Sobre “posts” e curtidas: somos todos o inimigo?
Terça-feira, 22 de setembro de 2015

Sobre “posts” e curtidas: somos todos o inimigo?

Em tempos de comunicação ao alcance de um “click”, propagação de “notícias” e informação por meio de redes sociais, blogs, “conteúdo especializado”, entre outras formas de se obter “conhecimento”, nos dias atuais, é possível vislumbrar certos fenômenos sociais acerca do comportamento populacional.

Há um tempo, visualizei publicação em rede social do professor Gustavo Noronha de Ávila, o qual desde já agradeço por tornar esta opinião pública, na qual constava:

“Estamos testemunhando a era da falência do diálogo: ofensa vira argumento, sofisma vira crítica e ódio é entendido como manifestação de pensamento (?). Época triste essa.” [1]

Com o passar dos dias e analisando a forma com que as construções sociais nestas paginas vêm se desenvolvendo, retornei ao teor da postagem, mas dela me restaram apenas dúvidas, a principal delas, como chegamos até este ponto?

Nos dias de hoje é perceptível que, quanto às relações interpessoais, principalmente por meio da rede mundial de computadores, vivemos quase que em guerra. Ao pensar novamente na semântica das palavras do autor, é possível associá-las a certas “ocorrências” diárias, muitas dessas que nos envolvem.

Vejamos:

Ofensa [2]: “Comportamento ou discurso que faz com que uma pessoa seja vítima de injustiça; palavra que deprecia; que possui a capacidade de injuriar ou afrontar.”

Não raras vezes, no decorrer do dia nos deparamos com ofensas, hoje mesmo ao visualizar uma notícia esportiva me deparei com discussão em adiantado estágio de xingamentos e palavras de baixo calão que já mais em nada condiziam com a publicação, juro que tentei encontrar onde havia se dado o início do embate, mas cansei.

A argumentação mais simples nos dias de hoje é atacada ferozmente com verdades absolutas e senso comum rasteiro, onde nem todo o embasamento técnico e/ou científico dá conta de fazer ser entendido.

Em resumo, as pessoas estão acreditando no que lhes convém, e levando aos mais absurdos níveis a defesa dessas ditas opiniões, mas que nada mais são que uma necessidade quase que esquizofrênica de estar certo. Acompanhada quase sempre do efeito silenciador do discurso [3] virtual.

Sofisma [4]: “Lógica. Discussão argumentativa que supostamente demonstra a verdade, contudo possui em sua essência características ilógicas.”

Certos discursos são tão travestidos de lógica, e apresentam verossimilhança tão contundente que por si são suficientes para inflamar uma parte considerável dos consumidores desta “informação” – se aparenta verdade e já há predisposição a concordar com aquilo. É como se o fogo se desvelasse novamente ao ser humano, pois agora há embasamento de quem quer que seja, e está na internet, então tem de ser verdade.

De qualquer forma que se tente contrapor essa lógica simplificada das coisas somos combatidos quase que automaticamente pela frase: “essa é minha opinião”, e por tal razão deve ser respeitada. Essa é outra questão que não consigo encontrar suporte fático na humanidade para justificar: quando foi que deixamos de entender que contrapor nossas ideias não significa que estamos nos contrapondo?

Ódio [5]: "Sentimento de profunda inimizade; paixão que conduz ao mal que se faz ou se deseja a outrem. Ira contida; rancor violento e duradouro. Viva repugnância, repulsão, horror. Aversão instintiva, antipatia.”

Esse foi o pensamento que mais me tomou tempo. Onde foi que falhamos tanto enquanto sociedade que sentimos imenso prazer em desejar o mal a outrem; não apenas isso, nossos discursos se inflamam frente ao que julgamos certo e errado, quando em muito ao nosso lado temos somente empirismo.

Não é difícil ver comentários que não somente desejam a morte de alguém, mas intenso sofrimento, perda de membros, aviltações sexuais e morais, quase que numa Ode à Violência. E nem de longe essas manifestações se restringem a conteúdo de notícias criminais, é geral.

Estruturalmente, nossa sociedade e o ser humano tem tendência à violência, é bíblico, é histórico, e absolutamente atual. Mas a respeito dessa disseminação de ódio gratuita e irrestrita, me consome tentar entender como posso me julgar boa pessoa se na primeira oportunidade que tenho quero eliminar o outro.

Seriamos todos nós personificações do “inimigo” de Jakobs, e ao mesmo tempo seus combatentes?

Quando o Estado falha em nos proteger, realmente tenho o Direito em fazer justiçamentos, ignoro de vez à humanidade que possuo, para satisfazer o mais primitivo dos instintos humanos que é o de ser violento?

A simples eliminação do que meu senso de justiça pessoal diz estar correto, basta para que me tranquilize frente a esse desejo feroz de violência.

O Estado falha em quase todas as áreas que deveria gerir e/ou contingenciar, em contraponto aos impostos cobrados, porém a mais ruidosa falha diz respeito à segurança pública e o direito social de segurança (artigos, 6º e 144 da CF/88).

A civilidade necessita de oxigênio nos tempos atuais, a segurança na emissão de juízos de valores pessoais do conforto de nossas casas da falsa sensação de segurança, porém há de se ter em mente que ao menor descuido a estrutura da sociedade como conhecemos pode ser desvirtuada no mais inocente dos “clicks”, não pela ação individual, mas por toda a carga de “curtidas, reposts e comentários” que traz consigo, aí de fato viveremos em uma época triste.

Fabrício da Costa Venâncio é Bacharel em Direito graduado pela Universidade de Caxias do Sul, Ex Voluntário e Estagiário Forense da Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Sul, Ex Estagiário da 1ª Vara Criminal, Tribunal do Júri e Execuções Criminais do TJRS, trabalha na Rossi Advocacia – Vacaria/RS.


REFERÊNCIAS
[1] https://www.facebook.com/gustavonoronhadeavila/posts/10203648078561701?fref=nf&pnref=story (visualizado em 02/09/2015).
[2] http://www.dicio.com.br/ofensa/ (visualizado em 21/09/2015)
[3] Expressão do professor Owen Fiss, Jurista da Universidade de Yale – EUA in A Ironia da Liberdade de Expressão., “A tese é a de que, por conta de fatores econômicos ou culturais presentes na estrutura da sociedade, as manifestações expressivas de grupos hegemônicos acabam por “abafar” aquelas emanadas de estamentos menos favorecidos, condenados à invisibilidade e ao silêncio no grande debate público.” (…) “tal circunstancia distorce o processo de formação da razão pública, já que as ideias dos grupos desfavorecidos não chegam – ou, pelo menos, não chegam em igualdade de condições – ao conhecimento de leitores, ouvintes e telespectadores.”
[4] http://www.dicio.com.br/sofisma/
[5] http://www.dicio.com.br/odio/
Terça-feira, 22 de setembro de 2015
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