Reino Unido obriga professores a vigiar alunos e delatar radicalização para combater terrorismo
Segunda-feira, 20 de julho de 2015

Reino Unido obriga professores a vigiar alunos e delatar radicalização para combater terrorismo

Via OperaMundi

 

Desde o primeiro dia do mês de julho, professores e demais profissionais da educação britânicos ganharam uma nova função dentre as tantas que já exercem dentro das instituições de ensino: agora, também é dever deles identificar alunos expostos à chamada “radicalização”.

A medida entrou em vigor dias após o atentado na Tunísia — em que morreram 30 britânicos — e uma semana antes do dia 7 de julho, data na qual, dez anos atrás, quatro homens-bomba agindo em nome da Al Qaeda causaram a morte de 52 pessoas no centro de Londres. O atentado no coração da capital foi um marco no endurecimento das chamadas “medidas antiterror” no Reino Unido. O premiê David Cameron, em cerimônia em homenagem às vítimas, afirmou que ameaça do terrorismo hoje continua "tão real e letal" quanto há uma década.

Instituições de ensino britânicas, desde a escola primária até universidades, foram afetadas pela lei que entrou em vigor no dia 1º

Um dos desdobramentos do atentado foi a criação em 2007 de uma norma para examinar se candidatos de fora da União Europeia podem ou não ingressar em cursos superiores ofertados pelas universidades britânicas nos quais são ensinadas técnicas que possam ser usadas para a criação de armas de destruição em massa. Neste ano, um estudo mostrou que mais de 700 estudantes tiveram sua candidatura negada com base no ato de 2007.

Agora, dez anos depois dos atentados de 2005, os líderes britânicos parecem ter decidido intensificar a 'guerra contra o terror' dentro do campo educacional. Desde a última semana, com a entrada em vigor da chamada “prevent duty”, parte da Counter-Terrorism and Security Act de 2015, escolas — desde a educação infantil ao ensino superior — são obrigadas a observar e relatar ao governo os casos em que haja suspeita de "radicalização" dos estudantes, além de reforçar o controle sobre o uso da internet em suas dependências. No texto da nova lei, entretanto, o governo britânico não detalha quais seriam esses "sinais de radicalização".

A norma cria ainda novos poderes para o Ministério do Interior, que poderá agir dentro das instituições de ensino sem a necessidade de pedir a anuência do corpo diretivo da instituição. “O extremismo não tem lugar dentro das nossas escolas”, foi a mensagem da secretária de Educação, Nicky Morgan, durante um pronunciamento no dia seguinte à entrada em vigor da nova norma.

A medida vem a reboque de uma ideia que vem ganhando cada vez mais força dentro do governo de David Cameron: de que o sistema de educação, em especial as universidades, tem servido de campo de recrutamento para extremistas. E a previsão é de que, antes do início do próximo ano letivo (em setembro), seja ainda aprovada uma norma complementar, obrigando as universidades a criar sistemas para a aprovação de todas as palestras que ocorram em seus campi.

Repercussão negativa

A nova investida do governo, porém, tem encontrado resistência entre as lideranças da área da educação. Em entrevista à BBC, a líder do sindicato nacional dos professores deixou clara a sua insatisfação. “Professores não podem ser transformados em espiões dentro da sala de aula”, argumentou. Mesma opinião tem o Sindicato das Universidades e Escolas Preparatórias, feroz crítico da medida.

Desde a votação da medida, em fevereiro deste ano, as manifestações de descontentamento por parte dos profissionais da educação tem sido fortes. À época, 500 educadores e cientistas destacados no país assinaram uma carta aberta em repúdio à medida, publicada pelo jornal The Guardian.

Porém se àquela época os descontentes receberam alguma simpatia por parte do então vice-premiê Nick Clegg agora, dentro do governo puro-sangue dos conservadores, o espaço para concessões foi abolido. Em fevereiro, foi Clegg e seu partido Liberal Democrata, então parte da aliança governista, que barraram a aprovação da parte do texto que impunha às universidades o dever de vetar determinados tipos de palestra consideradas radicais ou extremistas.

Com a maioria no Legislativo adquirida nas eleições de maio, o Ministério do Interior já confirmou a intenção de votar novamente a medida. “Essa repressão severa sobre os direitos dos acadêmicos e dos estudantes pretendida pelo governo não vai alcançar os fins que eles ambicionam”, defende a secretária-geral do Sindicato das Universidades e Escolas Preparatórias, Sally Hunt.

O grande receio é que, em nome da segurança, o Reino Unido sacrifique a liberdade de expressão. Afinal, como lembra Hunt, o ambiente acadêmico nem sempre é um lugar para consensos, porém é um espaço fundamental para o debate de pontos de vista discordantes e controversos.

Na mira dos terroristas?

O temor do uso das instituições de educação como centros de recrutamento por terroristas cresce embalado por histórias amplamente divulgadas na imprensa local. Jihadi John, o assassino que se tornou famoso por protagonizar cenas de decapitação de reféns enquanto proferia seus discursos de ódio em um bem cuidado inglês britânico, frequentou as cadeiras da prestigiosa Universidade de Westminster antes de integrar as fileiras do Estado Islâmico. A notícia veio à tona em fevereiro deste ano, por meio de documentos vazados à imprensa.

No mesmo mês, ganhou repercussão o caso de três garotas entre 15 e 16 anos, estudantes de uma mesma escola no leste de Londres, que fugiram de casa e viajaram sozinhas para a Turquia, de onde cruzaram a  fronteira com a Síria para se reunir a militantes do mesmo Estado Islâmico.

Outro caso emblemático é o de Michael Adebolajo, um dos condenados pelo assassinado do soldado Lee Rigby em Londres, em 2013. Posteriormente, soube-se que Adebolajo fora aluno da tradicional Universidade de Greenwich.

Todas essas histórias escondem um fato. “Jovens entre 18 e 24 anos, são os principais sujeitos dos processos de radicalização”, diz o antropólogo Scott Atran, que realiza estudos de campo entre grupos radicais envolvidos em conflitos. Somente no Reino Unido, de acordo com estimativas do Ministério das Relações Exteriores, mais de 500 jovens deixaram o país para lutar em grupos de radicais na Síria e no Iraque. O grande desafio, porém, é definir a conexão entre todas essas histórias e como elas podem evitar que outras mais aconteçam.

Nem tão simples

Um artigo recém publicado pelo especialista em islamofobia Chris Allen, pesquisador da Universidade de Birgminham, evidencia essas questões. No texto, Allen põe em xeque a principal ideia por trás da política atual, problematizando se é possível identificar, com facilidade, mudanças de comportamento que indicam a ligação do aluno a grupos terroristas.

“A noção de mudanças facilmente identificáveis no comportamento existe há algum tempo. Foi proposta há uma década pelo então ministro do Interior John Reid”, diz Allen. “Se voltarmos no tempo, Reid estava falando aos pais muçulmanos sobre a necessidade de estar vigilantes aos sinais do extremismo em suas crianças”.

Para Allen, a nova medida do governo é apenas a repetição dessa mesma ideia. No texto divulgado pelo Ministério do Interior, embora se repita mais de uma vez que os professores precisam estar atentos aos “sinais da radicalização” não há, em nenhum momento, uma orientação clara sobre o que seriam esses sinais.

“Isso não surpreende, uma vez que essencialmente as 'mudanças' ou os 'sinais' aos quais eles se referem são uma espécie de código para definir tornar-se 'mais muçulmano'. Seja no visual (deixando crescer uma barba ou usando o niqab, vestimenta islâmica), seja na expressão (praticando a religião de maneira mais aberta ou demonstrando visões políticas sobre a política de relações internacionais britânica ou sobre a Palestina, por exemplo)”, define Allen.

Diante dessa imediata associação entre comportamentos muçulmanos, radicalização e terrorismo, o grande risco é aumentar ainda mais a segregação dos jovens de origem muçulmana, deixando-os mais isolados, apontam os especialistas.

“Essa nova norma pode acabar gerando um risco ainda maior de que as pessoas se refugiem em grupos isolados e fora do radar, nos quais o risco de radicalização é ainda maior”, considera Sally Hunt, do Sindicato das Universidades e Escolas Preparatórias. Como resume Aran: “Essas orientações muito rígidas [sobre radicalização] podem acabar gerando o efeito oposto e o tiro pode sair pela culatra”.

Segunda-feira, 20 de julho de 2015
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