A violência no Rio acontece todos os dias e você não vê
Sábado, 26 de setembro de 2015

A violência no Rio acontece todos os dias e você não vê

Cena comum, todo verão é igual. Nada mudou! Não entendi o espanto. Mas, quando reparei nas manifestações das pessoas quanto ao ocorrido, percebi dois horizontes de projeção no destilar do ódio sobre os fatos. A opinião raivosa e histérica do senso comum, que viu seu espaço público ocupado, e de outro lado, a opinião maldosa e cruel das autoridades responsáveis.

Mas é sempre assim: Ônibus lotado, baderna, gritaria, música alta, batucada. E daí? Qual o problema? É crime isso? Tipo:

– Coé mané, não tenho um real!

– Vamu assim mermo, lá é de grátis, a gente se vira mermão.

– Pode crer, demoro, puxa o bonde.

Assim é a vida de quem mora longe do lazer gratuito, mas perto da violência. Assim é o dia a dia daquele que se vira diariamente pra trabalhar. Morador do Rio sabe: quem nunca foi abordado na rua por alguém pedindo dinheiro pra pagar a passagem de volta pra casa? Me diz!

Na praia é o lugar onde não existe ostentação; todos são iguais, rico e pobre, negro e branco ocupam o mesmo espaço, usufruem da mesma maravilha, curtem a mesma sintonia e fazem as mesmas coisas. Cada um à sua moda, estilo e gosto. O que você tem a ver com meu gosto, estilo e forma? Nada! Então não me critique.

Muitos se espantam com cenas de violência. Essa violência explícita. Todos se espantaram com as cenas de barbárie nesse último domingo. Sério mesmo? Que barbárie? Que cena de terror? Me poupem dessa hipocrisia, o dia-a-dia carioca é infinitamente mais perigoso em suas mais espécies e formas de violência. Mas, normalmente essa violência diária não é divulgada e muito menos destacada, até por que, aqueles que sofrem não são interessantes para a mídia e principalmente para o Estado. E as pessoas não afetadas, Ahhh a frase já diz: elas não foram afetadas, logo, não se interessam.

Muitos não percebem, e também não querem ver, o que diariamente a violência simbólica faz. É uma violência invisível, silenciosa, mas que machuca e penetra não no corpo, mas na alma e no inconsciente daqueles que sofrem; é precisamente ela que sustenta a normalidade, melhor, a ordem pública, excluindo aqueles que possivelmente possam atrapalhar essa paz social.

Mas os hipócritas se importam sim, se preocupam com os excluídos, em ato contínuo à exclusão, à violência simbólica, vem a compaixão, a necessidade de expor palavras e vontades caridosas. Que nojo! Possuem um sentido humanitário do que é urgente e relevante, e sem dúvida sobredeterminado, por considerações claramente de ordem política. Essa ordem pública da normalidade está ligada nitidamente aos interesses da classe dominante, que dita as regras e faz valer sua própria vontade, em alguns aspectos de cultura, como o tipo de música, a forma de se vestir, o estilo do corte de cabelo, o esporte a ser praticado e assim por diante.

Por meio desse falso sentimento de urgência, os ricos pós-industriais vivem em seu protegido mundo de bambuluá (imaginário), e não negam, nem ignoram a dura realidade exterior, pelo contrário, referem-se a ela a todo momento. Afirmando sempre que algo deve ser feito, mas nunca esse algo é feito.

A alta potência do horror diante dos atos violentos e a empatia com as vítimas funcionam inexoravelmente como engodos que impedem a todos de pensar. Criam discursos separatistas, onde uns querem o fim da baderna em nome da ordem pública e outros querem a verdadeira subversão da ordem pela baderna (particularmente adoro).  

Sinceramente, o que entendo como necessário na análise desse fato, que não é isolado, é que deva passar pelo saber de que tipo de descrição se procura na análise dos fatos: A da baderna ou da ordem pública. Sinceramente, nenhuma das duas.

Certamente, não se trata de uma descrição realista da situação, mas daquilo que o poeta chamou de descrição sem lugar que é própria da arte. Não é uma descrição que localiza seu conteúdo em um espaço e tempo históricos, mas uma que cria, como pano de fundo dos fenômenos que descreve, um espaço inexistente que lhe é próprio, de tal maneira que aquilo que aparece não é uma aparência sustentada pela profundidade da realidade subjacente, mas uma aparência descontextualizada, que coincide plenamente com o ser real [1].

Então quer dizer que não devemos fazer nada? Sentar e esperar? Deixar as coisas acontecerem? Sim, exatamente isso! Que droga alguém ter de dizer isso. A cada um compete decidir de acordo com a profundidade do abismo de sua liberdade, assumindo a plena responsabilidade por sua escolha. Você pode optar em praticar uma violência ostensiva, uma violência ideológica ou parar para pensar o que realmente está errado  (se é que tem), e como fazer para não mais sustentar atos de violência, independente de qual seja a forma de violência.

Mas uma coisa deve ficar bem clara: devemos sempre negar todas as formas de violência física e ideológica. Mas sempre dirão: Não foram vocês que fizeram tudo isso? Defensores de bandidos. Leva pra casa. Quero ver se fosse seu filho ou sua mãe. Mas sinceramente: Esse é o verdadeiro resultado de sua política. Porque, ao aplaudir e incentivar o ódio aos que saíram de suas casas para gritar nas praias, simplesmente está endossando uma atuação criminalizante maldita e discriminatória.

Seja sincero consigo mesmo, será que o fato de morar em área nobre lhe faz melhor que algum deles?  

A lição é que devemos resistir ao fascínio da violência explícita que aterroriza pelas imagens e fere a carne, violência essa exercida por agentes sociais, indivíduos maléficos, aparelhos repressivos; o nome já diz, a violência é visível. Mas só um minutinho: a violência simbólica diariamente continua sendo praticada, por você e pelo Estado. Será que isso não importa? Será que um dia aqueles que sofrem essa violência não irão se rebelar e implodir uma expressão de violência visível como um grito de desespero e de dor? Quando isso acontecer, lembre-se que o principal culpado é você, propagador e malfeitor da violência simbólica diária, tal qual o pão nosso de cada dia.

Thiago M. Minagé é Doutorando em Direito pela UNESA/RJ; Mestre em Direito Pela UNESA/RJ, Especialista em Penal e Processo Penal pela UGF/RJ, Professor da Pós Lato Sensu da UCAM/RJ, de Penal e Processo Penal da UNESA/RJ, Coordenador da Pós Graduação Lato Sensu em Penal e Processo Penal da UNESA/RJ e da graduação da UNESA/RJ unidade West Shopping; Professor visitante da EMERJ (Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro), Membro da AIDP – Associação Internacional de Direito Penal e Autor da obra: Prisões e Medidas Cautelares à Luz da Constituição – publicado pela Lumen Juris.

REFERÊNCIAS
[1] Slavoj Zizek. Violência. Editora Boitempo.
Sábado, 26 de setembro de 2015
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend