O que você vai ser quando você crescer?
Segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O que você vai ser quando você crescer?

Em “Para viver um grande amor”, Vinícius de Moraes nos exorta a saber ganhar dinheiro com poesia. Muito provavelmente, embora existam alguns diletantes, guerreiros e guerreiras, que conseguem tirar das letras o seu ganha-pão, acredito que Vinícius não tinha o objetivo literal de que nos profissionalizássemos em saraus, vendendo versos no varejo e estrofes no atacado para sobreviver.

Mas o que significa então ganhar dinheiro com poesia? Talvez a resposta passe por uma palavra que, nestes conturbados tempos de individualismo fratricida, encontra-se cada vez mais esquecida: vocação. As noções de êxito pessoal e profissional se encontram cada vez mais objetivas, representando finalidades pré-determinadas por valores que apontam para a unívoca definição do que seria “vencer na vida”. Matar-se estudando para concursos públicos no afã galgar seu espaço na burocracia estatal em determinados cargos com salários polpudos é um dos mais emblemáticos exemplos dessa objetividade, onde a motriz do que se escolhe “ser quando crescer” se dá cada vez mais por razões alheias à empatia com o próprio conteúdo da atividade profissional em si.

Cria-se, assim, pessoas cujo objetivo maior é conseguir uma vida financeiramente confortável e gozar do pacote completo de prestígio e consagração que vem na esteira do cargo que escolheu. Frise-se que é mais do que legítimo e natural querer uma vida de conforto e reconhecimento, desde que não se adote a lógica de que após a posse e a nomeação o que vier é lucro.

O resultado desse ponto de vista: o franco descompromisso com o potencial emancipatório de postos chave para a concretização de um regime que está longe de ser verdadeiramente democrático. Magistratura e Ministério Público, por exemplo, não raro acabam na prática se tornando mais um obstáculo do que um instrumento para a realização das incontáveis promessas constitucionais não cumpridas. Não adianta eleger a erradicação da pobreza e da marginalização como objetivos fundamentais da República se estes valores não são levados em consideração por quem detém – ou almeja deter – o poder institucional de fazer algo para alcançá-los.

Saber ganhar dinheiro com poesia é, portanto, conseguir conciliar seus naturais potenciais criativos e vocacionais com sua profissão, evitando que sonhos sejam mutilados por padrões de sucesso e realização autoritariamente empurrados pelo senso comum. Contrariar vocações é, muitas vezes, o primeiro passo para a frustração. Note-se por fim que não são os tecnocratas que tornarão o mundo um lugar melhor, mas aqueles e aquelas que, parafraseando uma famosa canção d’O Rappa, com poesia, ação e reflexão não se deixam sentar na poltrona no dia de domingo.

Gustavo Henrique Freire Barbosa é advogado, membro da Comissão de Estudos Constitucionais da OAB/RN, membro da Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares (RENAP), integrante do Instituto de Pesquisa e Estudos em Justiça e Cidadania (IPEJUC), mestrando em Constituição e Garantia de Direitos pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
Segunda-feira, 5 de outubro de 2015
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