#somostodasVerônica
Quarta-feira, 22 de abril de 2015

#somostodasVerônica

Por Daniela Rosendo e Tamara Amoroso Gonçalves

// Inclusive,

 

A truculência da polícia brasileira já não surpreende ninguém. É tão comum que quase já não nos indignamos. Tão recorrente que parece normal. Mas o que acontece quando essa instituição se depara com alguém que desafia os papéis sociais pré-estabelecidos para homens e mulheres, que corrompe, perverte e implode a dicotomia entre os gêneros e a matriz da heterossexualidade compulsória?

A breve história de Verônica Bolina, que ganhou as mídias na última semana, leva-nos a questionar de onde vem tanta violência e discriminação. Que existe muito machismo e misoginia, já sabemos. Ainda que essa constatação seja fundamental, tanto quanto a compreensão de como ela estrutura e é estruturante da nossa sociedade, por que as pessoas agem dessa maneira? Seriam ações desencadeadas pela maldade?

Difícil é acreditar na violência pela violência, pura e simplesmente; banalizada para destroçar vidas humanas. Difícil é justificar que para controlar Verônica, suspeita de ter cometido um crime, seria preciso desfigurá-la. No caso em tela, a desfiguração tem um papel central: de recusa, de não aceitação do humano de Verônica, que não pode ser homem e mulher, que não pode extrapolar os papéis sociais que sua biologia impõem.

Há séculos se busca compreender a natureza humana, benevolente ou malévola, e empreender uma teoria moral. Kant foi o primeiro filósofo a tratar o mal desvinculado da teodiceia, ou seja, tratando-o da perspectiva moral, desnaturalizada. Para Kant, a vontade diabólica, ou seja, o mal pelo mal, não existe. Não se encontra, portanto, o mal como uma finalidade em si mesmo.

Martha Nussbaum, no intuito de compreender as figuras contemporâneas do mal, defende que a maior expressão do mal radical nas culturas políticas são a repugnância e a estigmatização de grupos. Segundo Nussbaum, o ponto chave da subordinação é a repugnância, a qual traz uma noção de contaminação: expressa uma ansiedade de que o self é contaminado ao encostar em algo que esteja também contaminado. Repugnância de quem não enxerga o humano no outro e o coloca justamente nesse categoria fria e distante: o outro, o não humano. Como nossa sociedade também é especista, tudo que não é humano está moralmente justificado em ser subordinado e até mesmo violentado, segundo a lógica da dominação presente em todos os “ismos” de dominação (heterossexismo, racismo, sexismo, especismo e assim por diante).

Nesse círculo, a repugnância nega o respeito político igualitário. Desconsidero o outro porque não o reconheço como humano ou totalmente humano: permito-me humilhá-lo. Transcender a repugnância nos conduz à ideia da igual vulnerabilidade e mortalidade; mas pressupõe que sejamos todos os mesmos, em direitos e dignidade. A igualdade política e a reciprocidade são relacionadas, consequentemente, à renúncia à onipotência. Isso significa que não podemos acreditar e agir como se estivéssemos no centro do mundo, com uma visão restrita das nossas crenças. O respeito à diversidade e ao pluralismo depende do quanto abrimos mão dela, em favor de outras formas de expressão. Disso depende o respeito de um/a para com o/a outro/a.

Se Nussbaum estiver certa, enquanto não nos dermos conta de que por trás das figuras do mal e das atitudes violentas está uma visão de mundo permeada pela noção da repugnância, qualquer pessoa estará em risco, e qualquer uma pode ser a próxima Verônica.

 

Quarta-feira, 22 de abril de 2015
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