque a comunidade o levou para a morte. Se todos denunciassem os inimigos reais, os inimigos imaginários não seriam mortos.

O Estado Policial forma isso: assassinos e cria inimigos a todo momento, faz da Guerra Contra o Crime uma guerra em que toda a comunidade é inimiga. O Estado Policial agrava as tensões ao limite e cria o ambiente beligerante.

Quem atirou de fuzil contra o menino somente atirou porque estava encorajado e determinado, cheio até as tampas de ódio e de autoridade. Foi lapidado para que se tornasse isso: assassino.

A Cultura da Matança é a filha dileta da Cultura do Ódio, temperada em caldeirões de ressentimentos e preconceitos. O menino morto deveria ser suficiente para que se derrubassem os muros dos quartéis, deveria ser suficiente para que todas as polícias guardassem, por um dia, suas armas, seus sprays, suas bombas, seus choques, seus cães ferozes e seus blindados. Por um dia que fosse, que se recolhessem as tropas e que todos, todos, se desculpassem pelo garoto morto, chorassem e se desesperassem pelo garoto morto, que se lembrassem de seus filhos vivos, que tentassem sentir a dor da família, tentassem sentir a dor da solidão, tentassem, por um dia, imaginar que não são assassinos. Não são, embora haja um enorme esforço para transformá-los em máquinas de matar.

Que, por um dia, se dessem conta do óbvio, revelado por Chaplin, em um de seus mais geniais momentos: homens é que sois.

Vale repetir: homens é que sois: homens é que sois.

Homens é que sois!

Roberto Tardelli é Procurador de Justiça aposentado (1984/2014), onde atuou em casos como de Suzane Von Richthofen. Atualmente é advogado da banca Tardelli, Giacon e Conway Advogados, Conselheiro Editorial do Portal Justificando.com e Presidente de Honra do Movimento de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.

Segunda-feira, 6 de abril de 2015
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