Tempo de intolerância e rebeldia
Sexta-feira, 24 de julho de 2015

Tempo de intolerância e rebeldia

Debater é trocar argumentos e discutir ideias a partir de um debate rico, no qual os dois lados tem liberdade para colocarem a sua opinião livremente. Quem assiste ou participa dele poderá construir o seu ponto de vista com base no que lhe pareceu mais verossímil.  Ocorre que, atualmente, não vemos mais debates honestos, pautados na intenção de conhecer a ideia do outro e discordar dela depois de conhecê-la. As pessoas se encastelaram em verdades prontas, e quem discorda delas está contra quem as defende.

O primeiro ponto é esse. Você pode discordar do que a pessoa pensa, mas não precisa odia-la por isso. Misturar a ideia e a pessoa confunde o discurso e entorpece o debate.

Um exemplo recente foram os adesivos criados com a imagem da presidente nua, que tinha o intuito de humilha-la. Porque fazer isso? Você não concorda com a forma como ela está governando? Elenque os erros do seu governo e proteste, aponte o que há de errado, se coloque, exija seus direitos como cidadão, participe do poder, isso é democracia.

Ofender a pessoa dela não faz sentido. Não faz parte do debate. Ela como ser humano não está sendo avaliada, mas sim como presidente e é sobre isso que podemos e devemos falar.

A esta altura do texto, por certo, alguém já parou de ler me qualificando como petista, porque estou ousando me colocar contra essa manifestação desrespeitosa a pessoa da presidente. Eu não sou petista e não estou pedindo para ninguém gostar do PT ou da presidente. Estou falando apenas de respeito. Mas é mais fácil não parar para analisar o que está certo e errado dentro de cada situação. As pessoas acham justificável defender “o bem”, fazendo o mal, e se questionados dão de ombros e lançam um sucinto: “ela merece”.

Atitudes como essas revelam um movimento implícito no sentido de qualificar quem pensa como alguém que incomoda. Uma intolerância generalizada, pautada na ilusão coletiva de que uma situação não é revestida de muitos pontos de vista possíveis.

Se você é contra a maioridade penal, é a favor dos bandidos. Se você é a favor do aborto, é assassino. Se você é contra a homofobia, não é cristão. Simples assim. Como se vivêssemos no poema de Cecília Meireles, “Ou isto ou aquilo”. Todos acomodados dentro desse universo onde só existe: certo e errado. Ninguém precisa ouvir ou respeitar o outro. Aboliram-se os debates de ideias, posto que desnecessários ante essa realidade de verdades absolutas.

Precisamos urgentemente parar e observar para onde estamos nos dirigindo aceitando e contribuindo com essa ditadura do pensamento dicotômico. Rebelemo-nos. Ousemos questionar. Queremos uma sociedade assim tão limitada? É realmente impossível cogitar que eu possa ter razão, mas o outro também ter as suas?

Somos seres plurais, vivemos em uma realidade plural, sejamos plurais. Lutemos pela continuidade do debate salutar, autêntico, embasado em troca de ideias, não nos conformemos com verdades prontas. Sejamos defensores do direito de termos a nossa opinião e que ela seja fruto da análise respeitosa de pontos de vista divergentes, pois só assim ela será de fato nossa, não de outrem, plantada em nós.

Adriana Cecilio é advogada, Membro efetivo da Comissão da Mulher Advogada OAB/SP e do Instituto Pimenta Bueno – Associação Brasileira dos Constitucionalistas e Especialista em Direito Constitucional Aplicado.

 

Sexta-feira, 24 de julho de 2015
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend