O curioso caso do homem corrompido
Segunda-feira, 13 de julho de 2015

O curioso caso do homem corrompido

Existem duas maneiras de se corromper o homem: a primeira é torná-lo miserável, a segunda é oferecendo-lhe poder.

O homem miserável será afastado, pela própria sociedade, quando a renda obtida com seu trabalho não for suficiente para lhe afastar da sedução da renda alta que o mundo criminoso pode(rá) lhe oferecer (tão alta a ponto de valer o sacrifício de arriscar a sua liberdade e a própria vida).

Sedução que será ainda mais facilitada quando esse mesmo homem estabelecer uma relação de dependência com substâncias entorpecentes (lícitas ou ilícitas), produtos que lhe proporcionarão prazer e excitação nesse mundo, pelo menos por alguns instantes do dia, afundando-o, cada vez mais, no poço, aparentemente, sem fim.

O homem poderoso, por sua vez, se afastará da sociedade por seu próprio interesse a partir do momento que perceber que o seu dinheiro vale mais do que as pessoas, a tal ponto que poderia comercializar suas vidas por mais capital. O homem poderoso se utilizará de “manobras” para não só convencer, como impor os seus ideais sobre os demais para que o apoiem e o sigam (ou o odeiem). Esse homem poderoso terá o nosso aval parcial, porque, ainda que prejudique a democracia de alguma forma, ele “protege o cidadão de bem”, colocando todo vagabundo na cadeia, deixando que alguns morram por lá mesmo, e, afinal, bandido bom é bandido morto, não é mesmo?

O homem corrompido sentirá necessidades e buscará saciá-las da forma como melhor lhe convir.  

O homem miserável, por exemplo, poderá encontrar prazer na cocaína, assim como o homem poderoso. O primeiro, contudo, arriscará sua liberdade por utilizar uma substância considerada criminosa (sem contar que, muitas vezes, terá que ofender bens jurídicos para conseguir tal substância), o segundo arriscará tão somente sua própria saúde. O primeiro será condenado pela lei dos homens (sem trânsito em julgado mesmo), o segundo, se for preso, terá um excelente advogado para garantir seu direito à defesa (em liberdade) e tanto dinheiro que subornar uma autoridade para garantir seu direito à presunção de inocência não será a ele um grande problema.

O homem miserável perderá o timbre da sua voz e não conseguirá gritar para a sociedade que a justiça é cega e a injustiça enxerga bem. A sua aparência, neste mundo de aparências, será ligada a de vadio (“que quer apenas o peixe, e não aprender a pescar”), o que fará com que, naturalmente, não mereça atenção. Talvez descarregue seu ódio pelo sistema pichando alguma parede, mas terá seus braços amputados, se for julgado pela lei dos homens, porque a vida do miserável vale tão pouco, logo, sua opinião “subversiva” não vale mais que um patrimônio privado. O homem miserável será despachado, então, ao banimento social, porque não “se dedicou o suficiente” para ter uma vida digna, e o presídio deverá ser seu habitat por merecimento. Esse homem miserável voltará ao presídio algumas vezes durante sua vida e, embora o mundo lá fora (aparentemente) espere que o sistema carcerário vomite alguém ressocializado, o desejo punitivo mascarado é de que ele seja tratado que nem bicho. Talvez como uma barata voadora, que, em razão de sua aparência perturbadora e nojenta, ser-lhe-ão devidas algumas chineladas para ser afastada; o desejo punitivo não percebe, contudo, que a pobre baratinha, no interior de sua ignorância, sabe que essas chineladas da vida, por mais doloridas que possam parecer, não são temidas, porque sua vida vale tão pouco que não há quase nada a perder.

– “E, cá pra nós, se um de nós morrermos, pra vocês é uma beleza”, diria Criolo.

O homem poderoso, por outro lado, não é ignorante. Sabe como conquistar o que lhe interessa e não hesitará em burlar as leis para isso.
O homem poderoso não precisará riscar paredes; ele terá a mídia em seu favor, que trabalhará na mente de cada família, que se encantará pelo tal poder e se indignará com a maldade lá fora. O homem poderoso ensinará que o inferno são os outros, e que, para a bondade reinar, a maldade precisa ser feita por nós, inteligentes, porque os ignorantes querem igualdade, e nós queremos poder – mas poder não é direito, é privilégio.

O homem poderoso seguirá seu rumo sempre em busca do topo, querendo cada vez mais poder, inclusive almejando estar acima da norma fundamental (por que não?).

O homem miserável seguirá seu rumo da mesma forma, estagnado na queda do poço que aparenta não ter fim. Mas, a ignorância (que talvez seja sua melhor arma) não o permite esquecer que a merda no fim do poço, embora assuste, pode ser o lugar ideal para tomar impulso e subir. E, já que a vida vale tão pouco, realmente não há nada a perder.

Gasparino Corrêa é graduando do quinto semestre do curso de direito da Faculdade de Direito de Santa Maria – FADISMA.
Segunda-feira, 13 de julho de 2015
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