“#Meaculpa”: são feministas os homens que se dizem feministas?
Sexta-feira, 13 de novembro de 2015

“#Meaculpa”: são feministas os homens que se dizem feministas?

Em uma conversa de bar com um amigo muito querido, o assunto era reforma íntima. No melhor estilo autoajuda, ele me contava o quanto tinha mudado seu comportamento com relação às mulheres ouvindo as falas da irmã e da ex-namorada, com quem mantém uma relação infelizmente incomum, de amizade e respeito pós-relacionamento de quase 3 anos. Duas feministas, dessas que extrapolam o modismo histérico que a mídia tenta perpetrar entre as mais jovens após a #PrimaveradasMuheres, e se aprofundam lendo e discutindo, ajustando o discurso a prática diária.

Ele conta que após o término do relacionamento, onde seu machismo foi um grande colaborador, passou a se questionar e ouvir a opinião dessas duas mulheres e passou por um período de tristeza por constatar que ele era tão machista quanto os homens que ele tanto criticava. Conversa rola e eu acabei por perguntar, como uma espécie de prova dos nove (mesmo amando muitos homens jamais fecho os olhos para os efeitos da dominação machista que eles apresentam e não hesito em criticar e repudiar, coisa que acredito que todas as mulheres deveriam fazer):

-Você se considera um homem feminista?

– Claro que não! De tudo que entendi acho que não seria impossível! Mas apoio do jeito que dá.

Feminismo é a ideia radical de que pessoas são pessoas e devem gozar dos mesmos direitos que outras pessoas tomaram para si com exclusividade. Essas pessoas que compõe a luta feminista são sujeito de uma opressão criteriosamente pensada para que outro grupo de pessoas pudessem criar riquezas e desfrutar dos benefícios que esta traz. Como centralizadoras de riqueza, algumas pessoas se sentiram no direito de ditar regras, regras essas criadas de tal maneira que garantissem que essas pessoas continuassem a sua proveitosa tarefa de concentrar riquezas.

Para que esse sistema de coisas prosseguisse com sucesso que garantisse os privilégios que os criadores de riqueza concentraram em si, algumas culturas de sustentação foram cunhadas e propagadas nas bases sociais. E vestindo o substantivo pessoas para a lógica binária que nos foi imposta, podemos dizer para exemplificar de forma comum:

Homem = ativo criador/concentrador de riquezas

Mulher= passivo mantenedor da possibilidade de criar/concentrar riquezas.

Mas um ser passivo (o feminino) não o é por natureza. Ninguém gosta de ser explorado, abusado, confinado, violentado, subestimado, apagado, etc. Então, enquanto criadores de riquezas e, afim de manterem sob controle aquela categoria de pessoas (mulheres) que permitiriam a livre locomoção do ser dominante (homem), e suas estruturas de poder criadas pela e para a formação de riquezas, fica estabelecido um conjunto de atitudes paralisadoras das forças da mulher, atuando de forma profunda no seu psicológico e refletindo no seu comportamento e no comportamento dos demais atores sociais.

Da mesma forma que ocorre com o racismo, o machismo também está programado e programando pessoas para viver em sociedade achando que esse estado de coisas não poderia ser diferente e, o pior, achando que isso é justo ou democrático. Acham que é natural mulheres terem salários menores, que é natural mulheres criminalizadas pelo aborto, que é natural a mulher ocupar uma subcategoria humana e ter seus direitos cerceados a partir da inserção nesse espaço social.

“Sendo um crime estrutural com fortes bases culturais alicerçando suas práticas diárias, como poderia um homem ser feministas se ele é o ator principal, enquanto reprodutor automático desse sistema de poder?"

Está no cerne social, dentro da família, no ambiente de trabalho, nas mídias, literatura, saúde e em todos os lugares possíveis e imagináveis, porque é político, mas é também cultural. O crime perfeito. De tanto ser praticado, foi internalizado inclusive pelas vítimas (mulheres). Se foi internalizado até pelas vítimas, o que dizer dos criminosos.

A estrutura está montada para que isso continue e o feminismo briga pelo desmonte dessa estrutura e contra suas consequências nefastas, que vão desde o assédio nos espaços públicos ao feminicídio, tudo praticado com naturalidade e nenhum questionamento.

Exemplo disso é a última campanha que explicitou números assombrosos de assédios que as mulheres sofrem em todas as idades, desde a mais tenra infância até o fim da vida.

Se você é mulher e está numa roda de conversa, com homens que se dizem feministas, não demorará muito para que tenha sua voz silenciada. Porque o conceito de superioridade intelectual estará ali, dentro deles. Eles acham que sabem mais de seus incômodos do que você, mulher.

Mas existem homens que insistem em se dizer feministas, levantam bandeiras e gritam palavras de ordem. São caricaturas impregnadas de hipocrisia e demagogia, acompanhadas de um ego patético que os impedem de questionar seus próprios comportamentos machistas.

Os homens mais dignos e conscientes que conheço, atuam silenciosamente no seu cotidiano, apoiando suas companheiras, acatando as premissas ditadas por elas e usando incansavelmente na sua DESCONSTRUÇÃO. Eles sempre que podem dialogam com outros homens a respeito, mas nunca, nunca pleiteiam para si a alcunha de “FEMINISTOS”. A coerência e o bom senso os impede.

Esses homens entenderam profundamente a luta das mulheres e são os verdadeiros apoiadores. Eles consomem mulheres no sentido subjetivo da palavra, se voltando para nossas vozes na literatura, cinema, teatro, nas poucas lideranças empresariais e políticas. Alguns vão além: já me perguntaram sobre a necessidade de interseccionar o movimento feminista e porque eu me coloco como feminista negra. Esses homens nunca riram de nenhuma piada sexista e ainda verbalizaram a irritação com elas. Não cobram protagonismo e, embora revoltados com apontamentos sobre seu machismo vindo de outras mulheres que não lhe eram pares afetivos ou membros familiares, se calaram ao invés de reagir grosseiramente. Mas são pouquíssimos.

E não se acham especiais por isso. Certamente seus filhos serão criados de outra forma – ainda que esses homens costumem ser solitários, avessos às aglomerações sociais, onde o machismo exacerbado traz à tona suas próprias deformações, as quais eles lutam arduamente para eliminar.

Esses homens não se dizem feministas, pois apesar do apoio e interesse na reconstrução de novos paradigmas igualitários e humanizados, eles têm a decência de se saberem possuidores de inúmeros privilégios, porque a desconstrução não é geral, é individual, de acordo com o interesse de cada um. E essa impossibilidade de encaixar o homem como ativo e articulador dentro do feminismo não é algo inerente à minha crença pessoal. Isso é uma questão técnica que se enquadra na lógica do feminismo, uma vez que não estamos falando em teoria ou ideologia, estamos falando de luta social pautada em necessidades políticas de tomada de direitos negados, como no passado o direito ao voto e atualmente a criminalização do aborto e da violência contra a mulher como prática consubstanciada pelo Estado.

Algumas mulheres dentro do próprio movimento feminista, pela carga passional com que atuam (e isso não é uma crítica a elas, absolutamente), acabam por classificar homens como feministas.

Mas sejamos coerentes: ao homem feminista caberia basicamente o desprendimento imediato de todos os privilégios que o machismo lhes garante em todas as camadas sociais, econômicas e políticas. Seria necessário que homens de esquerda e de direita anulassem os padrões estéticos criados por eles, na enrustida tentativa de minar o pensamento político de mulheres, e de hierarquizar essa categoria de pessoas estabelecendo ‘mais valia’ àquelas que encaixam nesses padrões e eliminando a força psicológica daquelas que não são contempladas. Eles também nos devolveriam o direito ao nosso corpo, eliminando todo tipo de violência e inclusive saberiam identificar as diversas formas de violência que cometem contra as mulheres diariamente.

Seria preciso também, muito além de reconhecer seus abusos e fazer um #meaculpa via redes sociais, se debruçar seriamente sobre discussões e resoluções que garantissem a reversão dos efeitos no machismo na nossa sociedade.

Ou seja, quem estaria a fim de dar um tiro no próprio pé e construir um novo, completamente diferente do que foi usado a vida inteira e que garantiu tantos benefícios, inclusive aqueles que nem se sabe que existem?

Agora, aprofundando, porque esses homens ávidos em se autoproclamarem feministas, não encabeçam NENHUMA AÇÃO DE COMBATE AO MACHISMO DENTRO DO MEIO EM QUE VIVEM.

Nós, feministas de todas as vertentes, dialogamos e articulamos formas de informar e empoderar outras mulheres, visando o fortalecimento e a propagação da necessidade de emancipação e da garantia de nossos direitos. Falamos com e para mulheres. Seria cabível que esses feministos atuassem da mesma forma entre os homens. Esse sim é o apoio que queremos. Eles poderiam, por exemplo, abrir os espaços para que possamos falar sobre nossas questões, mas não com a síndrome de salvador, tão comum a grupos opressores, e sim com desprendimento de quem acredita estar ocupando espaço maior que a ética igualitária permitiria. Eles poderiam criar mecanismos de proteção as vítimas de agressão e promover o boicote de homens abusadores, pedófilos, estupradores nos espaços trabalhistas e educacionais.

Existem, enfim, muitas maneiras de homens decentes e coerentes apoiarem o feminismo – claramente uma questão que deveria atingir a todos. Mas, enquanto houver um grupo de homens cínicos e de caráter duvidosos bancando os feministos, para dar corpo as suas intenções escusas de manterem os privilégios que o machismo os oferece, assistiremos as manifestações caricatas, canastronas e lamentáveis que temos visto nos espaços virtuais nas últimas semanas. E esse tipo de homem, que usa o feminismo como uma maquiagem ou verniz patriarcal, que convence moças e mulheres menos atentas, são o contrário do que tentam mostrar, extremamente nocivos à luta séria que estamos travando pela nossa liberdade há anos.

Joice Berth é Arquiteta e Urbanista pela Universidade Nove de Julho e Pós graduada em Direito Urbanístico pela PUC-MG. Feminista Interseccional Negra e integrante do Coletivo Imprensa Feminista.
Sexta-feira, 13 de novembro de 2015
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