Eu confesso
Segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Eu confesso

Era uma vida diferente. O planeta era quase uma abstração e alguns países somente existiam no mapa-mundi enorme que havia no colégio, onde alguém marcou, num dia de fúria, capitais de nomes exóticos e nenhum me pareceu mais exótico do que Sofia, que era nome de uma vizinha meio tantã e nome da capital da Bulgária, misterioso país comunista. Minha mãe morria de medo de que eu viesse a aceitar uma bala deles, dos comunistas, dos subversivos, temia que eu conversasse com eles, todos ateus, sem Jesus no coração, que queriam fechar as igrejas e transformá-las em sindicatos. Ia ter greve no céu. Comiam criancinhas e mandavam os filhos para exóticos centros de educação na Sibéria, já que eles, os comunistas, detestavam as famílias e iriam acabar com tudo, se assumissem o poder. Os professores nos diziam que o destino dos comunistas era a cadeia, a sarjeta ou a homossexualidade (naqueles dias, ser homossexual era assumir-se como aberração da natureza e da moral e bons costumes) e que morriam pagãos. O padre que deixava a molecada jogar bola no seminário impunha sua certeza benta de que cada vez que um dos moleques se masturbava, matava milhares de bebês porque os espermatozoides, que conduziam a vida, eram jogados no ar hostil e morriam, levando consigo, cada um, a criança que nasceria, não fosse a crueldade erotizada e satânica daquele menino. Masturbar-se era, portanto, um gesto assassino. Comecei bem, genocida.

Nos cinemas, havia uma forte censura. Nos filmes para maiores de catorze anos tolerava-se que a atriz, de perfil, na penumbra e rápida como o raio, mostrasse o que poderia ser a sugestão do seio. Quando os personagens iam transar, a cena cortava para o dia seguinte. Nos de dezesseis anos, raros, apareciam os dois seios, de frente. Mas, era pouco. A imaginação ia muito além e todos nós falsificávamos nossas carteirinhas escolares para entrar no cinema, nos de dezoito. Uma geração de falsários e só quem fosse muito bocó, cagão, não falsificava. A gente raspava com gilete e escrevia o ano, suficiente para os dezoito, o quem nem sempre dava muito certo. Em um dos anos, errei a conta e falsifiquei para dezessete…. Quis morrer de vergonha.

Meu primeiro filme em que os personagens transavam foi emocionante e dele não me lembro mais lhufas, mas, lembro que cheguei em casa emocionado, quase adulto. Havia passado por um curso prático, com direito a audiovisual, foram anos para perceber que a censura prévia obrigava os atores a transarem debaixo de cobertas. Na floresta tropical, eles transaram sob as cobertas. Por incrível que pareça, acreditei naquela cena.

Mais tarde um pouco, já entrado na casa dos dezesseis/dezessete, vieram os riscos maiores. Um amigo nosso sabia guiar e seu pai dormia pesadamente sempre (única lembrança verdadeira que tenho daquele senhor). Ele subtraía as chaves e íamos participar de rachas de carros, que depois fui saber chamar-se de disputa clandestina de velocidade, ele na direção e eu participação penalmente relevante, no apoio moral. O fusca 1300 roncava bravo para subir a Avenida Ribeirânia, contornar a rotatória da UNAERP e descer a milhão. Descíamos a cento e vinte por hora, num fusca 1300, coisa para bravos insanos. Lá em Ribeirão Preto.

Um dia, num surto de atroz crueldade, a professora perguntou na prova: qual o sujeito de Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico o brado retumbante? Terror coletivo, última prova do ano, era o abismo. Remontei a frase: As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico… Xis! Era isso, o sujeito da frase: as margens plácidas! A professora me olhou furibunda. Essa experiência me fez passar a odiar o Hino Nacional, incompreensível, cheio de inversões de frases e, vou além, sou capaz de apostar que setenta por cento das pessoas que lerem estas linhas não fazem ideia do que vem a significar esses estranhos versos: Se o penhor da igualdade conseguimos conquistar com braço forte, No Teu seio, ó liberdade, desafia nosso peito a própria morte…  Rapaz! Odiar o hino deve ser algum fato típico por aí.

Sofia, aquela vizinha meio tantã, louca louquíssima, tomava sol desamarrando a parte de trás do biquíni. Seu irmão avisava a gente, quase cobrando para vê-la, semi-nua, de costas. Hoje, imagino que fosse, ainda mesmo que na ditadura militar, um fato estranho ao direito penal, mas sabe-se lá, há denúncias para todos os gostos. E, na pior das hipóteses, ela foi inspiração para mil genocídios punidos pelo padre do seminário. No mínimo, uma qualificadora para a chacina de espermatozoides que seu banho de sol provocava.

Comia-se frango fresco e a morte do galináceo era sempre impiedosa, perdoe-nos a geração vegana, eles não haviam descido de seus discos voadores ecológicos ainda, naqueles dias em que era razoável e exercício regular de direito destroncar o pescoço do penoso amigo, até sua morte horrenda. Minha avó não perdoava. Apertava a galinha pelo pescoço e a girava até quebrar tudo. A galinha implorava, gemia, debatia-se, mas estava marcada para morrer; depois, um corte profundo (eu segurava a vasilha, onde caía o sangue da bichinha). Me lembro perfeitamente de senti-la pulsando morta nas minhas mãos. Uma vez tentei matar um pato e o resultado foi uma carnificina pela singela razão de ter ele se recusado seu duro fim e ter decidido por sua vida com as forças que lhe restavam. O que tive que fazer para matá-lo, nem quero lembrar esse dia… Mas, juro pelos deuses pagãos todos reunidos em assembleia, que nunca mais na vida tentei matar um pato.  Ou ganso. Ou qualquer outro ser que voasse por conta própria. As memórias daquele dia foram suficientes.

Mastiguei a hóstia na primeira comunhão e terei reservados anos de purgatório pela mastigação impiedosa do Corpo de Cristo. A professora do catecismo dizia que esse era um pecado mortal: nós deveríamos levar a hóstia ao céu da boca e deixá-la dissolver-se para nossa purificação, algo assim como magrelas e magrelas comem chocolate. Não sei o que me deu, mas mastiguei e vi os olhos do padre me fuzilarem de ódio. Tu vai ver, moleque, o castigo! Meu crime celestial estava consumado e só vou saber o que virá, no dia em partir desta para a melhor. Espero ter alguma tese de defesa ou possibilidade de contar com algum anjo defensor dativo, já que não terei um tostão, uma vez que da vida nada se leva.

Nos bailes de carnaval e nos bailes avulsos da cidade, integrei um coletivo de garotos que se ocupava na distribuição sem lucro de lança-perfume. Nunca vi ninguém morrer e os que exageravam, vomitavam as tripas e os pais se encarregavam do resto. Duas da manhã e o salão recendia ao que poderia ser chamado de Elo Perdido do Jequiti.

Fumava talo seco de mamona. Daí para a maconha foi um passo para toda molecada. O Carlinhos era um brother, que morava nas cercanias e, como todo bom maconheiro, era expansionista, ficava sinceramente feliz em dividir a diamba (li essa palavra num Acórdão e quase caí sentado, nunca, palavra de honra, imaginei que houvesse fumado diamba). Dezesseis para dezessete. Quase dezoito. Nessas sessões fumacê, rodava o Carlos Zéfiro, um apócrifo livreto tosco de pornografia, com nomes que seriam hoje de fazer rir: A Dama Erótica, A Empregada do Prazer, A Professora que Ensinava Sacanagem (inventei. Mas era por aí) e muito rock’n roll e músicas lindas de Chico, Milton, Caetano e muita gente que garantia fosse possível um mundo menos injusto.

O mundo menos injusto era tudo com o que sonhávamos, cada um no seu recorte de sonho e cada um levado pelas circunstâncias pessoais e acasos que movem nossas vidas. As experimentações ilícitas nos serviram para que tivéssemos mais claro o caminho de uma espécie de legalidade acolhedora, até por nos ter permitido entender que algumas proibições são inteiramente loucas e que existem para consolidar o poder de quem as estabeleceu.

Não imaginávamos que a transgressão da lei poria em risco o sono tranquilo da sociedade ordeira e pagadora de impostos. Tampouco havia entre nós certezas de impunidade, afinal fazíamos escondidos de nossos pais, professores e todo o mundo adulto que nos rodeava.

Havia viaturas e policiais e generais caçadores de comunistas, aqueles mesmos que acabamos, finalmente, por conhecer e por descobrir que eram legais ou chatos, independentemente de serem comunistas ou não. Eram caras comuns que pensavam diferente, nada mais. Carlinhos virou engenheiro, pai de família, engordou, fez cirurgia de estômago e me disse pela rede social que iria para a passeata, protestar contra tudo isso que está aí. Quem diria, tornou-se francamente contrário à descriminalização do porte de drogas para uso pessoal. Um absurdo contra as famílias, vociferou, completamente esquecido daquele jovem engraçado e maluco de décadas atrás.

Quando o lembrei de nossas aventuras, ele se ofendeu e me chamou de petralha. Desliguei o computador e fui dormir, pensando que o Carlinhos de antes dava de dez a zero no de hoje, bariatricamente reduzido a uma pessoa triste e acuada. Um cara comum.

O Carlinhos de outrora era muito mais interessante.

A campanha EU CONFESSO nada mais é que uma tentativa de convencer os adultos a relembrarem-se de quando eram adolescentes e de como seria se houvessem sido tratados da mesma forma impiedosa que pretendem tratar os jovens de hoje. É uma tentativa de abrir a memória e o coração, não para despertar ainda mais tolerância incompreensão. É só para eu a gente – todos nós – não nos percamos de quem um dia fomos, nos tempos em que ainda não éramos, porque estávamos em processo de formação.

Segunda-feira, 14 de setembro de 2015
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