Para Florestan Fernandes Junior,  a cobertura da mídia na Lava Jato lembra a ditadura
Quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Para Florestan Fernandes Junior, a cobertura da mídia na Lava Jato lembra a ditadura

“Eu nunca imaginei ver minha carreira chegar ao ponto que chegou. Eu estou estarrecido de ver o que se tornou o jornalismo brasileiro”. Com esse desabafo, o jornalista Florestan Fernandes Junior começou seu discurso em um debate sobre democracia realizado na última sexta-feira (8) pela Associação dos Advogados Trabalhistas de São Paulo (AATSP). Também compuseram a mesa o Deputado Federal José Mentor (PT-SP) e o Advogado Wellington Cantal

Florestan, que já teve experiência em diversas mídias, passando da escrita até a âncora de jornal televisivo, crê que a responsabilidade não vem só do jornalista ou do jornal, mas também dos leitores e dos patrocinadores. “Essa nossa grande imprensa está nas mãos de famílias que apoiaram o golpe militar, que deram sustentação para o golpe militar, que tem uma visão de extrema direita e agora encontraram espaço que precisavam para reverter uma situação que nunca agradou a eles”, afirmou.

Filho de um pensador político, sem dúvida nenhuma puxou do pai a agilidade em prender a atenção de quem o escuta. “Os partidos políticos não representam mais a sociedade” – disse quando passou a tecer críticas ao atual governo e aos que tentam, na sua opinião, cravar um golpe na democracia. 

Para ele, essa crise de representatividade passa por como os partidos e a mídia têm se comportado. "Toda semana, um advogado de primeira instância do Paraná decide qual vai ser a  “bomba” baseada nas delações premiadas, que não sabemos se é verdade ou mentira, que vai estampar as capas das revistas e jornais do Brasil. Isso me lembra a ditadura militar", disse. 

Podemos transformar um caso de investigação, que deve ser muito bem analisado e estudado, em uma ação política antipartidária? 

Fazendo uma comparação das investigações do Brasil com a dos EUA sobre a FIFA, a qual inclusive prendeu o dirigente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Florestan conta uma coisa que surpreende a plateia – “Os EUA levaram cinco anos para investigar cada dirigente da FIFA, sendo que utilizaram também delações premiadas”.

O espanto da plateia foi pelo fato da imprensa apenas noticiar a prisão e nunca tocar no assunto das investigações. Quando foram realizar as detenções, as provas já haviam sido colhidas, as acusações estavam sólidas e não houve carnaval – “Nesses cinco anos não vimos uma linha sequer na imprensa internacional sobre as delações, pois é uma coisa seria e tem que ser levado a sério”, disse Florestan, que imediatamente fez analogia à Operação Lava Jato, que se utiliza muito da delação – “Acho que o trabalho do juiz Sergio Mouro deve ser feito, mas de uma forma menos midiática, porque tudo é feito através da mídia, o  que dá uma proporção muito maior

Dando o exemplo da escola base, acontecimento que cobriu de perto, Florestan nos mostra o poder que a mídia tem em destruir a vida de uma pessoa. Baseado nessa comparação e lembrando as eleições de 2014, acredita que estamos passando por um terceiro turno, o qual a candidata atacada não tem direito a resposta. “Todo o espaço ficou para o candidato deles (mídia)”, afirmou. 

Mais adiante, o jornalista questionou sobre limites de atuação da mídia, como, por exemplo, as inúmeras capas da revista Veja denunciando o ex-presidente Lula, as quais muitas foram desmentidas, além do caso do Senador Romário, cujo falso extrato foi divulgado pela revista, que o denunciava de ter uma conta na Suíça com 7 milhões não declarados. Com base nisso, acredita que mídia brasileira e o jornalismo precisam urgentemente de uma regulamentação – “Os médicos têm, os advogados têm, porque os jornalistas não têm?”.  Fica a questão.

 

Quarta-feira, 12 de agosto de 2015
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