Intolerância e o discurso pseudo-intelectualizado das redes sociais
Quarta-feira, 3 de junho de 2015

Intolerância e o discurso pseudo-intelectualizado das redes sociais

Por Daniela Rosendo e Tamara Amoroso Gonçalves

// Na Coluna Inclusive

 

Em cada período eleitoral, nossa sociedade é tomada por incansáveis discussões: não sobre os projetos que poderão aportar melhores condições de vida aos brasileiros, mas sobre as qualidades éticas, ou nem tanto, dos candidatos. Questionamentos sobre a vida privada – têm filhos? Casado ou solteiro? Tem religião? Acredita em Deus e vai defender os valores da família? – parecem ser mais importantes do que compreender quais os rumos das políticas econômicas e sociais que governarão o país nos próximos anos. Passado o período das eleições, esse tipo de avaliação sobre os eleitos continuam.

No mundo virtual, ambiente em que informações são compartilhadas em um piscar de olhos – pouco importa checar a fonte – percebe-se um crescente acirramento das mágoas e ódios inconsequentemente destilados. Discutir propostas para quê? Melhor é desqualificar os políticos, ancorando nossas falas em possíveis falhas de caráter e, no caso da presidenta, governadora, prefeita, vereadora, deputada e senadora, de sua aparência física – para adicionar um toque a mais de machismo. Grupos de whatsapp têm se mostrado um terreno mais do que fértil para o rápido partilhamento de memes que apresentam supostas piadas, em geral tratando da aparência física das candidatas e eleitas. Quando a forma do corpo ou a cor do cabelo passam a indicar sinal de competência política ou administrativa, evidenciam-se os preconceitos mais arraigados em nossa sociedade. A ideia de que a mulher deve se manter relegada ao espaço privado, deixando os homens fazerem política, é uma delas. Na hora, então, de avaliar as mulheres na política, a misoginia dá show.

Em meio a tanto preconceito, seus respectivos eleitores são abarcados nesse mesmo discurso, pouco importando os argumentos que sustentam o voto (eles existem? Quais seriam?). Nessa lógica, isso não interessa, pois é certo que se você defende o candidato X ou Y, só pode ser um completo idiota que não enxerga um palmo à sua frente. Nessa linha, surge um discurso pseudo-intelectualizado, segundo o qual quem leu mais, quem é mais inteligente, só pode ser a favor desse ou daquele candidato, sendo a recíproca verdadeira – quem não “pensa” vota por interesse (como se houvesse algum voto “neutro”).

Ainda escorregando em nossa recente democracia, pairam delírios sobre a ameaça comunista enquanto navegamos em um lamaçal de denúncias de corrupção – convenientemente divulgadas pela grande mídia. Mesmo nas redes sociais, onde supostamente parecemos estar mais desvencilhados da influência das mídias tradicionais, os conteúdos mais reproduzidos ainda são delas. Aliado a isso, vemos ataques de toda sorte nas redes sociais, disparados enfurecidamente. São berros de indignação, “contra tudo o que está aí”.

“O que está aí”, no caso, é uma complexa realidade social, com relativa melhoria das condições materiais de vida para uma enorme parte da população que deixou a condição de pobreza extrema aliada a perda de certos “privilégios” de algumas classes sociais que reclamam da dificuldade de encontrar empregadas domésticas ou trabalhadores para as fazendas, e dos limites para trazer produtos do exterior. Segundo um discurso comum nas redes, a culpa disso tudo só pode ser atribuída aos programas sociais e a saída é se mudar para Miami!

Muitos posicionamentos nas redes vêm sendo criticados, tanto pela “direita” como pela “esquerda” e não raro as críticas são vistas como antidemocráticas e tendentes à censura. Não nos parece ser o caso. Quem se arrisca a difundir suas ideias em espaço público (como as redes sociais e a internet) está sujeito a críticas. Apontar incoerências nos discursos ou mesmo preconceitos não significa limitar o direito do outro de se expressar. Pelo contrário, estimula o debate ao forçar o outro a prover de mais (e quem sabe) mais qualificados argumentos. Porque nos parece que já passou da hora de questionarmos corte de cabelo e modelo de roupa e entrarmos no debate daquilo que realmente nos interessa: quais direitos queremos ver assegurados? Como serão garantidos? Qual política econômica entendemos ser mais eficiente?

Nesse sentido, temos de nos despir de nossos preconceitos e ouvir o outro. E discutir conceitos e dados. Precisamos sair do achismo de boteco se quisermos fazer críticas ao sistema político, aos políticos e aos partidos. Temos de ir bem além do inconformismo “contra tudo o que está aí” e partirmos para debates concretos sobre direitos e políticas econômicas e sociais.

Tamara Amoroso Gonçalves é advogada graduada pela PUC/SP e mestra em Direitos Humanos pela USP. Membro do CLADEM/Brasil, do Grupo de Estudos sobre aborto (GEA). É também integrante do Conselho Consultivo da Doctors for Choice Brazil e pesquisadora associada do Instituto Simone de Beauvoir, Concordia University, Canadá.
Daniela Rosendo é professora, mestra e doutoranda em Filosofia pela UFSC. É integrante do Comitê Latino Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos das Mulheres (CLADEM Brasil).

Quarta-feira, 3 de junho de 2015
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