Por que essa criança?
Terça-feira, 8 de setembro de 2015

Por que essa criança?

Hoje, potências mundiais como a Alemanha, a Grã Bretanha e a França discutem como devem agir para responder à demanda de acolhida de refugiados que está sendo apresentada. Os países signatários da Convenção de proteção aos refugiados de 1951 têm a obrigação internacional de acolher refugiados que chegam até suas fronteiras na esperança de conseguir fugir da guerra e salvar suas vidas. Em 2014, alcançamos o marco de 4 milhões de pessoas que estão em deslocamento porque sofreram com as mazelas das guerras e/ou com perseguições de diferentes naturezas.

A Guerra na Síria é responsável pelo aumento significativo do fluxo de deslocados nos últimos cinco anos, mas, desde o início do ano de 2015, já foram registrados mais 12 outros conflitos ativos no planeta, incluindo Nigéria, Yemen, Afeganistão, Paquistão, República Democrática do Congo, Colômbia, República Centro Africana, Mali e Ucrânia, dentre outros. Os grandes holofotes estão voltados para a Síria, mas é preciso lembrar que pessoas de outros países também estão fugindo para buscar asilo além das fronteiras porque precisam salvar suas vidas e sua família. O Brasil, por exemplo, já recebeu solicitantes de refugio de 92 nacionalidades, de acordo com os dados oficiais do Ministério da Justiça.

Mas, a pergunta que me parece óbvia nesse momento é: Porque a foto de uma criança, em especial, conseguiu comover aqueles que nunca se preocuparam com o tema?

Para responder essa pergunta, lembrei de uma reflexão sobre genética que fiz, há algumas semanas, com um amigo mais inteligente do que eu. Ao debater a perfeição da natureza humana, chegamos à conclusão que os bebês nascem com as mesmas marcas físicas da sua família para que sejam amados mais facilmente. É a lei da proteção e da preservação da espécie. A gente protege e ama aquele que tem o nariz do papai, o olhar da vovó ou o nosso jeitinho de falar. É um instinto natural e, além disso, é o socialmente esperado. Dentro desse padrão de comportamento, nós amamos os semelhantes e, automaticamente, segregamos aqueles que não são iguais a gente e excluímos os que apresentam traços diferentes demais para nossos padrões.

Raciocinando a partir dessa lógica, me parece claro que as pessoas se comoveram com aquela foto porque o menino da praia estava de bruços e não tinha uma fisionomia definida no rosto. Ele podia ser nosso filho, nosso sobrinho ou nosso afilhado e esse pensamento aciona o gatilho inconsciente do amor incondicional. O fato daquele bebê estar com as expressões do rosto escondidas na areia foi determinante para chamar a atenção da comunidade internacional. Aquele bebê não tem identidade definida e, por isso, não entra na nossa zona de exclusão automática.

Quando olhamos o rosto sem vida de uma criança indígena que carrega todos seus traços culturais bem marcados, não nos emocionamos tanto. Quando testemunhamos a execução de uma criança negra de periferia que morre de barriga para cima, fazemos uma breve reflexão, mas o abismo que supostamente existe entre nós, não deixa a emoção chegar. Quando uma criança africana tenta fugir do seu país de origem porque passa fome, isso não nos comove porque somos treinados para olhar apenas as diferenças que nos distinguem. Quando pedimos a redução da maioridade penal e presenciamos a detenção violenta de crianças que supostamente erraram, congelamos nosso lado emocional porque pensamos que aquele jamais seria um filho nosso, ou seja, um filho saído do nosso ventre. A conclusão é dura, mas parece que somos incapazes de amar o que não é familiar. Por isso, quando presenciamos a morte de um bebê sem rosto, muito bem vestido e em posição angelical, acionamos o botão da familiaridade, reconhecemos aquele indivíduo na gente e nos sentimos responsáveis pela tragédia.

Dentro dessa lógica, deixamos escapar o fato de que todos nós somos, de alguma forma e em algum grau, irmãos. Ignoramos a globalização e a noção de que um evento acontecido do outro lado do oceano, nos afeta diretamente. A humanidade é una e isso deveria ser capaz de nos ligar de uma forma tão intensa que nos tornaríamos, automaticamente, responsáveis uns pelos outros. Deveríamos estar todos conectados, ligados e criando uma rede de responsabilidade e solidariedade internacional que acolhesse o diferente e fosse capaz de amar o não familiar.

A morte dessa criança é nossa responsabilidade, sim! Assim como as outras 3.000 pessoas que morreram naquele oceano, só em 2015. Essa não foi a primeira criança que morreu em uma travessia perigosa e nem será a última. Muitas outras crianças, idosos, mulheres e homens ainda morrerão enquanto não enfrentarmos a questão do deslocamento humano como pauta prioritária na agenda internacional, com a seriedade devida e com a capacidade de comoção que, finalmente, descobrimos que temos.

Gabriela Cunha Ferraz é advogada, militante, mestra em Direitos Humanos pela Universidade de Estrasburgo e Coordenadora nacional do CLADEM/Brasil.
Terça-feira, 8 de setembro de 2015
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