Crônica da revista vexatória
Quarta-feira, 6 de maio de 2015

Crônica da revista vexatória

Por Haroldo Caetano da Silva

//Colunista Just

 

A rotina era aquela conhecida de sempre no dia de visitas. Centenas de mulheres, com suas sacolas plásticas e crianças de todas as idades, em filas onde não se sabia onde era o começo nem o fim. Vendedores ambulantes anunciando de tudo, desde água mineral, guarda-chuvas, até mesmo barracas de aluguel. Choro, conversa em voz alta, reclamações sobre o calor, sobre a chuva ou a demora na fila. Empurra-empurra e algumas brigas produziam uma algaravia ensurdecedora.

As funcionárias da prisão em seus postos, prontas para a revista, acostumaram-se com o trabalho e alardeavam a própria eficiência, pois há anos não se flagrava nada de mais sério com as visitantes. Da última vez digna de nota, ocorrida em 2007, uma senhora de 78 anos foi apanhada tentando entrar com “uma porção de maconha junto com um celular nas partes íntimas”, conforme constou o relatório. À época, o neto daquela senhora, dependente químico, passava os dias consumindo toda sorte de drogas na prisão, “mas drogas que não chegavam pelas visitas”, sempre se defendiam as competentes fiscais de visitas.

Naquele domingo, entretanto, a rotina se alterou. Um fato inusitado e sem precedentes acabava de acontecer. E foi um bafafá comentado por meses a fio. O relato a seguir é de uma das fiscais de visitas que, constrangida e indignada, assistiu tudo o que ocorreu, mas prefere não se identificar para evitar aborrecimentos no trabalho.

– Dona Bertolina! Veio ver o maridão, hein!?

– Pois é, minha filha. Hoje é o aniversário do Jeneilson. Responde a visitante, expondo um sorriso forçado.

– Então tá. Pode começar. Diz a fiscal da Penitenciária da Esbórnia, encerrando ali as amenidades.

E Dona Bertolina, 50 anos de idade, embora aparentasse bem mais, despe-se com a rapidez desde sempre exigida, começando pelo vestido longo e azul, depois o sutiã, os brincos e os sapatos. Estava mesmo vestida para celebrar a importante data. Bonita e elegante. Naquele domingo, entretanto, hesita em tirar a calcinha.

– Dona Bertolina, a senhora conhece o procedimento. Alertou a fiscal de visitas. – Tem que tirar tudo.

– Mas minha filha, por favor, venho aqui há oito anos e nunca dei problema pra ninguém… Pondera a mulher, visivelmente consternada.

– Nem mais nem menos! Tira logo a calcinha e arreganha que eu quero ver no espelho e bem de perto. Ordenou a agora impaciente funcionária, já cansada das dezenas de revistas feitas naquele domingo, ao mesmo tempo em que apontava para Dona Bertolina a turba barulhenta de mulheres à porta da penitenciária, na interminável fila de espera.

E Dona Bertolina, com toda a vergonha do mundo estampada no rubor de sua face, tira muito a contragosto a roupa íntima, expondo a vagina recém depilada.

A jovem funcionária, com idade para ser filha da visitante, dá então o seu grito de vitória:

– Arrá! Então era isso o que a senhora queria esconder!? Logo a senhora, Dona Bertolina, na sua idade! Aparando a perseguida pro sacana do seu marido!? Mas é sem-vergonha mesmo, hein!

A Esbórnia, esse belo, rico e admirado país, embora seja uma das maiores potências econômicas do planeta, tem cadeias que fazem lembrar os campos de concentração e com lotação muito acima da capacidade. Lá também existe o costume, que vem de tempos imemoriais, em que a revista de mulheres que visitam seus companheiros, parentes ou amigos presos, é feita mediante a nudez das visitantes, em grupos, sem qualquer privacidade. Nem precisam de lei para isso. A justificativa é a de que sempre foi assim e assim deve ser. Diferentemente do que acontece nos seus aeroportos, por onde só circulam pessoas de bem, e que, por isso mesmo, dispõem de modernos equipamentos de revista dos passageiros, que não precisam ficar nus antes de entrar nos aviões, as prisões da Esbórnia não carecem de tamanho luxo.

Meninas, adolescentes, mulheres adultas ou idosas, grávidas ou no período menstrual, às vezes doentes, obesas ou com dificuldade de locomoção, todas, sem exceção, passam pelo procedimento de praxe. A explicação vem sempre com uma curiosa pergunta: Quem mandou ser mãe de bandido? Quem mandou casar com bandido? Quem mandou ser filha de bandido? E está mais do que explicado.

Mas, voltando à Dona Bertolina, que era revistada juntamente com outras quatro mulheres, também visitantes, passou a partir daquele momento a ser o centro das atenções, apanhada que fora na tentativa de esconder a novidade que trazia entre as pernas. Todas agora queriam conhecer, para usar aqui a expressão nada sutil da fiscal de visitas, a perseguida depilada de Dona Bertolina.

Os comentários foram pouco delicados, para não dizer gritos sarcásticos e de extrema zombaria.

– Vai trepar gostoso hoje, Dona Bertolina! Quanta safadeza, hein!

– O Jeneilson vai ficar mesmo feliz no aniversário dele!

– Mas mulher de preso é tudo vagabunda mesmo!

Dona Bertolina ouviu de tudo, e um pouco mais. Evito transcrever aqui algumas das expressões e frases de escárnio, constantes do fiel relato da fiscal de visitas, para não expor desnecessariamente a Esbórnia pela pouca educação de algumas de suas habitantes.

Até uma adolescente de não mais do que 13 anos de idade, filha de outro preso e que também era revistada naquela confusão, entrou na onda. Afinal, para esquecer a própria desgraça nada melhor do que a desgraça alheia. E cobrava, em tom de deboche, explicações de Dona Bertolina:

– Mas pra que raspar a perereca, vovó?

Dona Bertolina, que até tentou argumentar balbuciando alguma coisa num primeiro momento, já não cabia em si mesma tamanha a vergonha que sentia. Naquela altura da vida, mãe e avó, de religião evangélica, um doce de pessoa, o que dava para sentir pela simpatia que exalava de seus gestos e palavras, trabalhadora, sustentava a família e o marido preso graças ao seu ofício de diarista. Mas ali, naquela desgraçada hora, sentia-se reduzida a nada e a única coisa que queria mesmo era sumir. Chegou a pedir em voz alta pela própria morte e para que, pelo amor de Deus, aquele martírio acabasse de uma vez por todas.

E acabou. Não sem antes exibir-se, agora não apenas para uma, mas para cinco fiscais de visitas e para as outras mulheres ali presentes, além da adolescente atrevida. Como já estava completamente nua, mostrou-se por inteiro, seguindo as ordens da funcionária, que à essa altura já havia se arrependido de provocar tamanha barafunda, mas que não tinha como voltar atrás.

– De frente! Agora, vira de costas! Levanta os braços! Agacha! Agacha de novo! Mais uma vez! Repete, agora em cima do espelho! Levanta os peitos! Comece a saltar! De novo! Senta no banquinho detector de metais! Isso! Pronto! Levanta! Pode pegar sua roupa e vestir-se.

E uma das presentes não perdeu a chance de ainda azucrinar pela última vez aquela senhora, ali convertida em verdadeiro farrapo humano:

– Goze bem o seu domingo!

De tão transtornada, meio tonta até, Dona Bertolina não compreendeu a fala em tom de escárnio e até agradeceu com um sorriso amarelo.

Assim, pela enésima vez em seus anos de visitação à Penitenciária da Esbórnia, Dona Bertolina juntou suas roupas e os cacos do que sobrava de sua dignidade de pessoa e de mulher. Buscando, então, alguma razão que justificasse aquilo que ela, praticante em sua religião cristã, chamava de provação divina; e ao mesmo tempo escondendo numa falsa altivez de postura a humilhação a que havia se submetido, entra para visitar seu marido, que ela carinhosamente tratava por Jenê, e com ele tentar, apesar de tudo, desfrutar daquele dia e, quem sabe, viver alguns instantes de felicidade.

Haroldo Caetano da Silva é Promotor de Justiça e Mestre em Ciências Penais

Quarta-feira, 6 de maio de 2015
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