O direito precisa de decotes e carinho de mãe
Terça-feira, 4 de agosto de 2015

O direito precisa de decotes e carinho de mãe

De acordo com Aristóteles, a mulher era um macho deformado. Isso porque, a elas, faltava-lhes a alma. As artes plásticas eram um reino proibido para esses seres desalmados. Em Bolonha, no século XVI, havia 524 pintores e 1 pintora. No século XVII, em Paris, havia 435 pintores e 15 pintoras, todas parentes de pintores. No século XIX, Suzane Valadon foi verdureira, acrobata de circo, modelo e pintora. Ninguém se espantou que ela fosse a primeira a pintar homens pelados, afinal, só podia ser pancada da cabeça.[1].

Para Leminski, um dos fundamentos metafísicos do patriarcalismo está no livro do Gênesis, na Bíblia, depois que o Senhor Deus tirou uma costela de Adão para fazer a mulher. No mito, há uma inversão da realidade, já que é o homem que sai da mulher, e não a mulher do homem. Os antigos hebreus, o judaísmo, o islamismo e o cristianismo são, fundamentalmente, patriarcalistas. Jesus tinha uma espécie de harém pessoal. Jesus era alguém que gostava de bacanais metafísicos. Era cortejado por um monte de mulheres anônimas.

Acompanhavam-no os doze e algumas mulheres que tinham sido curadas de espíritos malignos e enfermidades”, diz o Evangelho de Lucas. As mulheres não tinham acesso às funções sacerdotais e, por isso, a castidade do homem-deus devia ser vencida pela eminencia de uma vida teórica sobre a prática – apesar de um mestre zen achar exatamente o contrário.[2]

Mesmo Medéia, na tragédia grega, só tornou-se heroína porque atentou contra o patriarcalismo. Ficou eterna porque encarou os barbudos com, no máximo, um buço felpudo. De Medéia até hoje, mesmo depois de maio de 68, ainda há falos (ou pintos, se assim ficar menos acadêmico) atrás dessas mulheres como a Dilma e a Angela Merkel. Há uma (maldita) historicidade patriarcal que permanece. Não custa lembrar a diferença de ibope entre Marta e Neymar, e a badalação da copa do mundo delas e deles.

No século XXI, ano de 2014, no 9o Simpósio Nacional de Direito Constitucional, o mais bam-bam-bam do Brasil, 36 juristas estavam por palestrar. 33 eram homens. E  3 mulheres. 2 delas falavam grosso.

Paulo Ferrareze Filho é Doutorando em Direito (UFSC). Mestre em Direito (UNISINOS/RS), Professor Universitário e Advogado.

[1] GALEANO, Eduardo. Espelhos. Porto Alegre, RS: L&PM. 2008, p. 237.
[2] LEMINSKI, Paulo. Vida: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski – 4 biografias. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, pp. 207-215.
Terça-feira, 4 de agosto de 2015
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