O menino sem fronteiras
Segunda-feira, 20 de julho de 2015

O menino sem fronteiras

Cruzamos no elevador do prédio. Ele estava com sua mãe e vestia orgulhoso a camisa do time de seu ídolo no futebol. Pelo jeito, ele a usava em diversas ocasiões, uma dessas peças inseparáveis do corpo, que o faz lembrar do cara que, nos sonhos, dá um elástico, uma meia lua e passa a bola pra ele, prá estufar as redes. Ou, recebendo na meia-direita, depois de um toque desconcertante de calcanhar, que tira a defesa adversária do prumo, aproveita e de sem-pulo, manda um pombo sem asas, indefensável para o goleiro, para sair, abraçado ao ídolo, abraçar a torcida que canta seu nome. Timaço o seu, o Real Madri. Craque supremo seu ídolo, o colombiano James Rodriguez. Menino ainda, as distâncias dos oceanos todos são superadas por toque de computador e, pronto!, estão frente a frente, cara a cara, destruindo defesas e beques. Ele disse ter tudo sobre James Rodriguez, a quem conhece intimamente sem jamais ter visto. É O Cara! Perguntei ao garoto para que time, aqui entre nós, brasileiros e no Brasil, ele torcia, ao que respondeu: qualquer um, são todos iguais. O Brasil não lhe diz mais respeito. Espetei Sua Senhoria, de oito anos de idade: Fora o Neymar, qual o melhor jogador do Brasil? Ele me olhou quase com espanto, Não sei, tio, só acompanho a Champions League e o Campeonato Espanhol. Ah, a Premier League, claro. Claro, ingenuidade a minha. No térreo, correu para a quadra, onde outros, vestidos de Arsenal, Barcelona, Juventus e Bayern o esperavam. Só craque!

 As distâncias diminuíram e fronteiras não fazem sentido algum a essa criançada, que gira o planeta dezenas de vezes ao dia. Ás aguas dos rios virtuais correm livres e não necessitam de visto, é só jogar um desses games maravilhosos com um menino da Sérvia e a garota da Jamaica, algo natural, que faz os três habitarem um Faz-De-Conta, onde defeitos e virtudes são coisas que não existem.

Nesse estranho país, não há idioma oficial, mas todos se entendem com perfeição, mesmo porque a língua em que se comunicam dispensa o uso de palavras e tudo, mas tudo, passa rápido demais, perigosamente rápido demais, tanto e tão que muitas coisas passam sem que se saiba que passaram. O menino tem cara de menino e vive em um planeta já diferente do meu, são outras as leis que o regem. No Código Penal dele, o que quer que seja que lhe venha a ser subtraído para si ou para outrem pode ser refeito em uma impressora 3D. Aliás, é cada dia menos provável que ele seja vítima de uma rapinagem de fazer memória, porque há tempos ele só brinca na quadra do prédio onde mora ou na escola onde estuda. A rua perdeu-lhe o sentido de liberdade e não passa de um emaranhado perigoso, que não vai a lugar algum. Na pré-história desse garoto, minha mãe se aterrorizava com meus afastamentos pela cidade. Hoje, esse temor não mais habita a alma aflita das mães, porque não há o que tire seus rebentos da frente do computador. Só a quadra.

Qual seria a possibilidade de eu menino ter como ídolo um jogador de futebol, nascido e criado na Colômbia e que encantasse as plateias da Europa? A mesma de eu sair voando ao encontro do Super-Homem. Os olhos vivos do menino-craque me deram a certeza de que nossos sistemas legais estão a um segundo de uma Idade da Pedra ideológica, porque são ainda encapsulados em tradições que remontavam uma distante era geológica em que os países existiam ferrenhamente autocentrados, coisa de vinte anos atrás, o suficiente para que tudo tenha mudado.

Há vinte anos, quem se dirigisse ao que chamamos de Estado-Juiz para garantir sua homoafetividade e de braços dados com ela pleiteasse a adoção de uma criança ou a inscrição de seu(ua) amado(a) em um plano de saúde como dependente, ganharia uma notoriedade às avessas e seu advogado seria motivo de chacota. (Ainda me lembro dos tremores sísmicos-morais, porque nos início dos anos 90, concordei com uma tutela de duas crianças a um transexual…). O menino parte para uma sociedade (a dele) em todos são iguais, em que a morte é apenas um incidente de um jogo real, tão real quanto imaginário. Ele ainda está longe do maior dos medos, o medo do desconhecido. Na avidez infinita de saber da infância, os medos são reais e vêm de adultos reais e espancadores que cercam seus pesadelos e rotinas diárias.

O menino cresceu no mundo sem fronteiras, em um mundo sem diferenças ou com diferenças que ele ainda não entende e, por não entender, pode superá-las. Pode até não perceber que superou, não importa.

E quem sabe, então, dar a esse mundo só dele o sentido de um Jardim, onde todos possam estar com todos. Craque de bola, quem dera, ele se torne também um craque na igualdade humana.

Força, garoto! Grande James Rodriguez!

Roberto Tardelli é Procurador de Justiça aposentado (1984/2014), onde atuou em casos como de Suzane Von Richthofen. Atualmente é advogado da banca Tardelli, Giacon e Conway Advogados, Conselheiro Editorial do Portal Justificando.com e Presidente de Honra do Movimento de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.
Segunda-feira, 20 de julho de 2015
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