A linguagem da dominação
Terça-feira, 6 de outubro de 2015

A linguagem da dominação

A sociedade em que vivemos se organiza em diversas cadeias de exploração. Uma delas é justamente aquela que se utiliza dos animais para diferentes finalidades: alimentação, entretenimento, experimentação científica, vestuário… Seja nesta forma mais direta ou por meio da linguagem e semiótica, a exploração animal parece ocupar um lugar central na sociedade, contribuindo para a perpetuação do especismo, ou seja, da ideia de que humanos têm mais valor do que os animais, sendo moralmente justificada sua subordinação.

A linguagem e os discursos são fundamentais para a manutenção dos sistemas exploratórios, tanto quanto para sua libertação. Afinal,  é somente na democracia que se garante a liberdade de expressão e se abrem espaços para que vozes dissidentes se manifestem. Por outro lado, o especismo é tão arraigado que se manifesta amplamente na forma pela qual os animais são retratados na linguagem. Como nossas sociedades se estruturam em torno de múltiplas formas de opressão, esses sistemas se alimentam mutuamente e temos especismo, racismo, heterossexismo e machismo sendo mútua e continuamente reforçados pela linguagem.

Assim, o jogador de futebol vira macaco, o homossexual “viado” e a mulher é multifacetada (ou multianimalizada): vaca, galinha porca, orca, baleia, pata, cobra, piranha. Homens, contudo, não escapam da animalização, mas são frequentemente privilegiados ao serem associados com um aspecto positivo da sexualidade: são garanhões ou fortes como um touro (desde que sejam heterossexuais, é claro). Não custa lembrar que todos aqueles animais associados às mulheres se relacionam a supostas características "naturais femininas", mas consideradas negativas.  Nesse contexto, a sexualidade venerada dos homens é a mesma reprimida nas mulheres por meio da culpabilização da vítima de violência sexual ou da negação do exercício da autonomia quantos aos direitos sexuais e reprodutivos. Esses direitos  incluem desde a livre orientação sexual e identidade de gênero, até decisões sobre a concepção ("se" e "quando" engravidar ou interromper uma gestação, por exemplo).

Em uma cultura especista, na qual os animais são vistos como inferiores aos humanos, a animalização das mulheres e outros grupos em situação de vulnerabilidade associa-os ao status inferior dos animais, nos termos da perspectiva especista dominante. Por outro lado, a natureza e os animais são feminilizados pela linguagem quando se afirma, por exemplo, que a natureza é mãe (não “pai”) e isso supostamente permite que ela seja dominada, explorada, conquistada, da mesma forma pela qual as mulheres também o são, na lógica machista. Nessa mesma linha de raciocínio, o solo é fértil (não "potente") (WARREN, 2000) e nele tudo se permite: extraem-se minérios e contamina-se com agrotóxicos.

Lembrar que a linguagem não é neutra e pode ser um forte instrumento de dominação é fundamental para a libertação animal e humana, na medida em que a maneira com a qual nos referimos aos seres e coisas no mundo se relaciona diretamente com a forma pela qual são tratados.

Tamara Amoroso Gonçalves é advogada graduada pela PUC/SP e mestra em Direitos Humanos pela USP. Membro do CLADEM/Brasil, do Grupo de Estudos sobre aborto (GEA). É também integrante do Conselho Consultivo da Doctors for Choice Brazil e pesquisadora associada do Instituto Simone de Beauvoir, Concordia University, Canadá.
Daniela Rosendo é professora, mestra e doutoranda em Filosofia pela UFSC. É integrante do Comitê Latino Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos das Mulheres (CLADEM Brasil).
Terça-feira, 6 de outubro de 2015
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