A dor dessa gente não sai no jornal
Terça-feira, 11 de agosto de 2015

A dor dessa gente não sai no jornal

Viviany Beleboni, assim dito, é uma desconhecida completa e não teria ninguém que levantasse os olhos quando se anunciasse no dentista, por exemplo. Se alguém dedicasse a ela uma música, se alguém achasse seu telefone ou seu endereço, não se daria conta de que se trata de uma celebridade, de alguém que mobilizou o parlamento pátrio, que recolocou nas manchetes todas a Parada Gay, cada vez mais politicamente correta e cada vez mais aceita, tão aceita que foi perdendo seu caráter de transgressão e de ódio direcionado. Para odiar, existem outras Paradas, muito mais calientes para esse fim, com a Marcha da Maconha, a Marcha das Vadias, a coisa vai evoluindo e a Parada Gay ficou família demais. Teve até Gay-Coxinha, algo impensável quando as pessoas saíam mascaradas, outros tempos.

Mas, ela causou. Causou em silêncio a fúria santa, a ora purificadora; sem dizer uma única palavra, ela testou todos os limites da intolerância socialmente aceita ou da tolerância virtuosa, sabe-se lá. A moça, que ninguém conhecia, ficou famosa, assim, do dia para a noite. Mas, a fama que a acompanhou não a levou para o Domingão do Faustão, não a colocou no BBB17, não fez video-clip e muito menos saiu semi-nua no paparazzo. Não. Não anunciou a Dolly Guaraná, nada. É um estranho caso de uma pessoa que se tornou famosa, mas não se tornou celebridade. Eu mesmo que tive que me socorrer do Google, porque não fazia a mínima ideia de seu nome. Uma celebridade anônima, quase um contrassenso em si mesmo.

Tudo porque veio num carro alegórico, que cortou a Avenida Paulista, onde ela, na verdade, transexual, aparecia semi-nua, crucificada. Foi o que bastou para que as Portas da Intolerância se abrissem e a atirassem a um fundo de reprovação, discriminação, ódio explícito. Era apenas uma alegoria, era apenas o direito de expressão. A utilização da cruz, da crucificação não é novidade e nem seria transgressor tanto quanto quisessem os mais fundamentalistas. Joãozinho Trinta, que Deus o tenha, virou do avesso o Carnaval Carioca e, muito mais que os bicheiros, já provocava a fúria dos fundamentalistas que conseguiram censurar um carro alegórico, lá pelos anos 90 (1989, na verdade). Foi um escândalo, ficamos assustados, mas ninguém deu muita bola pro assunto, até porque a criatividade de Joãozinho Trinta foi mais criativa que a burrice censora.

Ninguém ousaria bater, espancar, esmurrar, cortar, esfaquear o carnavalesco genial. Conseguiram o que queriam e a Beija Flor de Nilópolis arrasou naquele ano.

Viviany, porém, não conta com o prestígio, popularidade e proteção que cercavam o artista, em seu sonho genial. Era apenas um transexual pobre, que aceitou um trabalho, honesto e engajado, que dizia respeito a toda a marginalidade a que foi relegado. Ó ódio do mundo caiu sobre ela e, anteontem, postou um vídeo na net, desesperada e desesperançada, agredida, humilhada e acuada: ela foi reconhecida por algum maluco fundamentalista, que a acusou de ser agente de Satã e a esfaqueou. Poderia ter sido pior, não fosse ela mais forte que seu agressor. No O GLOBO, a matéria está cercada de desconfianças: “Ela diz que foi esfaqueada”.

Nem no jornal. Como no samba mágico de Paulinho da Viola, a dor da gente não sai no jornal. Saiu, assim, timidamente, desconfiadamente. Dessa gente, espera-se tudo. Não, não do agressor, mas desse tipo de humano, meio homem, meio fêmea, meio alguma coisa, pobre, fudida. Viviany não tem nenhuma esperança na Delegacia de Homens e deve ter lá seus motivos. A intolerância do Séc. XXI é mais raivosa.

Pobre Viviany, são muitos seus predadores e poucos os que a acolheriam, curiosamente nesta cidade, onde se pensava que houvesse espaço para todos. Com ela, os haitianos, os bolivianos, os africanos, todos pobres, todos fudidos, fazem a nova cara dos excluídos da Paulicéia, dos interditados sociais, dos desprotegidos juridicamente, chegados nessa cidade que parece estar enlouquecendo de vez.

O ódio que deixa todos pirados. O ódio. Certamente, a droga mais letal que existe.

Roberto Tardelli é Procurador de Justiça aposentado (1984/2014), onde atuou em casos como de Suzane Von Richthofen. Atualmente é advogado da banca Tardelli, Giacon e Conway Advogados, Conselheiro Editorial do Portal Justificando.com e Presidente de Honra do Movimento de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.
Terça-feira, 11 de agosto de 2015
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend