A democracia começa dentro de casa
Quarta-feira, 6 de maio de 2015

A democracia começa dentro de casa

Por Tamara Amoroso Gonçalves e Daniela Rosendo

// Na coluna Inclusive,

 

Muita coisa vem mudando no cenário brasileiro. Se, por um lado, a desigualdade social demanda transformações mais profundas, é inegável que nos últimos 12 anos, em razão dos diversos programas de assistência social, a cara do Brasil mudou. A consolidação do Bolsa Família erradicou a pobreza extrema e alçou ao mundo do consumo uma parcela significativa da sociedade que, antes, não podia nem se dar ao luxo de sonhar com geladeira: não teria o que guardar ali dentro mesmo…

A inclusão pelo consumo pode ser analisada sob diferentes perspectivas, sendo uma delas relacionada aos enormes desafios que surgiram para um sistema de proteção aos consumidores ainda em desenvolvimento. O superendividamento e o colapso da indústria e da cadeia de serviços pouco preparadas para tanta demanda também são faces dessa inclusão. A sociedade não estava pronta para esse boom. Se não estava no âmbito público, muito menos no privado. Para uma certa parcela da população, a vida é organizada a partir da desigualdade estrutural para sobreviver. Para essas pessoas, é inconcebível  vidas sem empregadas, babás, motoristas e tantos outros empregados domésticos.

Segundo a OIT, existem 7,2 milhões de empregados domésticos no Brasil, dos quais 6,7 milhões são mulheres e 504 mil são homens. Do total de trabalhadoras no Brasil, 17% estão no trabalho doméstico. Os dados indicam que ainda são as mulheres que ocupam essa função, reforçando as noções de que o cuidado da casa e da família deve ser de responsabilidade das mulheres. Interessante é notar a perspectiva de classe e de gênero que esse dado encobre: se uma mulher não pode cuidar da sua própria casa porque está trabalhando fora, contrata-se uma outra mulher para ocupar esse espaço. Dividir as tarefas com o parceiro parece não ser uma opção disponível.

Nesse cenário, como sobreviver? Como ir trabalhar todo dia, atravessar cidades caóticas com trânsitos infernais e ainda cuidar da casa, dos filhos, da comida? Impossível. Por isso que precisam delas e deles; para manter o bem-estar. Esse pensamento ignora a desigualdade que sustenta o sistema e não se entende como tanta gente, recentemente, têm se recusado a desempenhar essas tarefas, para pânico, desespero e instabilidade desse status quo que tem ares de casa grande e senzala.

O que aconteceu? Dentre outras circunstâncias, o Bolsa Família está atrelado à garantia de outros direitos fundamentais, como saúde e educação, e tem promovido não apenas o acesso dos cidadãos a esses serviços públicos, como a transformação de suas vidas. Crianças na escola, que acessam Universidades pelos diversos programas de apoio e incentivos (como o FIES) ou mesmo cursos profissionalizantes (PRONATEC), vêm mudando o rumo das futuras gerações brasileiras. Uma criança, filha de empregada doméstica era, “naturalmente”, uma futura empregada doméstica. Hoje o cenário começa a mudar. Esses filhos e filhas de tantas mulheres que deixam seus lares pra cuidar dos lares de outros escolhem caminhos diferentes. O trabalho doméstico continua sendo um trabalho digno; mas houve uma mudança nas classes sociais e no acesso a bens e serviços. Mais pessoas podem ter mais, o que também significa desejar outras coisas, escolher outras vidas; contar outras histórias.

Desestabilizando as estruturas sociais, é comum ouvir o discurso de que hoje está difícil achar uma “boa” faxineira, empregada ou babá. Aquelas que sabem “o seu lugar”, que “não são abusadas”. Parece ser um caminho sem volta – e esperamos que seja! – então, o que fazer? Talvez o exercício simples de viver por si só possa ajudar os desesperados. Mas nos perguntamos: e se ao invés de lutar pelo direito inexorável de termos uma babá, a luta for pelo direito a crêches públicas de qualidade para deixar as crianças? E se ao invés de berrar por empregadas, sair às ruas para demandar redução da jornada de trabalho (sem redução nos vencimentos, é claro), para que seja possível ter mais tempo para a família e para a casa?

Talvez um dia possamos compreender que classismo não combina com democracia e que se queremos uma sociedade mais justa e democrática, talvez tenhamos que começar democratizando nossas próprias casas.

Tamara Amoroso Gonçalves é advogada graduada pela PUC/SP e mestra em Direitos Humanos pela USP. Membro do CLADEM/Brasil, do Grupo de Estudos sobre aborto (GEA). É também integrante do Conselho Consultivo da Doctors for Choice Brazil e pesquisadora associada do Instituto Simone de Beauvoir, Concordia University, Canadá.
 
Daniela Rosendo é professora, mestra e doutoranda em Filosofia pela UFSC. É integrante do Comitê Latino Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos das Mulheres (CLADEM Brasil).

Quarta-feira, 6 de maio de 2015
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