A segurança pública, direito de todos, transformou-se em terror
Segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A segurança pública, direito de todos, transformou-se em terror

Escrevo sob o impacto da notícia, escrevo sob o medo de fazer pré-julgamentos, de apontar culpados, escrevo sob o impacto do impacto nenhum da notícia, escrevo entre enojado e aterrorizado, escrevo porque talvez precise expulsar demônios que assombram a alma, escrevo porque é a única forma de gritar em palavras o que meu silêncio não consegue conter.

Escrevo porque sinto que houve a participação de gente maior do que criminosos comuns. As balas eram de prata, saídas de quartéis, a indicar que partiram de agentes públicos. Fossem bandidos apenas, como gosta de chamá-los a mídia, muitas dessas mortes não teriam ocorrido – haveria avisos ou todos teriam percebido que as águas houvessem turvado de sangue.

Escrevo para amaldiçoar a guerra, que nega direitos e que nega a paz. Nega tudo, bestializa, atropela, faz matar covardemente, torna desesperadora a vida de quem está no fogo cruzado. Escrevo para dizer que temos nossas parcelas de culpas, cada um dos ditos operadores do direito, aqueles que aceitam incondicionalmente qualquer, mas qualquer depoimento que parta de agentes públicos de segurança, aqueles que tiraram da cartola o coelho doentio, inventando que agentes públicos gozam de presunção relativa de veracidade, aqueles que aceitam autos de resistência seguida de morte, tudo isso criou um caldo de cultura e desaguou na tragédia social em que vivemos.

Se tantas mortes não forem suficientes para que se inicie a desmilitarização urgente da policia-milícia militar, nada mais será. O que houve é um sinal ideológico gravíssimo: a Segurança Pública, direito de todos, transformou-se em Terror e tornou seus agentes piores que criminosos, tornou-os donos do poder de vida e de morte, tornou-os rancorosos e vingativos.

Fico horrorizado. Os Guerreiros Anti-Corrupção não pensam em uma campanha: NÃO SUPORTO EXECUÇÕES SUMÁRIAS!

Não vejo pastores que defendem a vida do feto irem às periferias e sacudirem as comunidades, gritando por Deus e por dignidade. Eles são os capelães desse exército enlouquecido, que sai matando noite adentro e não se entristecem quando veem irmãos de fé mortos sem chances de defesa.

Não vimos a indignação burguesa nas ruas levantar-se contra as mortes perpetradas pela força que ali estava simpática e sorridente. Não vi um único manifestante protestar contra o arbítrio insuportável das execuções sumárias, dos assassinatos, das chacinas.

Silêncio absoluto sobre as mortes; pior, um silêncio cúmplice sobre as mortes, silêncio feito de fraturas sociais, de ódios estereotipados, de preconceito e de atraso moral, ético, cultural, político. Uma faixa que fosse, um cartaz que fosse, a lembrá-los e a lembrar as famílias que os perderam assassinados pela milícia policial. Nada.

Escrevo porque devo desculpas, escrevo porque devo desculpas de ter perdido tanto tempo de minha vida discutindo um Direito que jamais chegou nas periferias, um Direito feito afagos e mesuras, a um milhão de anos-luz de sua negação diária, contínua, mortífera, letal, oficial, publica, burocrática, anódina.

Um Direito feito de negação de direitos.

Até quando?

Roberto Tardelli é Procurador de Justiça aposentado (1984/2014), onde atuou em casos como de Suzane Von Richthofen. Atualmente é advogado da banca Tardelli, Giacon e Conway Advogados, Conselheiro Editorial do Portal Justificando.com e Presidente de Honra do Movimento de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.
Segunda-feira, 17 de agosto de 2015
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