Até nos humanizar, o medo nos bestializa
Terça-feira, 1 de setembro de 2015

Até nos humanizar, o medo nos bestializa

O medo, esse um que nos compõe a alma, que nos torna animalescamente humanos, que nos traz a dimensão épica de descobertas, de alumbramentos, que torna o salto uma aventura e faz do amor um suplício fascinante, esse um, nosso personagem maior e oculto, que silenciosamente rouba a cena e reescreve todas as histórias. Na cosmogonia judaico-cristã, Adão desafia seu medo e é punido com o banimento do Paraíso, onde o medo jamais existiria. O medo, o medo e a saga do Conhecimento que se iniciava. Adão e  Eva foram os primeiros a experimentarem a sensação de superarem os limites de algo que lhes fora oferecido, cobrando-se em troca o acatamento eterno, mesmo que nada houvessem pedido.

No Paraíso, no confinamento do Éden, nos dias sem aventura e de ordens superiores, muito provavelmente a dimensão humana não se expandiria e, não houvesse o risco, o desafio, a desobediência a que se lançaram, penso que não se varariam os séculos e teríamos ficado de vez em alguma das eras geológicas de tufões, geleiras e terremotos e nos extinguiríamos, se não pelas catástrofes ou guerras  genocidas, pragas que devastassem as plantações ou pestes que nos corroessem vivas as entranhas, mas desapareceríamos vencidos pelo tédio. Em pouco tempo, sem a  centelha humana do conhecimento, seríamos tragados por um cotidiano vazio e hierarquicamente subordinado a uma vontade da qual nunca seríamos informados. Adão e Eva, por vencerem o medo, salvaram-nos da extinção.

Se o enfrentamento do medo nos deu a chance da humanidade, deu-nos também o ódio e a intolerância como seus mais profícuos frutos, que medram à sombra de árvore frondosa. Num tempo de medos fluidos, expressão magistralmente sintetizada por Bauman, os galhos da árvore balançam e atiram longe suas sementes mais envenenadas, que se espalham por toda a aventura do conhecimento. Fez da religião uma forma de opressão e dor, interditando de vez sua transcendência de solidariedade. O medo fez das religiões um verdadeiro vade-mécum de criminalização de felicidades, quase a tornando  uma impossibilidade humana. O medo fez da política uma forma cruenta e estúpida de dominação, no revés da imagem da arte do entendimento. Fez bombas destruidoras, se fosse preciso, de fazer explodir o planeta. O medo traçou fronteiras ideológicas mais intransponíveis do que qualquer barreira física. O medo escreveu códigos e concebeu penas atrozes. O nos isolou de nós mesmos.

Se o medo declara guerras, a exaustão que ele provoca talvez enseje a paz. Se o medo constrói cadeias inexpugnáveis, sistema punitivos implacáveis, talvez seja a exaustão que ele provoca a matéria prima da tinta que escreve indultos. O medo tem desses sarcasmos, ele nos leva ao limite de nossa capacidade destruir, ele testa todos nossos limites de intolerância, ele impõe memórias de dor que caoticamente se misturam a dores que jamais existiram ou existiriam, a vivências agônicas que nunca foram experimentadas, a abismos em que jamais caímos, a culpas inventadas por sua ação constante e corrosiva. Até nos humanizar, o medo nos bestializa.

Na sociedade de milhões e em mutação, esse medo está no seu ápice. Faz espargir seu pólen e germina nossos jardins. As flores do medo são cultivadas e regadas e não são aversivas ao toque ou ao olhar e essa talvez sua mais perversa característica, são macias e produzem inicialmente uma sensação de conforto, de frescor e de proteção. É tão boa a sensação que faz com que mais e mais tenhamos conosco essas flores, até o momento em que elas se tornam urticantes, espinhentas, indestrutíveis e insaciáveis. Por um processo químico de almas, elas se tornam carnívoras e se retroalimentam de seu próprio jardineiro. Engrossam seus caules e aprofundam suas raízes. Quando nos damos conta, estamos tão envolvidos por seus galhos e ramas que não mais conseguimos nos mover e se o medo se alimenta de nós mesmos, nós também não mais conseguimos respirar sem ele, tornamo-nos simbióticos.

À sombra fria do medo, revolvemos nossos ódios, que são os óleos essenciais para que ele cresça forte. Ódio e medo. Intolerância e medo. Medo medo medo medo, que nos faz cobrir de porrada os rapazes que se amam e passeiam de mãos dadas pela Avenida. É o que nos faz quebrar de cacete o(a) filho(a) rebelde, que nos impele a andar armados  e a festejar quando a polícia atira nos pretos que perambulam por nossas ruas brancas, que nos faz querer prender desvairadamente todos e tudo que não compreendemos, que nos faz odiar pessoas tão profundamente que nos esquecemos de que são pessoas, nos faz ir às ruas para pedir menos liberdade, a liberdade não é medo apenas, a liberdade é apavorante.

O medo da rejeição nos leva ao estupro. O medo da igualdade nos leva ao estupro, o medo, onde estás que não respondes?, o medo de compartilhar direitos nos leva ao apartheid, o medo de ter que trabalhar para aplacar a fome também de nosso semelhante nos transforma em individualidades egoísticas. O medo de retirar o símbolo religioso das salas de julgamentos nos faz temer a punição divina. O medo constrói tiranos e seus asseclas paranóicos. É o que nos faz doentes de inveja por não tentar, não ousar, não querer voar pelo medo de as asas não se abrirem, qual é o fim do azul?

Encarceramos garotos, queremos encarcerar meninos, queremos encarcerar dependentes químicos, queremos encarcerar a língua, a palavra, queremos não dizer o que foi dito, queremos que os relógios voltem e a aquela frase jamais tenha feito vibrar nossas cordas vocais, queremos que ninguém nos ouça no que dissemos, o medo nos faz amar o desamor.

O Medo nos queda plantados, de olhos abertos, esperando a noite passar, com os pés recolhidos, com a alma trancafiada no peito. Com a luz acesa, espreitando a algazarra caótica que os gatos livres fazem nos beirais.

Roberto Tardelli é Procurador de Justiça aposentado (1984/2014), onde atuou em casos como de Suzane Von Richthofen. Atualmente é advogado da banca Tardelli, Giacon e Conway Advogados, Conselheiro Editorial do Portal Justificando.com e Presidente de Honra do Movimento de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.
Terça-feira, 1 de setembro de 2015
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