O roteiro do racismo na educação
Quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O roteiro do racismo na educação

Ser negro no Brasil é, pois, com frequência, ser objeto de um olhar enviesado. A chamada boa sociedade parece considerar que há um lugar predeterminado, lá em baixo, para os negros e assim tranquilamente se comporta. Logo, tanto é incômodo haver permanecido na base da pirâmide social quanto haver "subido na vida". 

– Milton Santos, geógrafo e intelectual negro

Cena 1, dia, restaurante de médio padrão na região conhecida como “centro novo” de São Paulo: criança ensandecida de aproximadamente 06 anos de idade, tem um ataque de fúria contra os pais que lhe negaram o consumo de uma porção extra da saborosa sobremesa. A criança tem a pele bem branquinha, olhos extremamente claros, cabelo ruivo, sarda e traços faciais tipicamente europeus. Os pais dialogam com a criança que se mostra transtornada e se recusa a levantar do chão, onde também já havia atirado o guardanapo, talheres e alguns resíduos de comida. Todos olham enternecidos para a criança e respondem ao olhar constrangidos dos pais, com complacência comovente:

– Criança é assim mesmo! Dê a sobremesa que ela se acalma!

Os pais ainda constrangidos mas aparentemente encurralados pelo escândalo da criança, atendem a solicitação da maioria e cedem a reinvindicação.

Cena 2, dia, município de Macaé há 180km de distância da capital do Estado do Rio de Janeiro, escola da rede pública: criança ensandecida de aproximadamente 08 anos de idade, tem um ataque de fúria contra não se sabe exatamente o que, lança objetos e derruba mesas e cadeiras. A criança tem a pele negra e foi filmada por professores revoltados e que não sabiam como lidar com a situação, pensando em chamar a polícia e até mesmo os Bombeiros. Uma das funcionárias, suponho que seja professora, pergunta:

“- O que a gente faz com uma criança dessas?”

A gravação se espalhou pela internet e os comentários mais ‘leves’ apontavam para a necessidade de surrar a criança:

“- Tem que encher de porrada!”

Cena 3, dia, zona norte de São Paulo, colégio particular há cerca de 30 anos atrás, menina é castigada pelo barulho em sala de aula de 30 alunos na ausência da professora, mesmo com todos os alunos da sala dizendo que a menina era sempre quieta e estava lendo enquanto todos faziam bagunça. A menina tinha a pele negra e era uma das duas únicas alunas negras naquela sala com 28 crianças brancas. 

Cena 4, dia, unidade de menores infratores em Santa Maria, criança de aproximadamente 14 anos, ganha concurso nacional de redação promovido pela Unesco e atribui o prêmio a professora que lhe abriu as portas para o mundo da leitura enquanto estimulava o talento que ela, seguramente desconhecia:

“- A minha professora não ensina matérias, mas sentidos para a vida. É isso que a faz minha heroína.”

O que as quatro cenas, nenhuma delas fictícias, tem em comum? A necessidade de se pensar na qualidade do ensino, mais especificamente, na qualidade das pessoas que estão incumbidas da árdua tarefa de formar cidadãos. A escola, que não é e nem deve ser extensão da família, há muito tempo grita por uma reforma estrutural, onde devem ser quebrados os alicerces perversamente construídos sob os ideais ditatoriais a que o Brasil esteve submetido e que fez muito mais estrago no inconsciente coletivo da população do que supõe a nossa tosca filosofia.

O modelo de ensino obsoleto e carrancudo que não foi feito para EDUCAR e sim para DOUTRINAR pessoas, aliciando seu poder de escolha e relegando ao raciocínio apenas o alcance básico para o controle do crescimento econômico e mal distribuído da sociedade.

Sendo assim, temos algumas gerações forjadas em sala de aula, para reproduzir (pré)conceitos e moralidades duvidosas, impregnadas de uma função binaria, cega que reduz tudo ao conceito de bem/mau. Ou as coisas são boas e dentro da moral vigente estabelecida a priori pela mistura bombástica entre o ente político e o ente religioso, ou as coisas são más baseadas nessa mesma lógica. A história, nesse contexto, jamais foi questionada, jamais foi discutida e vem sendo reproduzida sistematicamente por toda a trajetória que conhecemos e que muitos de nós trilhamos. Esse modelo educacional tem muito dos parâmetros que pautaram as relações coloniais, onde a centralização do poder(professores) é inquestionável e tem função claramente alienante (resquício escravocratas).

O aluno foi transformado, ao longo do percurso educacional que configura o cenário atual, em mero consumidor/armazenador de informação que cuja única função é abrir as portas da universidade que supostamente vai prepará-lo para uma vida profissional e que fatalmente servirá única e exclusivamente a sua individualidade. Resultado: pessoas que convivem em uma mesma cidade, com inúmeras reclamações ao comportamento do outro e nenhum senso crítico a si mesmo, porque foi treinado para atender apenas o seu mundo, comprometido apenas com os limites do seu próprio eu.

Esse quadro niilista e que é insistentemente reduzido a simples falta de recursos, falta de investimentos, entre outras faltas e que deixa a discussão pobre e repetitiva ainda tem que lidar com problemas estruturais da sociedade, como o racismo e a questão de gênero, por exemplo.

Nossos professores estão preparados para isso?

Suponho que não. Diz mais sobre o que sabemos, o que ensinamos. E professores estão ensinando? Não, estão mantendo o processo de armazenamento de conhecimento para ser despejado no vestibular. Não há estímulo ao ato de pensar e o senso crítico não é desenvolvido como deveria. Não há espaço para desenvolver nos alunos a interação social necessária, para que haja espaço de discussão onde as relações que estão fragmentando a sociedade possam ser inicialmente reestabelecidas. E uma das principais questões que fragmentam a sociedade é a questão racial.

Não podemos atribuir a esse fator tão sutil a ausência de investimentos, como muitos gostam de dizer. Fosse isso, as escolas particulares seriam honrosas representantes de um modelo inclusivo apto a preparar cidadãos conscientes de seus papéis e com inclinações decisivas para pensar em como solucionar as desigualdades que são características da sociedade atual. Observando os inúmeros casos de segregação racial e a campanha massiva e silenciosa de boicote a alunos cotistas dentro das mais procuradas universidades que, apesar de públicas, concentram alunos de alta renda e que estudaram nessas instituições, caríssimas e cheias de recursos educacionais, a vida inteira.

O racismo que permeia a sociedade está também nas salas de aula. Ele reside em mentes adormecidas pela alienação que limita a percepção de que as diferenças existem e devem ser respeitadas e naturalizadas como aquilo que une e não que separa. Aprofundando mais um pouco, podemos dizer que a escola deve formar alunos capazes de pensar em como eliminar desigualdades sociais e opressões estruturais, porque essas não têm base fundamentada no pensamento que a criou. Pessoas que pensam e identificam essas distorções sociais automaticamente questionam o que há no cerne dos acontecimentos que promovem ações desse tipo e pensam, principalmente qual seu papel nesse cenário.

A escola é uma versão reduzida da sociedade em que está inserida e o professor deve ser capaz de articular conversas que resultem na reflexão acerca dos acontecimentos que fundamentam essa sociedade. Nas três primeiras cenas apresentadas, temos as causas e as consequências da ausência de preparo daqueles que deveriam promover o aprimoramento do ente que sai do meio familiar e vai buscar a expansão do intelecto na sala de aula. Na primeira cena, a catarse do pensamento social, permissivo e segregatício que vocifera violentamente nas redes sociais e rodas de conversas em tempo real a favor da penalização severa de crianças e jovens periféricos que apresentam comportamento equivalente ao da criança e do adolescente da raça branca.

Passa pela cabeça dessas pessoas, que as crianças e adolescentes negros, precisam desde cedo, lidar com a falta de estrutura financeira de seus pais somada as demandas inerentes a essa fase conturbada da vida? Não. Também não passa pela cabeça dessas pessoas que em um lar onde os problemas alimentados pela atitude racista deles e que impossibilita esses pais de família de proverem o básico para seus filhos, não deixa brecha para o afeto e para as trocas amorosas tão importantes na formação do ser humano.

Se a escola preparasse pessoas aptas ao ato de pensar, eles facilmente chegariam a essa conclusão óbvia. Racismo também é cultural. Até uma percepção comparativa da própria situação com a das pessoas que vive nas bordas das cidades já despertariam o instinto de humanidade capaz de implementar maneira eficientes de lidar com essas ausências familiares e não a reagir de forma histérica e pueril diante dela. O nome disso é SENSO CRÍTICO.

Então achamos que não é possível acabar com o racismo, com o machismo e com essas distorções sociais e com suas consequências muito mais graves do que os adeptos do umbiguismo gostam de acreditar que são. Mas se falta discernimento no trato com essas questões, devemos atribuir a escola uma parte significativa disso. Tem professor misógino em sala de aula. Tem professor racista. Tem professor homofóbico. Tem professor pedófilo. E mais uma gama de deformadores de opinião contribuindo livremente para que o status quo permanece tal qual está.

Quantos projetos bem sucedidos de implantação da Lei 10.639/2003 podemos apurar? Sequer foi implementado em sua totalidade. Nossas crianças leem o racista Monteiro Lobato, mas não sabem da existência de Jarid Arraes e seu “Lendas de Dandara” ou mesmo “Contos Africanos para crianças” de Rogério Andrade Barbosa, entre outros diversos livros infanto-juvenis voltados para a valorização da cultura afro Latina.

A funcionária da escola pergunta em algum momento do vídeo:

“O que fazer com uma criança dessas?”

Na última cena, a professora que se dispõe a lapidar talentos e estimular mentes a pensar responde a essa pergunta. Em um ambiente propício a manifestação das tais distorções sociais uma pessoa com formação visivelmente mais completa, ilumina caminhos de adolescentes marginalizadas por uma sociedade histérica e acredita que a vida pode ser transformada.

Se alguns, apesar dos recursos limitados e dos salários que todos sabemos que estão longe de ser o ideal, conseguem ir além, outros também poderia, deveriam, porque inclusive a falta de recursos é consequência de uma política acrítica que reflete uma sociedade que não pensa, que é alienada e facilmente manipulada pelos meios de comunicação. Estamos em um momento da história, em que se pede o retorno de um fantasma que sequer conseguimos despachar efetivamente: A ditadura militar.

Será que a escola não tem nada a ver com isso? Genocídio da população negra também passa pelo apagamento de sua identidade nas salas de aula e da conivência de professores que não discutem esses assuntos pontuais. Quantas escolas estão inserindo informações vitais para a população negra, como suas origens africanas por exemplo. Há uma quantidade expressiva de negros que não conhecem absolutamente nada de suas origens, da sua cultura. A escola acha mesmo que não tem nada a ver com isso? Posso afirmar seguramente, que os educadores que gravaram o vídeo da criança negra descontrolada não saberiam responder sobre os efeitos do racismo na formação de uma criança, quais sejam: baixa autoestima, negação da própria imagem, sentimentos de angústia e revolta, dificuldades de relacionamento, diminuição do rendimento escolar. Os professores precisam desconstruir o próprio racismo para poder lidar com a presença de crianças negras em sala de aula de maneira humana. Isso é raro. Muito raro.

A criança da cena 03, apresentou ao longo da vida, esse conjunto de sintomas que só começaram a ser suavizados quando ela encontrou uma educadora como a da cena 04. A transformação em sala de aula foi notável, e a criança que a essa altura já era uma adolescente, entre outros feitos tornou-se uma figura engajada, envolvidas com o grêmio estudantil e emitindo opiniões nas interações com outros colegas e professores.

É claro que houve sequelas, pois a revolta calada e que era proporcional a que o menino negro manifestou, não se dissolve facilmente. Muitas crianças experimentam situações similares nas escolas públicas e particulares e não chamam atenção porque calam. Não podemos afirmar que a reação do menino teria sido motivada unicamente como reação ao racismo, mas tenho certeza que esse fantasma de alguma forma esteve ali, até pela reação dos adultos envolvidos.  Conjecturas a parte, uma criança branca não assustaria ou imobilizaria tanto assim e desfrutaria da complacência que a criança da cena 01 obteve.

Porque tenho tanta certeza? Talvez por que a criança da cena 03 era essa que vos escreve e que passou por situações onde a vontade de agir como aquele menino só foi contida pela timidez natural que me cabia naquele momento. Ou talvez porque as experiências que me trouxeram até aqui, me dão a certeza de que um professor para educar, antes precisa ser educado. Ou porque vivo em uma sociedade que ainda discute cotas e outras medidas afirmativas ao mesmo tempo que cria hashtags para casos de racismo contra famosos e não dá a mínima para casos de racismo praticados por eles mesmo no cotidiano. Talvez porque vejo crianças negras desistirem dos estudos vencidos pela pressão causadas devido as tensões raciais que borbulham no caldeirão escolar. Talvez porque vejo jovens negros sucumbirem a criminalidade acreditando no senso comum que é passado, inclusive pela escola, de que o lugar da pessoa negra não é a vida acadêmica. Talvez.

“No Brasil, onde a cidadania é, geralmente, mutilada, o caso dos negros é emblemático. Os interesses cristalizados, que produziram convicções escravocratas arraigadas, mantêm os estereótipos, que não ficam no limite do simbólico, incidindo sobre os demais aspectos das relações sociais. Na esfera pública, o corpo acaba por ter um peso maior do que o espírito na formação da socialidade e da sociabilidade.”

– Milton Santos

Dedico esse texto as professoras do CEU Alvarenga Kelly Santos e Tatiana Santos por serem da turma da profissional descrita na cena 04.

Joice Berth é Arquiteta e Urbanista pela Universidade Nove de Julho e Pós graduada em Direito Urbanístico pela PUC-MG. Feminista Interseccional Negra e integrante do Coletivo Imprensa Feminista.
Quinta-feira, 5 de novembro de 2015
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