Depois de um ano, continuamos sem parar a tomar gol da Alemanha
Quinta-feira, 9 de julho de 2015

Depois de um ano, continuamos sem parar a tomar gol da Alemanha

Sete a um. Parece que foi um ontem que não existiu exatamente, mas poderia ter sido alegórico, poderia ter sido um filme, uma série, sei lá, qualquer coisa que não nos pusesse, naquilo que mais prezávamos, nosso futebol, tão olhos nos olhos com o Velho Novo Brasil.

Havia alguma coisa errada, fazia meses. A torcida estava branca demais, certinha demais, com grifes demais, ingressos caríssimos, o pau quebrando no país afora, gente centrada e gente maluca gritando que não ia ter Copa, o ódio conhecendo um momento de catarse, um inimigo geral eleito, a impunidade, um crime-mãe identificado, a da corrupção, uma campanha eleitoral, como nunca se havia testemunhado, espalhava machados, punhais, estacas para dividir o país, para fraturar-nos a todos, para preparar o chão para o Ódio Senior, que viria como uma cachoeira, meses depois, militante.

Havia como que um evisceramento ético-moral e o melhor e o pior de nós saía dos armários coletivos e ia para as ruas. Ninguém pintava as calçadas, não havia faixas, não havia promoções nas lojas, não havia felicidade. Se não havia felicidade, não poderia dar certo. Estava na cara. O velho cartola dava cartas, o treinador despótico dava cartas, algumas caras na seleção eram misteriosamente olhadas, ninguém conhecia quase ninguém daquele elenco que representaria uma nação, não um país, mas uma nação, algo maior que o país, na medida em há nações sem países, cujos integrantes, protagonistas, não eram conhecidos por aqueles que representariam, mas que paradoxalmente traçavam um quadro real: uma nação sem vínculos, representada por um time sem vínculos, sem criatividade, sem carisma, todos comportados, todos com respeito demais ao profexor, um homem carrancudo e que não deve entender muito mais de futebol que a média dos taxistas, por exemplo.

O preço da festa tornou-se mais importante que a festa e todos, sem exceção, reclamavam a reclamação bocó, de sempre, do dinheiro que foi para estádios e que deveria ter ido para educação, como se, de verdade-verdadeira, isso representasse alguma frente de luta pela emancipação do ensino público, muito mais tomado como um pretexto rabugento para xingar a construção de estádios e de obras viárias que esburacaram e ainda esburacam nossas cidades. Havia um mau-humor dissipado no ar. Descobrimos tarde demais que Copa do Mundo era um assunto mal resolvido entre nós. O medo de que o Governo se apoderasse do resultado fez com que tudo o que se referisse à alegria maior de um festival mundial de futebol fosse quase uma ilicitude.

A festa de abertura foi de atroz mediocridade, mau presságio. Com tanto samba, tanta Mangueira, tanta Portela, com tanto frevo, com tanto Filhos de Gandhi, o que se viu foi um pastiche, sem identidade alguma, sem Brasil algum naquela abertura.

O scretch (expressão dos anos 70) parecia aterrorizado, algo horrível estaria para acontecer, uma nuvem sombria pairava sobre aquele patriotismo infantilizado. A plateia brasileira estava branca demais, sem povo, povão, torcedor, aquele que grita do fundo da alma e empurra seu time, embaixo de sol, chuva, granizo, aquele que volta a pé, de trem, busão, cantando, catártico, feliz sobrehumanamente feliz pela vitória de seu time. Aquele que sabe que não precisa esperar consertar-se o mundo, o país se acertar para que possa estar feliz e que a felicidade não depende apenas de governantes, cartolas e burocratas. Timidamente, éramos apenas brasileiros ricos com muito orgulho, com muito amor.

O time não ajudava, não empolgava, não nos fazia pressentir o momento mágico, a jogada espacial, a anti-gravidade, o encantamento, enfim. Tudo burocrático, um escritório, formado por rapazes dedicados, mas sem lampejos, salvo um, perdido no oceano da mediocridade.

Uma mediocridade que o país compartilhava em sua incapacidade de unir, de celebrar, de fazer ao mundo o alvorecer de uma nação livre, em que a igualdade e a justiça fossem valores supremos, de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias. Não, éramos bestiais fora e alienados dentro do campo.

No dia, no fatídico dia, nós nos desmoronamos diante de nossa incapacidade de ver e de sentir, de imaginar, como fazíamos, que o futebol é uma arte, uma felicidade, uma alegria. Sistemas táticos, profexores, regulamentos, regramentos, restrições, ódios nas ruas, polícia pra tudo, crime pra tudo, guerra contra todos, comunidades invadidas, em estado de sítio, porradaria grupal, volantes de contenção, áreas vips, raivas religiosas inéditas, tudo foi para dentro das quatro linhas e o resultado foi esse Brasil burocrático: sete a um.

Se o jogo acabou lá dentro, prossegue aqui fora. Tomamos vários gols, o último deles, de mão, em impedimento: reduziram a idade de imputabilidade penal; ao invés de correr atrás bola, a garotada terá que correr da polícia, nosso volante de contenção do abismo social que nos separa.

Um ano depois, o time piorou. O país odeia mais ainda que odiava antes. O profexor se mandou. O cartola, em cana. O sub-cartola, um bicho a ser caçado por Bravos Rapazes Americanos Silenciosos Inclementes Ligeiros. A guerra contra a impunidade pagã segue seu plano tático e ataca e defende em bloco. No meio campo, em grande fase, jogando tudo, Eduardo Cunha, um craque do Ódio.

O Ódio F.C. tem, reconheçamos, um timaço.

Roberto Tardelli é Procurador de Justiça aposentado (1984/2014), onde atuou em casos como de Suzane Von Richthofen. Atualmente é advogado da banca Tardelli, Giacon e Conway Advogados, Conselheiro Editorial do Portal Justificando.com e Presidente de Honra do Movimento de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente

Quinta-feira, 9 de julho de 2015
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