Mulher, teu corpo não te pertence (ainda)
Quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Mulher, teu corpo não te pertence (ainda)

Há várias discussões, atuais e históricas, em torno da mulher: modo de se vestir, proibição do aborto, ditadura do parto humanizado e/ou cesárea, cultura do estupro, violência física e psicológica, slut shaming, sex revenge tape (publicação de vídeo íntimo), imposição de depilação, exacerbação da juventude e do corpo magro, desprezo pela velhice e suas características físicas,  repulsa aos cabelos crespos (inserido no campo do racismo), dentre outras. Das diversas formas de opressão contra a figura feminina uma conclusão se torna clara: mulher, seu corpo não te pertence.

De primeiro, pode soar estranho, afinal hoje nós somos (supostamente) fisicamente livres e temos o direito de ir e vir, o que nos leva a supor que temos sim domínio do nosso corpo. Mito. Nós detemos o nosso corpo, mas ele não é nosso, é coletivizado.

Veja bem, o corpo, no sentindo orgânico, formado por membros, órgãos, sangue e substâncias corporais pertence anatomicamente à mulher. Porém, o corpo da mulher como existência corporal de fenômeno social e cultural, de representação de um agente/protagonista de uma existência de vida não é.

Como bem explica Le Breton (A sociologia do corpo), o corpo é vetor semântico pelo qual a evidência com a relação do mundo é construída; é eixo da relação com a vida, lugar e o tempo nos quais a existência torna forma mediante a fisionomia singular de um agente. Assim, o padrão cultural molda o corpo, considerado em sua estrutura simbólica.

Ocorre que, no caso da mulher, as regras da sociedade acabam por regular os movimentos íntimos e particulares da corporeidade, impondo um pudor machista, a necessidade de desenvolvimento de técnicas culinárias, o controle moral das suas relações sexuais, ações, da gravidez, relação com os filhos, expressão de sentimentos, tratamento que deve ser dado ao corpo e afins, o que relativiza o seu protagonismo corporal.

Claro que os homens também recebem influências e se relacionam com o mundo de forma a absorver e modificar a corporeidade. Afinal, a expressão corporal de qualquer ser humano é “socialmente modulável”.

Contudo, o nível de interferência na construção do corpus feminino relativiza o seu poder de apoderar dele.

Analisemos um caso exemplificativo, como slut-shaming, que seria ato de induzir uma mulher se sentir culpada ou inferior devido a prática de certos comportamentos sexuais destoantes do que a sociedade considera com aceitável. Há uma nítida limitação dos gestos e posturas sexuais que a mulher pode tomar, sob pena de ser socialmente punida e tachada. Também é utilizada para culpar a vítima de estupro e abuso sexual, alegando que a mulher cobriu de modo atrevido o seu corpo ou realizou gestos que incitaram à agressão do homem.

Outro exemplo seria a imposição de tratamento corporal, como depilação, que possui nítida desigualdade em relação ao homem. A justificativa é impregnada de argumentos sexistas, de que a mulher tem que ser delicada, que os pêlos combinam com a virilidade do homem, que estes repudiam a penugem feminina, dentre outros. Acaba não se tornando uma opção para mulher, mas sim uma determinação da convenção social, dolorida ou não.

Em continuidade, como tratamos anteriormente no artigo “sociedade e coelhinhas da  playboy: o paradigma da juventude”, a mídia continua a repudiar mulheres com corpos “velhos”, atribuindo uma qualidade inferior e indesejável socialmente à eles. O envelhecimento do corpo físico, como a flacidez, rugas e cabelos grisalhos, são repudiados e novamente trazem uma imposição ao corpo feminino.

Igualmente, controla-se socialmente até os reflexos biológicos do nosso corpo, como a gravidez, não apenas quando esta deve ocorrer – na juventude e após o casamento – mas também o seu transcurso – agora a moda é ser “grávida fitness” –  e o seu término- alteridade das discussões do parto natural ou cesário. Já em termos religiosos, a contracepção feminina também sofre ingerências, existindo alguns dogmas que determinam que esta não poderá sequer controlada com pílula ou método anticoncepcional, por exemplo.

Por outro lado, as práticas sociais podem evidenciar a exposição da mulher diante do homem e a ele subjulgada, retirando ou mitigando o valor e a dignidade do seu corpo-símbolo, reduzindo-o a seu corpo-físico: a objetificação. E aqui as propagandas comerciais são os maiores expoentes desse fenônemo. (Alô propaganda de cervejas!). O racismo também expõe aqui a sua maior vítima: a mulher negra, já historicamente marcada pela hipersexualização.

Dessa maneira, conclui-se que as características morais dos sexos não estão traçadas biologicamente, mas dependem de fatores sociais e culturais. Todavia, o ethos (padrão cultural) é bastante opressor com as mulheres, relativizando o seu corpo, o seu gestos, suas ações, sua movimentação, sua omissão, sua individualização.

Infelizmente, o corpo ainda não é nosso…

Sueine Souza é Mestre em Direito pela Universidade Federal em Pernambuco. Procuradora do Estado de São Paulo. Membro do Grupo Olhares Humanos.
Quarta-feira, 26 de agosto de 2015
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