A vaia de New York
Terça-feira, 8 de setembro de 2015

A vaia de New York

Vi, consternado e triste, o protesto liderado por Fábio Junior, de quem não mais nos lembrávamos, ressurgido de um tanque de botox, feito em show para brasileiros em New York. Quem assistiu pelas redes sociais deve ter notado que ele, após considerações infantis sobre as palavras de ordem positivistas de estrelado lábaro nacional, embalou o xingamento já conhecido e em coro à Presidenta da República, Ei, Dilma, vai tomar no cu!, repetido como se fosse um mantra de maldição. Além de vulgar, a ofensa se deu na casa do vizinho, em país estrangeiro.

Até se compreenderia a vulgaridade, se aqueles que o fizessem fossem exilados políticos, banidos de seu país natal por uma ditadora cruenta, que fossem pessoas saudosas de seus entes queridos, de suas praias, seus caminhos, suas vidas, que fossem irmãos corridos da perseguição político-ideológica, e que não suportando o banzo (palavra escrava que definia a melancolia dos desterrados), houvessem explodido em uma data nacional contra a ditadora empedernida que os houvessem posto a correr, desesperados, no primeiro avião ou saltando fronteiras de mato, coyotes e malária. Vá lá, teriam seus motivos, teriam suas vozes aprisionadas na garganta e que, refugiadas em um país estranho, de outra língua, somente lá pudessem gritar contra quem lhes houvesse tomado direitos fundamentais. Mas não, a multidão histérica era composta majoritariamente de turistas, de trabalhadores eventuais, de estudantes, todos revoltados pela alta do dólar, todavia, ninguém exilado ou banido. Eram brasileiros bem nascidos, mais bem nascidos do que a maioria dos brasileiros, ou dos peruanos, americanos, italianos, salvadorenhos, filipinos, malaios, etc., e que estavam e estão em pleno gozo de suas prerrogativas de cidadania, nada os impedindo de ir e vir, sair e voltar quando bem quisessem.

Muitos deles pregavam a intervenção militar constitucional, a maior estupidez jurídica que ouvi nessa minha modesta encarnação, somente possível em ideações delirantes.               

Ver a Presidenta da República Federativa do Brasil, um Estado Democrático de Direito, ser vaiada por seus conterrâneos brasileiros no exterior, como fosse ela uma usurpadora do poder, que lhe foi confiado, gostemos ou não, pelo voto popular, em eleições livres e diretas, é desses momentos de amarga perplexidade. A fúria pessoal e sexista que ergueram contra ela lá na Big Apple dá a medida do ódio brutal e pessoal: basta um artista decadente e medíocre, de quinta grandeza, fazer uma crítica rasteira e odienta, para que uma multidão rica e ignata se atropele em ofensas que jamais profeririam, cada um individualmente considerado, caso estivesse em condições (quase) normais de temperatura e pressão.

Se considerarmos que a maioria dos integrantes do coro vulgar possui nível superior, é de classe média ou classe alta, e que teve acesso aos meios mais refinados de educação e cultura, todos representantes da fina flor da sociedade ordeira e pagadora de impostas, temente a Deus, temos que concluir que existe muito pouco a esperar da elite brasileira. Fico cá comigo pensando se em algum dia veríamos uma multidão de americanos endinheirados, cantando em Copacabana ou na Paulista, Obama, vai tomar no cú? Ou de franceses, ingleses, alemães? Que nível de renúncia à civilidade é preciso, para que se adote em um grupo economicamente elitizado um comportamento tão absurdamente rasteiro? Nos Estados Unidos, ricos brasileiros se uniram para xingar uma mulher democraticamente eleita… Até onde se descerá para externar tanto ódio estúpido e fulanizado? Estavam com suas famílias, filhos, crianças que viam e xingavam com seus pais, aqueles mesmos que lhes exige respeito, obediência e submissão. Vá entender.

Em uma democracia, o direito de protestar é tão natural quanto o ar que se respira e a cada dia mais me convenço que o direito à liberdade de expressão nos reclama largas concessões à estupidez. Permite-se a vulgaridade, mesmo que seja para uma multidão privilegiada gritar com um sub-cantor que a Presidenta deva ir tomar no cú; ela deve ou deveria saber que esse é um dos ônus do poder. Podemos ser vulgares, estúpidos, machistas, sexistas, afinal existe o lado de sombras da democracia, cujo sentido está em valorizar ainda mais o seu lado ensolarado e de liberdade de cada qual poder traçar para si seu projeto de vida. Os americanos, que não hablán português, nada entenderam e provavelmente tenham traduzido aqueles gritos como um Vai, Corinthians! Aê, Bahia!, sei lá. Nunca ouviram falar do plastificado cantor e certamente não deram a mínima para as baladinhas sem sal que ele canta. Soubessem, ficariam boquiabertos, até porque o Presidente da República dos Estados Unidos da América se constitui em um de seus símbolos nacionais, certamente o maior deles no exterior, representando todo o american people, democrata ou republicano.

Nós brasileiros nos esquecemos que somos representados pela Presidenta da República; até a forma como a tratamos, tão intimamente, pelo primeiro nome, como se fosse nossa cunhada mais odiada ou nossa professora mais temida, dá a medida, paradoxalmente, de sua importância e de sua legitimidade, para horror dos que a odeiam, inclusive para eles, que também a tratam simplesmente Dilma. Xingá-la, pois, com tanta vulgaridade, transcende a própria ofensa e retrata um rebaixamento da auto-estima do sentido de brasilidade de quem a atacou embrulhado na bandeira brasileira e pareceu não conseguir refletir seus muitos outros ódios, representados pelos valores dela e de seus defensores (cada vez menos), desde programas de transferência de renda até uma política externa que a faz aproximar-se de países ícones da ira santa do ódio brasileiro.

Não se dão conta que nos envergonharam, nem eles tampouco o sub-cantor que os embalou. Foi feio, desnecessário e baixo.

Roupa suja se lava em casa.         

Roberto Tardelli é Procurador de Justiça aposentado (1984/2014), onde atuou em casos como de Suzane Von Richthofen. Atualmente é advogado da banca Tardelli, Giacon e Conway Advogados, Conselheiro Editorial do Portal Justificando.com e Presidente de Honra do Movimento de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.              
Terça-feira, 8 de setembro de 2015
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