O silêncio corrosivo do racismo no mercado de trabalho
Sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O silêncio corrosivo do racismo no mercado de trabalho

Temos o fenômeno da violência nas grandes cidades o assunto protagonista nas rodas de discussão, tanto acadêmicas quanto populares. Todos são hábeis em propor soluções. Alguns, pautados no viés político da esquerda, que concentra seus esforços para solucionar a luta de classes que, segundo ela, é o mote de todos os problemas sociais.

Alguns se pautam nas medidas de coibição e endurecimento do policiamento e na punição com maior severidade, mostrando um claro desconhecimento do jogo da causa e efeito que esse caminho pode agravar.

O fato é que poucos, muito poucos, se aprofundam no tema e mostram uma preocupação com a eliminação das causas que dão vida para essa situação temerosa em que vivemos. Ocupamos um espaço geográfico chamado de Brasil, que mantém, entre outros vícios sociais, o triste hábito de protelar intervenções nas raízes dos problemas, concentrando todo e qualquer esforço na sua solução imediata das consequências, negligenciando de maneira conveniente suas causas. Claro, lidar com problemas estruturais e tão complexos é um desconforto que exige coragem e autoestima. Não temos nem um nem outro.

São muitas as discussões e decisões adiadas por insegurança da população, aliada à falta de humildade em se declarar ignorante diante dos problemas coletivos. Também por manipulação política, por que o Estado necessita dessa alienação para manter seu padrão de exclusão de minorias e valorização de privilégios – seus privilégios.

Mas os problemas estruturais têm vida própria e ninguém sabe o que fazer com eles. O looping de propostas e tentativas frustradas só faz com que, ao passar do tempo, esses problemas se agravem, alimentando uma bomba relógio que esboça reações de estagnação, vide praias cariocas.

Algumas semanas atrás, o prefeito Fernando Haddad inaugurou um site especializado em vagas de empregos para negros. Até pelo fato da notícia não ter um alcance expressivo, como a implementação de cotas, por exemplo, os ruídos foram mais baixos. Mas, ainda assim, desgastantes para quem acompanha chats e discussões virtuais que, embora alguns gostem de desmerecer a validade desse veículo, é inegável que trata-se de um retrato fiel e em tempo real do pensamento da nossa sociedade.

Pessoas brancas e não brancas apressaram-se em acusar a iniciativa de ‘racista’, argumento também usado sobre as cotas estudantis e todas as medidas afirmativas implementadas na era PT.

Mas será? Podemos mesmo concluir isso e fazer valer o vício social que temos de não aprofundar questões pontuais para o coletivo, ou devemos nos apoiar em dados concretos, medidos por profissionais que vêm prestando esse serviço de medição e diagnóstico da situação da população, como o IBGE e o IPEA, por exemplo?

Muitos vão contestar, mas é evidente que a violência é um problema social diretamente relacionado com a divisão de classes. Uma vez que temos uma classe se favorecendo em detrimento da outra, abre-se aí um abismo social que, a longo prazo (digo longo pelo histórico pacífico do povo brasileiro), culminará nas vistas da sociedade da pior maneira possível.

O que o racismo tem a ver com isso?

Tudo. Absolutamente tudo. As classes existem e a hierarquia entre elas também. Mas não passou da hora de ler essa equação inteira e concluir que raça informa classe? Não é possível que isso deva ser desenhado. Essa linha de raciocínio vai descambar numa das causas, também, da violência instaurada. Daí, outra vez a necessidade de uma leitura profunda na questão do protagonismo, não enquanto sinônimo de destaque meramente relacionado ao entretenimento – como pessoas brancas e não brancas adoram dizer de militantes intelectuais negros em tom de acusação e deboche -, mas sim como atores e articuladores circunstanciais de um meio social que ocupamos.

Pessoas negras constituem uma representatividade sólida na camada social mais baixa. Estudos apontam para a população negra como uma das maiores vitimadas pelo fenômeno da pobreza no mundo, ao lado da informação de gênero que aponta para mulheres e meninas. E é inegável que há um peso racial grande. Nem todo pobre é preto, mas a maior parte dos pretos são pobres.

Diante dessas informações, podemos refletir que, dentre as causas da população negra ocupar majoritariamente a camada da pirâmide social mais pobre, está a empregabilidade e as relações trabalhistas. Não se pode ascender socialmente sem uma base estudantil devidamente garantida. A maior parte das pessoas brancas, cujo futuro é circunstancialmente garantido, tem elevado nível de estudo. A população negra, após um século de escravidão, recebeu debaixo de forte oposição a dádiva das cotas como medida reparatória para os estragos do trabalho não remunerado no período colonial.

A eficiência da medida é válida e abriu oportunidades, que embora pouco expressivas, são bastante significativas para uma população que experimenta o abandono de políticas públicas efetivas que a beneficie.

Esse desafio está a duras penas sendo encarado pela população negra. Mas, e depois que esses negros saem de suas faculdades e partem para a luta do mercado de trabalho?

Aí, experimentam o racismo atuante.

Fica evidente que a questão de classes sociais não será resolvida senão em conjunto com opressões históricas como as raciais e as de gênero. E não é o déficit de vagas que dá o tom do problema, mas sim a rejeição do mercado a pessoas negras, antes estabelecido pela aparência e agora com mais um agravante: o fato dessas pessoas negras serem cotistas.

E o drama do racismo nas relações trabalhistas não é exclusivo das pessoas negras diplomadas. Ele atinge todos os setores. Mesmo pessoas negras carregando nas costas os estereótipos que impõe trabalhos não intelectualizados, o que resulta numa suposta aceitação para trabalhos braçais, esses espaços só são garantidos na ausência de pessoas brancas.

É bom que se seja devidamente cravado no senso comum do brasileiro que, para cada problema, várias nuances e condicionantes devem ser analisadas com imparcialidade. Não podemos mais limitar discussões no âmbito acadêmico às vozes de quem não tem condições de codificar que as principais diferenças de classes sociais são parte inseparável da questão racial e de gênero. É infantil não abrir a visão para esse fato irrefutável.

É confortável para a pessoa branca manter a situação dessa forma, concentrando nos seus iguais as melhores oportunidades em detrimento de pessoas de outra etnia, como negros e indígenas.

Mas, embora confortável, não podemos afirmar que seja seguro. A recusa em pulverizar essas oportunidades, bem como de democratizar os caminhos que levam a ela, pode silenciosamente irromper em problemas sociais que afetam a todos. Cada pessoa negra presa ou marginalizada é um portal aberto para futuras manifestações no crime.

Evidente que esse viés deve ser considerado e apoiado pela população, sob pena de ter que conviver com o quadro social tal qual ele está, com a probabilidade de uma piora sistemática.

A criminalidade sabe que cada pessoa negra rejeitada pelo mercado de trabalho pode representar um trabalhador informal e/ou ilícito – ainda que, fazendo um recorte de gênero, constatemos que as mulheres negras são as mais prejudicadas. Sabe-se também que o genocídio imposto à população negra pode até funcionar como medida higienista, mas não como medida estrutural, pois garante a satisfação momentânea da população branca, mas deixa brechas e aparas que mais cedo ou mais tarde vão colocar essa população branca contra a polícia, uma vez que seus medos vão persistir.

A criminalidade sabe aliciar pessoas negras e tem um argumento muito funcional, usado há anos, com eficiência comprovada. Mas o mercado de trabalho, onde a classe dominante, prioritariamente branca, atua livremente, não.

Joice Berth é Arquiteta e Urbanista pela Universidade Nove de Julho e Pós graduada em Direito Urbanístico pela PUC-MG. Feminista Interseccional Negra e integrante do Coletivo Imprensa Feminista.
Sexta-feira, 16 de outubro de 2015
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