Abolição legal e abolição moral
Quinta-feira, 28 de maio de 2015

Abolição legal e abolição moral

Por Sônia T. Felipe

// Colunistas Just

 

Muitas pessoas já me perguntaram se acredito que todos os humanos um dia se tornarão veganos. Uma pergunta difícil esta. Abolimos a escravidão e muitos humanos continuam racistas. Mas é certo que praticar racismo, escravizando outros seres humanos por conta de sua origem ou etnia não é mais aceito moralmente. Conquistamos direitos para igualar homens e mulheres, abolindo da constituição as formas de discriminação que vilipendiam as mulheres. Nem todas as pessoas deixaram de ser machistas por conta da abolição da propriedade dos homens sobre os corpos das mulheres e de suas crianças.

Não abolimos ainda o costume humano de criar animais em massa para abate e consumo humano. Continuamos especistas. Comemos carnes, laticínios e ovos com toda a liberdade, sem jamais nos questionarmos sobre nosso não direito de fazer isso aos animais. Divertimo-nos à custa da dor, do sofrimento, da mutilação e morte de animais. Usamos produtos para nos limpar e embelezar que custaram os olhos, a pele e o estômago dos animais usados para os testes – depois mortos.

É por conta de nossa crença de que fabricar e abater animais para consumo humano é um direito humano – aliás, nunca visto na Declaração Universal dos Direitos Humanos, da qual todos os países da ONU são signatários – que hoje são criados e mortos, todos os anos, 70 bilhões de animais para consumo humano. Tomamos remédios que resultaram da morte de bilhões de animais por décadas de testes de toxicidade e mutagenicidade feito neles, que não são culpados pela dieta ovo-galacto-carnista que produz a maior parte das mazelas e doenças em nosso organismo.

Somente nos Estados Unidos, neste ano, foram abatidos e descartados quase 33 milhões de aves (gansos, patos, frangos, perus etc.) por estarem contaminadas com o vírus Influenza.

Nas notícias médicas, vemos que a contaminação pelo vírus H5N1 e seus mutantes (H7, por exemplo) pode causar pneumonia, colapso pulmonar, insuficiência respiratória, insuficiência renal crônica e problemas do coração em humanos. Por enquanto, na fase 3 da classificação epidemiológica (ao todo são 6), as pessoas infectadas tiveram contato com alguma partícula das aves doentes, incluindo penas, pele, carnes, fezes, urina, poeira ou o ar dos galpões onde as aves são mantidas aprisionadas perpetuamente, ou onde são transportadas, abatidas e recortadas para venda. Não há, ainda, registro de transmissão do vírus de humano para outros humanos.

Dentre as pessoas humanas infectadas, o índice de morte é de 33%, considerado alto pelos padrões da OMS. Mas ao darem a terrível notícia, da qual até dezembro de 2014 os Estados Unidos pareciam ter sido poupados, a gripe aviária atacava 36 países asiáticos e africanos e, além disso, 100% dos animais contaminados morriam (e morrem). Morrem em menos de 24 horas os contaminados pela variação mais letal do vírus e, morrem em seguida, abatidos para descarte, todos os que tiveram contato com os doentes fatais.

O que mais mantinha a ilusão brasileira de que o vírus não chegaria ao Brasil, era justamente o fato de que as aves da África e da Ásia não migram para a América do Sul.

Entretanto, as aves do Continente Americano migram pelos céus do Norte ao Sul e vice-versa. Em seis meses foram quase 33 milhões de aves abatidas por estarem contaminadas, só nos Estados Unidos. Quantas não voaram para cá?

Ninguém escreve se perguntando a razão pela qual o sistema imunológico das aves está tão baixo. O confinamento completo dessas vidas tem um preço. Não é o que se paga por consumir as carnes desses animais. O preço pago por terem sido forçados à vida de modo absolutamente insalubre é a queda das defesas imunológicas. Todos os animais contaminados com esse vírus têm morte certa. Sua vida estava de qualquer modo por um fio que dura de um a dois meses apenas. Todos morreriam. Como não ser responsável por todas essas mortes?

Apenas a dieta abolicionista vegana nos dá isenção moral. Nós não forçamos mais nenhum animal a nascer. Não financiamos o aparato que os mantêm prisioneiros perpétuos. Não compactuamos com a pena de morte à qual estão condenados antes mesmo de nascer. Não os comemos. Não usamos cobertas de penas nem travesseiros de plumas. Não colocamos caldo de galinha em nossas sopas. Não comemos nada que contenha ovos na receita. Não servimos peru no Natal à nossa família. Não consumimos patê de foie gras. Não assinamos o atestado de óbito desses primeiros 33 milhões de seres avinos, eliminados da vida por serem hospedeiros do vírus Influenza.

Dr. phil. Sônia T. Felipe é filósofa, escritora, ativista pelos direitos animais, autora dos livros: Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas; Galactolatria: mau deleite; Acertos abolicionistas: a vez dos animais.

Quinta-feira, 28 de maio de 2015
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