Genocídio Armênio, mais um genocídio que o Brasil finge não ver
Quinta-feira, 23 de abril de 2015

Genocídio Armênio, mais um genocídio que o Brasil finge não ver

Por Philipe Arapian

// Especialmente para o Justificando

 

Dias antes de invadir a Polônia e iniciar a II Guerra Mundial, Adolf Hitler teria dito “Quem hoje em dia ainda fala do massacre dos armênios?”[1], demonstrando claramente ao seu exército que não havia motivos para se amedrontarem, uma vez que massacres, chacinas e genocídios caem no esquecimento rapidamente.

No dia 24 de abril de 2015, o mundo relembra 100 anos do primeiro genocídio do século XX, que vitimou aproximadamente um milhão e meio de armênios, pelas mãos do Império Turco Otomano. Infelizmente, é muito raro encontrar alguém em solo brasileiro que tenha conhecimento do massacre que matou dois em cada três armênios, sendo o principal motivo o fato de o próprio Brasil, diferente de muitos países e órgãos internacionais[2], ainda não tê-lo reconhecido oficialmente.

Armenian genocideO plano do extermínio armênio teve como origem a crise do Império Otomano. Ela já vinha se agravando da metade para o final do século XIX, principalmente com a independência dos Estados na região dos Bálcãs (Grécia, Bósnia, Sérvia, Bulgária, Romênia), vitais para a economia do Império, e com a perda de outros territórios. Com isso, o Império diminuía cada vez mais, milhões de pessoas deixavam de fazer parte dele, e consequentemente valores enormes de impostos já não eram mais arrecadados.

Os armênios eram um desses povos que vivia no Império Otomano, com maioria da população pobre[3], reivindicando serviços básicos essenciais e melhores condições de vida, mas constantemente ignorado por quem estava no poder[4]. Assim, no momento de crise, se a situação já estava difícil como um todo, inclusive para grande parte da população de origem turca, sobravam logicamente para as minorias os maiores danos.

Com os armênios não foi diferente: sobretaxação da produção agrícola, opressão cultural com a proibição do idioma armênio em muitas regiões e incitação para que grupos curdos atacassem vilas armênias foram algumas das violências perpetradas. Devido a tanta opressão, algumas províncias armênias com grande contingente de população armênia se levantaram contra os desmandos do governo turco. Porém, a resposta do Sultão Abdul-Hamid II, que comandava o Império na época, foi muito violenta: ele organizou grupos armados para “conter os distúrbios armênios”, o que serviu na realidade como pretexto para promover massacres[5], que resultaram nas mortes de 80 a 200 mil armênios.

Como a crise só aumentava e muitos eram os setores insatisfeitos, inclusive turcos, o sultão não aguentou a pressão e na primeira década do século XX um grupo chamado Jovens Turcos assumiu o poder. No entanto, o que aparentava ser em um primeiro momento uma ponta de esperança para os armênios (que chegaram a apoiar a troca de governo, pois se encontravam em situação crítica), torna-se um pesadelo. Os Jovens Turcos decidem eliminar a população armênia do território. A lógica criminosa se baseava em evitar que os armênios reivindicassem independência e também em expropriar toda a produção econômica que estava nas mãos deles (como algodão e cobre, por exemplo); ainda, os bens armênios serviriam para aliviar a pressão que muçulmanos exerciam sobre o governo otomano por não terem terras ou propriedades, enquanto cristãos[6] possuíam.

A execução foi meticulosamente planejada. No dia 24 de abril de 1915, centenas de intelectuais armênios (políticos, escritores, religiosos, etc), foram presos sob a acusação de conspiração e traição. Nas vilas armênias, a população masculina, que havia sido convocada para o exército, era na realidade levada para longe e submetida a trabalhos forçados (sendo soterrados nas valas que eles próprios abriam). Crianças, mulheres e idosos eram deportados para o Deserto de Der El Zor, onde marchavam muitas vezes sem destino, e acabavam morrendo durante o trajeto devido à doenças, falta de água e de comida[7]. Embora este tenha sido o método prevalecente, há também relatos de estupros, torturas e mortes cruéis.

Vale ressaltar que o desejo de levar a população armênia para o deserto tinha também o intuito de afastar os observadores internacionais, para que o crime permanecesse oculto. Contudo, os turcos não obtiveram sucesso, já que relatos dramáticos de violência e perversidade chegaram ao ocidente, seja por autoridades[8] ou pelos próprios sobreviventes, que se espalharam pelo mundo formando o que hoje se denomina de diáspora armênia[9].

No entanto, deve-se salientar que não é somente o Genocídio Armênio que possui pouco holofote, afinal pouquíssimas são as notícias sobre os genocídios de Ruanda (800 mil mortos), Camboja (2 milhões), Indonésia (500 mil), Kosovo (300 mil), dentre outros. Muito provavelmente você também nunca tenha ouvido falar desses e esteja até atônito com todos esses números. Afinal, por que não aprendemos isso nas escolas? Por que a grande mídia, invariavelmente, não dá atenção para esses massacres? Por que algumas vidas (quenianas, palestinas e iraquianas) parecem ter menos valor do que outras (francesas, israelenses e americanas)? Enfim, se a crítica vale para o que acontece lá fora, com os outros, não se pode esquecer do que acontece aqui, em solo brasileiro. É essencial que se tenha em mente que genocídios não são assunto só do passado, tampouco só do estrangeiro, e dois rápidos exemplos elucidarão bem essa temática.

O primeiro deles é o genocídio da juventude pobre, preta e periférica, que há tempos é denunciado por inúmeras entidades da sociedade civil. No ano de 2014, foi divulgado que 963 pessoas foram mortas pela Polícia Militar de São Paulo[10]. A cifra de 2014 corresponde a mais que o dobro do número oficial de mortos e desaparecidos em todo o país durante os 21 anos de regime militar[11]. No estado do Rio de Janeiro, em apenas 10 anos (entre 2001 e 2011), a Polícia Militar fluminense matou mais de 10 mil pessoas[12]. Não se pode esquecer também das emblemáticas chacinas que acontecem rotineiramente, e que podem ser incentivadas (por que não?) por um discurso hitleriano: “e quem se lembra de Vigário Geral e Candelária?”. Por fim, a pesquisa da UFSCar constatando que morrem três vezes mais negros do que brancos pelas mãos da polícia paulista[13], os crimes ocorridos em maio de 2006, onde dos 505 civis mortos, 96% eram homens, mais de 80% tinham até 35 anos e mais da metade eram negros[14], e a campanha da Anistia Internacional (chamada “Jovem Negro Vivo”) mostrando que mais da metade dos mortos em 2012 no país são jovens entre 15 e 29 anos, sendo 77% negros, falam por si e convalidam a denúncia desse extermínio que segue a todo vapor.

Um segundo processo genocida existente há séculos é o das comunidades tradicionais indígenas. Essas que há 500 anos possuíam 100% das terras do território nacional, hoje possuem somente 12,5%[15], além de serem pouco mais de 800 mil no país todo (muito diferente dos 3 a 5 milhões existentes antes de 1500). Se hoje o genocídio não se evidencia tanto pela escravização e matanças, cumpre esse papel a omissão dos governantes e a ação da grande mídia, que quando se debruça sobre o assunto (pois muitas vezes também se omite[16]) noticia os fatos com frases do tipo: “Índios invadem fazendas”. A irritante ideologia praticada não só nega todo o passado de história dos nativos, como inverte os papéis, colocando o opressor como vítima e o oprimido como vilão, contribuindo assim para que o processo genocida continue, e, pior, ganhando o aval da sociedade. Em suma, percebe-se que jamais se questiona: “Mas não são as fazendas que invadiram esses mesmos territórios indígenas em conflito?”[17].

Por fim, existem muitos fatores que podem ser elencados para que nenhum episódio do gênero tenha visibilidade tais como: as escolhas que a grande mídia faz para sua grade de programação, com um direcionamento político muito claro[18]; a ideologia dos governantes, principalmente se partem de premissas como as famigeradas “lei e ordem” ou “tolerância zero”, que têm como alvo principal setores específicos da sociedade; e a falta de reflexão e informação com argumentos mais concretos para suscitar um debate mais aberto e plural na sociedade.

A linha que separa a paz e inicia um processo de ódio é muito tênue. Não é a toa que já se comprou a ideia de que os males da Turquia eram os armênios (pois eram cristãos e responsáveis diretos pela crise do império), ou que os males da Alemanha advinham dos judeus (que roubariam todo o dinheiro do povo alemão), ou mesmo que os males do Brasil são os nordestinos (discurso inclusive proferido recentemente nas eleições de 2014 para a presidência de República – alguns chegaram até a propor um muro para dividir o país[19]).

O genocídio armênio foi algo terrível e muito lamentável, mas ele foi apenas “mais um”. Massacres em menor ou maior escala acontecem diariamente debaixo dos nossos olhos, e a única maneira real de transformação é a indignação coletiva, a inconformidade, a revolta. Somente quando todas essas práticas absurdas e cruéis não forem mais tratadas como banalidades cotidianas, quando ninguém mais disser “isso acontece” ou “isso é normal”, é que se poderá pensar em um mundo melhor. Mas até lá, o Brasil continuará sem reconhecer o genocídio armênio e legitimando inúmeros outros processos genocidas.

Philipe Arapian é assistente jurídico da Promotoria de Justiça de Direitos Humanos do Ministério Público de São Paulo e aprovado no II concurso para Defensor Público de Goiás (aguardando nomeação)


[1] DADRIAN, Vahakn. “Configuración de los genocídios del siglo veinte”. In: FEIERSTEIN, Daniel (org.). Genocidio: La administración de la muerte en la modernidad. Buenos Aires: Eduntref, 2005, pp. 37-42
[2] Países que já reconheceram o genocídio armênio: Alemanha, Argentina, Armênia, Bélgica, Bolívia, Canadá, Chile, Chipre, Curdistão, Escócia, Eslováquia, França, Grécia, Holanda, Itália, Líbano, Lituânia, País Basco, Polônia, Rússia, Suécia, Suíça, Uruguai, Vaticano e Venezuela. Vale ressaltar que, embora os EUA não o reconheçam, 43 dos 50 estados americanos o reconhecem. Além disso, dentro do Brasil, os estados de São Paulo, Paraná e Fortaleza também já reconheceram. E, por fim, há uma lista enorme também de organismos internacionais que já o fizeram, como o Tribunal Permanente dos Povos, o Parlamento Europeu e o Mercosul (para acessar a lista completa: http://www.genocide-museum.am/eng/international_organisations.php).
[3] Entre 70 e 80% da população armênia era camponesa. BLOXHAM, Donald. The Great Game of Genocide: imperialism, nationalism, and the destruction of the Ottoman Armenians. Nova York: Oxford University Press, 2005, p. 9.
[4] Ou seja, nada muito diferente da atual população que se localiza nas periferias das metrópoles brasileiras.
[5] Essa inversão de papéis entre opressor e oprimido, manipulada por quem está no poder, pode ser vista nos dias de hoje em chacinas, na criminalização de movimentos sociais, na cobertura midiática dos protestos, que sempre apresenta os manifestantes como vândalos (e nunca os policiais como incitadores da violência), ou até mesmo nos famigerados “autos de resistência”, onde a vítima de um homicídio é considerada autora de um crime.
[6] Somente a título de curiosidade, os armênios foram o primeiro povo no mundo a adotar o Cristianismo como religião oficial, no ano de 301.
[7] A estratégia era deixar a população armênia morrer, e não a matar diretamente (com fuzilamentos, por exemplo), pois assim balas eram poupadas, o sofrimento psicológico dos soldados também e principalmente já se projetava o argumento da negação do crime (com a falácia de “nós não matamos, eles acabaram morrendo”).
[8] Destacamos notadamente o livro “A história do Embaixador Morgenthau”, da Editora Paz e Terra, que é um documento cabal do hediondo crime contra a humanidade.
[9] Estima-se que 8 milhões de armênios vivam fora da Armênia, enquanto somente 3 milhões residem no país.
[10] Somados os casos dos policiais em serviço e em folga: http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,a-cada-34h-policiais-de-folga-matam-1-no-estado-total-chega-a-255-em-2014,1655752, acesso em 26/03/2015.
[11] A Comissão da Verdade apurou o número de 434 mortos e desaparecidos no período todo:
http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2014-12-10/comissao-da-verdade-confirma-434-mortes-e-desaparecimentos-na-ditadura.html, acesso em 24/02/2015.
[12]De acordo com a pesquisa conduzida pelo sociólogo Michel Misse: http://www.revistaforum.com.br/blog/2013/09/dez-mil-mortes-em-dez-anos/, acesso em 24/02/2015.
[13] Pesquisa apresentada coordenada pela pesquisadora Jacqueline Sinhoretto da UFSCar. Segue o link abaixo:
http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/03/taxa-de-negros-mortos-pela-policia-de-sp-e-3-vezes-de-brancos-diz-estudo.html, acesso em 24/02/2015.
[14] Relatório do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana sobre os crimes de maio de 2006:
http://www.sdh.gov.br/sobre/participacao-social/cddph/relatorios/relatorio-c.e-crimes-de-maio, acesso em 24/02/2015.
[15] Dados obtidos do Censo 2010, segue link abaixo:
http://censo2010.ibge.gov.br/noticias-censo?busca=1&id=3&idnoticia=2194&t=censo-2010-poblacao-indigena-896-9-mil-tem-305-etnias-fala-274&view=noticia, acesso em 24/02/2015.
[16] Ressalva feita à denúncia do jornalista Bob Fernandes a respeito dessa tragédia, no Jornal da Gazeta:
https://www.youtube.com/watch?v=kkPxWAcgOQM, acesso em 24/02/2015.
[17] Segue abaixo artigo muito bacana sobre o assunto:
http://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-milanez/a-nova-guerra-justa-aos-indios-8151.html, acesso em 24/02/2015.
[18] Vale somente lembrar rapidamente a crítica feita à mídia pelo músico Gabriel o Pensador, em sua música “Até Quando?”: “A programação existe pra manter você na frente, na frente da TV,
   que é pra te entreter, que é pra você não ver que o programado é você
[19] Inclusive deputados e jornalistas famosos chegaram a propor tal feito, como Romeu Tuma Júnior e Rodrigo Constantino (seguem links abaixo).
http://noticias.terra.com.br/eleicoes/romeu-tuma-jr-propoe-muro-para-dividir-pais-em-duas-partes,a0cd218d51f49410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html, acesso em 24/02/2015.
http://www.viomundo.com.br/politica/rodrigo-constantino-propoe-divisao-brasil-em-dois.html, acesso em 24/02/2015.
Quinta-feira, 23 de abril de 2015
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