Por uma linguagem mais solidária
Sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Por uma linguagem mais solidária

 

“Sempre precisei de um pouco de atenção

Acho que não sei quem sou

Só sei do que não gosto

E destes dias tão estranhos

Fica a poeira se escondendo pelos cantos”

Uma repórter que incentiva o ódio e influencia publicamente o linchamento das pessoas. Um deputado aclamado por grande parcela da população repudia os direitos humanos. Outro deputado faz discurso de ódio contra a homoafetividade. Uma autoridade religiosa difunde em seu twitter o egoísmo, faz críticas injustas a uma linda história infantil que fala de amor e solidariedade, sob o argumento de que ninguém é responsável pelas expectativas criadas nos outros. Nas ruas, uma criança de aproximadamente onze anos, vestida de verde e amarelo, protesta: “País sem corrupção é país onde rico manda, pois quem é rico não precisa roubar”.

Sabedoria popular? Senso comum? Educação familiar? Talvez, especificamente com relação àquele garoto, uma falha na educação social e no processo de conscientização. Provavelmente, ele e tantos outros tenham aprendido da maneira mais distorcida uma verdade travestida de silogismo barato: se ricos não precisam roubar, logo não haveria de ter corrupção nos mais altos escalões. Também, em razão daquele silogismo, aprendera que pobre rouba porque precisa. Faltou-lhe, então, nesse aprendizado, a consciência para reivindicar direitos para os pobres para que esses não precisem roubar. Furtaram dessa criança a capacidade de pensar na possibilidade de construir um mundo diferente.

Do interacionismo simbólico, de George Herbert Mead

Aquele cartaz nada mais é do que o retrato das realizações práticas da sociedade mediadas pela linguagem, em razão daquilo que as pessoas falam, da forma como elas falam, do que ocultam ao falar, em razão da direção da linguagem verbal.  E essa linguagem, na “era das redes sociais” é, ainda, de forma mais latente, um perigo para a construção social, que acaba por ter sua fonte apenas atores sociais que são membros de uma parcela específica da sociedade, porque são aqueles que acessam a rede, aqueles que detém visibilidade nas palavras que proferem, que circulam o maior número de mensagens e aqueles que mantém o maior número de “amigos” e seguidores.

A interação social cibernética é um tema atual, mas a teoria do “interacionismo simbólico”, que tem como principal expoente George Herbert Mead, caiu como uma luva para explicar esse fenômeno. Trata-se de uma vertente da psicologia social, que estuda a ação do homem através de uma interação dinâmica na sociedade.

A par da complexidade da teoria, vale introduzir aqui alguns conceitos de Mead como mente, self, coisas, símbolos, linguagem, sociedade, auto-interação, ação humana e atividade grupal, para que, com a contextualização desses elementos, se torne mais fácil entender as consequências de complexo interligado entre a linguagem/redes sociais/relações humanas.

A Mente é a ação simbólica do Self, que significa o social, resultado da interação com os significados do outro em relação ao mundo, o que permite o autocontrole e a direção da própria vida. É formado pelo Eu e pelo Mim. O Eu é o lado espontâneo do indivíduo que interage simbolicamente consigo próprio. O Mim representa os padrões compartilhados com outros. Os símbolos são o que vemos, significam a nossa realidade simbólica e, através dessa interação simbólica, atribuímos significados e desenvolvemos a realidade que orienta nossas ações. A linguagem é o instrumento usado pelos indivíduos para ordenar a experiência. É a fonte das discriminações, das generalizações e das classificações.

O mundo é dividido através de significados baseados na linguagem que usamos. Através desses significados os comportamentos são modelados. A sociedade é construída através dessa interação entre linguagem e comportamento.

A autointeração acontece através da interação das pessoas e da maneira como elas agem em relação às coisas. Desta forma, nascem os valores individuais quando a pessoa se coloca na posição do outro e consegue se olhar do lado de fora. A linguagem e a interpretação da autointeração, através da interpretação das ações dos outros, contribuem para a criação de metas, linhas de comportamentos orientando a ação humana.

A ação humana é, então, um resultado formado pela auto-interação; é construída através das indicações que a pessoa faz de si. A atividade grupal é o comportamento cooperativo, construído através da intenção dos outros. É uma resposta à intenção dos outros transmitida através de gestos, que se transformam em símbolos passíveis de interpretações.

“Esse é o nosso mundo

O que é demais nunca é o bastante

E a primeira vez é sempre a última chance

Ninguém vê onde chegamos:

Os assassinos estão livres, nós não estamos”

Um link com o pensamento de Locke

No encontro da linguagem de Mead com a teoria de Locke, podemos dizer que todo conhecimento advém dos sentidos. Estes, por sua vez, só podem captar as coisas de forma superficial, sem chegar as suas causas primordiais. A partir dessa captação surgem as ideias. A compreensão de mundo do indivíduo, então, seria a a concordância ou discordância entre as ideias.

Locke definiu que as crianças não são dotadas de motivação natural para o aprendizado e que seu conhecimento, portanto, deve ser adquirido de forma convidativa, através de jogos, por exemplo. Para o filósofo, os prêmios ou punições manteriam-nos no estágio primário do entendimento e apenas uma educação reflexiva faria com que eles rompessem com a dependência do sentidos.

A mente de uma criança é resultado da interação social com outros em relação ao seu mundo. O seu “eu” espontâneo interage com os padrões compartilhados com os outros, como seus pais, colegas da escola e ambiente em que vive. A linguagem é o instrumento utilizado para influenciar o pensamento, como exemplo o de que “bandido bom é bandido morto”.

Assim, a criança vive em um mundo dividido através de significados, por meio da linguagem que é usada em seu ambiente. Para muitas crianças de hoje, o mundo é divido entre pobres, que assim o são porque querem ser, e ricos, que não precisam roubar, como dizia o menino de verde e amarelo que protestava por um país melhor. Num mundo divido entre pobres e ricos, aquele garoto segurava um cartaz que lhe cobria o rosto e apagava também a sua capacidade de reflexão.

“Vamos lá, tudo bem – eu só quero me divertir

Esquecer dessa noite, ter um lugar legal pra ir

Já entregamos o alvo e a artilharia

Comparamos nossas vidas

E mesmo assim não tenho pena de ninguém”

Tendo acesso apenas a esse tipo de linguagem, esse menino do cartaz, ao crescer, talvez se transforme em um advogado ou em um juiz que trabalhará com a lei, mesmo sem entender nada de justiça e venha a comemorar (assim como faz o senso comum) a morte de cada indivíduo estigmatizado.  Ou, quem sabe, talvez, venha a ser um médico, que terá o dever de salvar vidas mesmo sem jamais conseguir sentir um pouco da dor do outro. Ou, ainda, transformar-se-á em um político, em um empresário ou em um professor que colocará o dinheiro sempre acima de qualquer interesse e, por isso, terá um potencial enorme a infringir a lei penal…

“Eu não esqueço

A riqueza que nós temos

Ninguém consegue perceber

E de pensar nisso tudo, eu, homem feito

Tive medo e não consegui dormir”

Sem sensibilidade, sem qualquer capacidade de reflexão, muitas crianças serão um dia adultos para os quais talvez será impossível se ver no lugar do outro, os quais destinarão aos diferentes apenas o ódio e o medo. E ele, o outro, o negro, o pobre, o desempregado, o imigrante, o estigmatizado lombrosiano, que nada possui, que não fez faculdade, quiçá nunca tenha estudado, responderá a tudo isso tomando com base os gestos e significados através da “interação simbólica”, um estímulo social que o coloca exatamente do lado oposto. E, com isso, jamais respeitará as regras de quem o vê como inimigo, de quem o quer longe do poder porque os pobres no poder irão roubar.

Com perdão que todo sentimento pessimista deveria ter se fosse o despertar para uma mudança, cabe dizer: se não repensarmos a linguagem utilizada em nossos meios de comunicação de uma passagem individualista para a linguagem solidária, as relações sociais estarão fadadas ao fracasso. 

“Já entregamos o alvo e a artilharia

Comparamos nossas vidas

E esperamos que um dia

Nossas vidas possam se encontrar…”

Monaliza Maelly Fernandes Montinegro é Bacharel em Direito pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte; Analista do Seguro Social com formação em Direito; Aprovada no concurso da Defensoria Publica do Estado da Paraíba.

REFERÊNCIAS
Blumer, H. Symbolic interacionism perspective and method. Califórnia: Prentice-Hall; 1969. 
Sexta-feira, 23 de outubro de 2015
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