Estupro: por que as vítimas se escondem e os criminosos se vangloriam?
Terça-feira, 30 de junho de 2015

Estupro: por que as vítimas se escondem e os criminosos se vangloriam?

Por Bárbara Aragão Couto

// Olhares Humanos

 

Falar sobre a cultura do estupro é sempre delicado e o tema nem sempre encontra uma recepção adequada dos leitores. Entretanto, diante dos acontecimentos recentes ocorridos nos Jogos Universitários de Comunicação Social (JUCS)*, entendi adequado e necessário retomar o assunto.

Note-se que o tema aparece de tempos em tempos nos noticiários, principalmente relacionado aos ambientes universitários. Não falo de um estupro em si, um caso isolado cuja vítima andava num ônibus ou por uma rua escura e foi pega de surpresa pelo criminoso desconhecido. Trato aqui de casos reiterados, em ambientes sociais nos quais o estupro é socialmente estimulado e visto como forma de sobreposição de poder masculino sobre as mulheres ou sobre os homens de ambientes rivais.

Percebo que é comum questionarem a existência desses ambientes, preferindo-se considerar que o estuprador é um indivíduo doente, desajustado, que precisa de tratamento e isolamento social, pois não guarda correspondência lógica na sociedade. Errado. Em numerosos casos, o criminoso encontra estímulo e até respaldo social para chegar à posição de agente no crime de estupro.

Para melhor visualização:

1) Recentemente, nos jogos universitários que mencionei, uma das torcidas de uma faculdade particular se intitulou a “turma do estupro”, afirmando, com orgulho, (provavelmente para afirmar a masculinidade dos meninos do grupo), que na torcida “só tinha estuprador”; questionados sobre o crime, a resposta foi imediata e irônica: “me prenda!”; [1]

2) Em São Paulo, fui informada de que não é raro o uso do canto “estupra, mas não mata” nos jogos universitários;

3) No fim do ano passado, vieram à tona reiteradas denúncias de estupros ligados a uma universidade de São Paulo. De acordo com as vítimas, os crimes se davam em festas promovidas pelos alunos, principalmente com o artifício da embriaguez excessiva ou uso forçado de psicotrópicos; ainda, afirmaram que os agentes dos crimes reiteravam a opressão de outras formas no ambiente universitário, com ridicularizações e até difamações em casos de denúncia;[2]

4) Também em 2014, o resultado de uma pesquisa do IPEA constatou que 58% da população considera que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros” e que 26% concordam que “mulheres que mostram o corpo merecem ser atacadas”;[3]

5) Na mesma pesquisa, constatou-se que 70% dos estupros são cometidos por pessoas conhecidas e próximas, como parentes ou companheiros, provando-se que a situação do homem desconhecido na rua escura é exceção, e que o estupro se dá dentro dos ambientes sociais das vítimas;

6) Ainda, constatou-se que somente 10% dos estupros são objeto de ocorrência, permanecendo 90% das vítimas em silêncio (esse dado é chocante e nos faz questionar se não é necessária uma política pública para estimular a delação pelas vítimas);

7) Em fevereiro desse ano, o Brasil foi considerado o segundo pior país para mulheres sozinhas viajarem, de acordo com um Jornal Britânico. A reportagem traz explicitamente os riscos de ser submetida ao estupro, como ocorreu com a norte-americana em 2013, que foi estuprada oito vezes dentro de uma van na cidade do Rio de Janeiro;[4][5]

8) No mesmo mês, saiu a polêmica propaganda de uma grande produtora de cervejas, com os dizeres “Esqueci o NÃO em casa”, estimulando implicitamente a violência sexual contra a mulher; [6]

9) Por fim, esse ano o ator brasileiro Alexandre Frota relatou, em uma entrevista, como teria feito sexo à força com uma mãe de santo, sendo aplaudido e arrancando risadas do público ao final da história. Depois, o ator afirmou que se tratava apenas de uma piada. [7]

Penso que esses casos são suficientes para constatar que há algo de muito errado no comportamento da sociedade com o estupro: por que as vítimas se escondem e por que os criminosos se vangloriam? Por que alguém acha válido se auto-intitular estuprador? Por que tem pessoas rindo disso?

Penso que a resposta é só uma: falta de consciência. Sabe-se que após o crime a vítima é colocada em situações humilhantes e de culpabilização, como ser perguntada pelo tipo de roupa que usava, sobre sua vida pregressa, ou mesmo sobre estar arrependida de ter feito sexo. Ainda, infelizmente ser vítima de estupro é ter sua “honra” manchada, imagem que muitas mulheres não querem atrair para si numa sociedade machista e patriarcal.

Outro fator importante é o próprio conceito de estupro, que é mal avaliado, principalmente por homens que acham normal fazer sexo com pessoas inconscientes ou sem condições de exprimir sua vontade (é estupro!) ou mesmo fazer força física em caso de negativa considerada “tardia” (é estupro também!).

Percebe-se, assim, que a consciência social nessa seara é ainda muito incipiente, o que torna clara a necessidade de políticas públicas que toquem no assunto, estimulando a denúncia e os cuidados com as vítimas. Em verdade, urge fazer algo bem simples, mas ainda não aplicado: tratar a vítima como vítima e o culpado como culpado. Já será um bom começo.

Bárbara Aragão Couto é Procuradora do Estado de São Paulo
* O post foi editado para alteração da nomenclatura dos Jogos.

[1] http://extra.globo.com/noticias/rio/estudantes-criam-turma-do-estupro-em-jogos-universitarios-debocham-em-rede-social-16390101.html
[2] http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,alunas-denunciam-estupros-em-festas-da-medicina-da-usp,1591263
[3] http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/SIPS/140327_sips_violencia_mulheres_novo.pdf
[4] http://www.dailymail.co.uk/travel/travel_news/article-2960567/Most-dangerous-holiday-destinations-women.html
[5] http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/turista-americana-foi-estuprada-oito-vezes-na-van-do-terror/
[6] http://www.cartacapital.com.br/blogs/intervozes/no-carnaval-a-midia-promove-violencia-contra-as-mulheres-7089.html
[7] http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/03/1596959-alexandre-frota-e-acusado-de-apologia-ao-estupro-em-show-de-rafinha-bastos.shtml
Terça-feira, 30 de junho de 2015
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