A barbárie nossa de cada dia
Quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A barbárie nossa de cada dia

O Haiti é aqui, canta Caetano Veloso em música de 1994, para em seguida concluir que o Haiti não é aqui, desmentindo o princípio da não-contradição de Aristóteles. A poesia sabe que o que é, pode também não ser.

Parece que Caetano Veloso também desmente Heráclito, pelo menos em parte: esse rio chamado Brasil continua igual ao da canção de 21 anos atrás. As cenas se repetem incansavelmente: “soldados, quase todos pretos, dando porrada na nunca de malandros pretos, de ladrões mulatos e outros quase brancos, tratados como pretos”. Pior que isso: a música de Caetano também ataca “o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina de 111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos”, referindo-se ao Massacre do Carandiru, ocorrido em 1992. Dentro ou fora dos presídios, lá vamos nós de novo assistir a mesma tragédia: na quinta-feira passada, dia 13 de agosto, dezoito pessoas foram sumariamente executadas em Osasco e Barueri, periferias de São Paulo. Não eram presos, mas eram pobres. E mais uma vez o que se ouve é o silêncio sorridente e cúmplice diante da violência sem limite racional e sem motivo razoável.

Mas será que o Haiti é mesmo aqui?

Os extremistas do Estado Islâmico resolveram exterminar os gays lançado-os de cima dos prédios e, quando sobrevivem à queda, terminam de matá-los por apedrejamento sob aplausos da multidão. Mas quem ainda lidera o ranking da intolerância e da violência contra homossexuais e transexuais é o Brasil. Segundo a International Lesbian and Gay Association (ILGA), 44% dos assassinatos de LGBTs registrados em 2013 ao redor do mundo ocorreram no Brasil. A maioria desses assassinatos ocorreram com requintes de crueldade, evidenciando o caráter homofóbico da violência. Já atingimos, no Brasil, a marca de um homossexual assassinado a cada 28 horas. O Haiti não é aqui. É o Estado Islâmico que é aqui.

Estado Islâmico ou Arábia Saudita? O instituto Pew Research Center publicou pesquisa em janeiro de 2014 revelando que 53% dos sauditas entendem que uma mulher não pode escolher livremente o que vai vestir e 63% deles acreditam que a roupa mais apropriada para as mulheres em público é o niqab, véu que cobre todo o corpo deixando apenas os olhos de fora. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), por sua vez, revelou, também em 2014, que 58,5% dos brasileiros acreditam que “se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros” e 26% entendem que “as mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. O Estado Islâmico não é aqui. É a Arábia Saudita que é aqui.

Arábia Saudita ou Iraque? Entre 2004 e 2007 cerca de 170 mil pessoas foram mortas nas maiores zonas de guerras do mundo, incluindo Sudão, Iraque e Afeganistão. No mesmo período, 192 mil brasileiros foram mortos. Só em 2012, informa a Anistia Internacional, foram 56 mil brasileiros mortos, sendo 30 mil jovens. Destes, 77% eram negros. A Arábia Saudita não é aqui. É o Iraque que é aqui.

Iraque ou Estados Unidos? Na terra do Tio Sam prender é um grande negócio, não no sentido político de resolução dos problemas da violência, mas no sentido estrito de gerar lucro. A privatização dos presídios anda de mãos dadas com a inflação da legislação penal e com o aumento da população carcerária. Pior: a iniciativa privada que explora os presídios injeta dinheiro no financiamento de campanhas eleitorais, tornando os candidatos com chances de vitória em reféns de seus interesses particulares. O resultado, além do sequestro da democracia, é que se prende muito e prende-se mal: as pessoas (na maioria pobres e pretos) costumam ir em cana por crimes não violentos como furtos, porte e consumo de drogas, abortos e até por sexo consentido. Isso tudo sem contar as práticas de tortura na prisão de Guantanamo. O Brasil segue atrás: somos a quarta maior população carcerária do mundo, a privatização dos presídios está na pauta do dia e a tortura é um hábito persistente em nosso presídios. Enquanto isso, apenas 8% dos homicídios ocorridos no Brasil, na mais otimista das estatísticas, chegam a virar processo criminal, segundo dados da Anistia Internacional. Não é o Iraque que é aqui. Os Estados Unidos são aqui.

Não é necessário prosseguir o nosso giro pelo mundo dentro do Brasil para constatar que somos todos bárbaros e que o pior dos outro é também o nosso pior. A barbárie não consiste em arrotar no restaurante, vestir-se mal ou falar palavrões  na frente das crianças nem consiste, como sugeria Norbert Elias, em desconhecer Platão, Mozart, Kant ou Machado de Assis (ou o próprio Elias). A barbárie também não é só uma questão de ponto de vista, como retrucava Claude-Levi Strauss. A barbárie consiste na violência desmedida e irracional perpetrada paulatinamente contra o outro, contra aquele que se supõe o mal a ser combatido.

A barbárie não está apenas nas chacinas, nas prisões, nas torturas e nos estupros. Está também na televisão, nas rádios e na internet. Está na boca dos salvadores da pátria e dos homens de bem. Está no cotidiano das esquinas e nos postos de gasolina. Dois meses atrás, no Rio Grande do Sul, um frentista foi hostilizado pelo simples fato de ser haitiano. O ato foi filmado e disponibilizado na internet. O mais irônico é que o vídeo não foi gravado e disponibilizado pela vítima, mas pelo próprio agressor. Não me espanta: o bárbaro é aquele que se acredita um agente da civilização e acha que a sua violência absurda e criminosa é uma violência do bem.

A verdade é que o Haiti não é nem será aqui enquanto formos bárbaros. E continuaremos sendo bárbaros enquanto acreditarmos, de dentro de nossos carros blindados e paletós bem costurados, que a barbárie se combate com mais barbárie. Esqueçamos, por ora, as ondas do Hawai, cantadas pelo mesmo Caetano em "Menino do Rio". Continuaremos sendo bárbaros enquanto não pudermos cantar para todos os refugiados haitianos que vivem no Brasil: O Haiti seja aqui, e tudo o que sonhares, e as ondas dos mares.

Quinta-feira, 20 de agosto de 2015
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